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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 01

Temos o prazer de anunciar que oescritor Pernanbucano Sandro França irá semanalmente escrever um conto sequencial ambientado na terra média.

Sandro França (Anárion) é de  Recife-PE, baterista por vocação, contador por formação e estudante por paixão. Um bardo, um leitor, um escritor apaixonado pela obra do mestre J.R.R. Tolkien.

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Parte I – A FLORESTA DAS TREVAS

Naquela noite não choveu novamente, e a floresta já parecia menos úmida. Isso era uma boa notícia diante dos dias de chuva forte pelo qual tinha passado. Não era fácil caminhar na floresta úmida, ainda mais sendo a assombrosa Floresta das Trevas.

Quando a noite começou a cair, procurou refúgio em uma clareira entre as árvores, e fez uma pequena fogueira. Conseguiu caçar alguma comida ainda durante o dia, e sabia que a noite seria tranqüila, se é que se pode chamar de tranqüila uma noite num lugar como aquele. Olhos…olhos na escuridão sempre o cercava. Noite após noite, ele os via, e duras foram as vezes em que não conseguiu ter fogo para os afugentar e trazer vantagem pela luz.

Após saciar-se, ouvia aqui e ali alguns barulhos, e sabia que estava sendo sondado. Pegou sua velha harpa, e começou a entoar uma canção enquanto olhava o pouco do céu que aquele inferno verde lhe permitia ver:

“Tais ágeis membros não mais correrão
na verde terra debaixo do Sol;
tão bela uma donzela não mais será
desde a aurora ao anoitecer, desde o Sol ao Mar.
O seu vestido era azul como os céus de Verão,
mas cinzentos como o entardecer eram os seus olhos;
o seu manto bordado com belos lilios,
mas escuros como as sombras os seus cabelos.
Os seus pés eram rápidos como um pássaro a voar,
o seu riso alegre como a Primavera;
o esbelto salgueiro, o dobradiço junco,
a fragrância de um prado florido,
a luz sobre as folhas das árvores,
a voz da água, mais que tudo isto
era a sua beleza e bem-aventurança,
a sua glória e encanto.

Ela habitava na terra encantada
enquanto o poder élfico ainda dominava
os bosques entrelaçados de Doriath:
ninguém nunca para ai encontrou o caminho
sem ser convidado, nem a beira da floresta
se atreveu a passar, ou agitar as folhas atentas.
Para norte ficava uma terra de medo,
Dungortheb onde todos os caminhos acabavam
em colinas de sombras escuras e frias;
para lá era o domínio da Mortífera Floresta sob a Noite
na crescente sombra de Taur-nu-Fuin,
onde o Sol era doentio e a Lua pálida.
Para Sul a grande terra inexplorada;
para Oeste o antigo Oceano troava,
não navegado e sem costas, imenso e selvagem;
para Este em picos de azul empilhadas,
em silêncio envolvidas, encimadas de névoa,
as montanhas do mundo exterior.

Assim Thingol no seu belo salão
entre as altas Mil Cavernas
de Menegroth como rei vivia:
para ele nenhuma estrada mortal levava.
Ao seu lado sentava-se a sua rainha imortal,
a bela Melian, que tecia invisíveis
redes de encantamentos em redor do seu trono,
e feitiços eram postos em árvore e pedra:
aguçada era a sua espada e alto o seu elmo,
o rei da faia, carvalho e olmo.
Quando a erva era verde e as folhas longas,
quando o tentilhão e o tordo cantavam a sua canção,
ai por baixo dos ramos e debaixo do Sol
na sombra e na luz corria
a bela Lúthien a dama élfica,
dançando em vales e verdejantes clareiras”.

De repente parou de cantar, e tocar, e escutou a noite. Não haviam mais feras cercando-o, mas havia outros. Sorriu, de canto, e falou:
– Belos filhos de Illúvatar, Eldalië, Primeiros a Nascer, Belo Povo, eu os saúdo! – Tocou um acorde. Das sombras uma voz clara como o correr de águas límpidas o indagou:
– Quem és tu, Filho do Sol, que adentras o domínio dos Eldar na Floresta das Trevas, e ainda canta histórias de nosso povo em nossa própria língua?
– Sou Anárion, O Bardo, mesmo nome do antigo Rei de Gondor, mas não possuo coroa, nem majestade, e nada além de um arco, uma espada, e uma harpa. À caminho de Erebor estou, e por estas sendas vim, contra todos os perigos, avisos, e lendas. Se fui rude ao adentrar os vossos domínios, deles não tinha conhecimento exato, pois do imenso reino de Thranduil, não conheço as fronteiras. Estarei eu incorrendo em erro?
– Isso não nos cabe julgar, mas visto que és pacífico a nossos olhos, caminha conosco em paz até os nossos salões, pois este é o desejo do rei.

Tochas foram acessas nesse momento, e cerca de oito elfos se aproximaram, prestando uma rápida reverencia, prontamente respondida pelo Bardo.
– Que assim seja eldaliës, convosco caminharei nesta noite de lua.
– Vês tu além das árvores para predizerdes o tempo?
– Não… de fato não… mas o coração que ama nunca perderá a sensibilidade!

Elevou seus pensamentos ao distante sul, e lembrou do sorriso daquela que amava.

Caminharam por cerca de uma hora. Além da comitiva composta pelos elfos e pelo Bardo, percebia-se ao redor outras criaturas espreitando na noite silenciosa. Aranhas, lobos selvagens, morcegos, ursos medonhos, serpentes,… todos atenciosos à trilha que a comitiva percorria, não pelo barulho de seus passos, mas pelas lanternas acessas na sombra, como um ser espiritual iluminando em sua glória a escuridão reinante enquanto destila os seus passos.

Essa foi a impressão que teve Anárion, enquanto caminhava, e logo lhe veio à mente histórias que tinha ouvido tempos atrás. Lembrou dos contos sobre Oromë, e suas cavalgadas sobre seu corcel Nahar, tocando sua enorme trompa Valaróma cujo som se assemelha ao nascer do Sol escarlate, ou ao puro relâmpago que divide as nuvens, fazendo a terra tremer debaixo de seu rastro. Foi ele quem primeiro encontrou os elfos em Cuiviénen nas Terras-de-Cá, quando o mundo ainda era jovem, os homens não tinham despertado, e nem a lua nem o sol haviam alçado seus primeiros vôos.

Ao final de uma longa trilha através da floresta, cujo formato apenas os elfos pareciam conhecer, finalmente desceram algo como um regato, e ao som de águas curtas e ligeiras, abriu-se uma ponte de cordas, muito bem defendida por duas duplas de elfos guardiões, visto apenas quando pediram a senha, e receberam a contra-senha do grupo de batedores que se aproximava. Além da ponte por sobre o regato, a margem era limpa, sem árvores até a encosta de uma grande elevação no solo, por sobre a qual se viam inúmeras árvores dando prosseguimento à floresta. Da borda do regato, até a barreira, a vegetação era de apenas grama. Ao centro, na direção da própria ponte, uma enorme porta elevava-se imponente. Os portões foram abertos, e Anárion não soube por qual força, visto que eram espessos e pesados, e assim que a comitiva adentrou o Reino de Thranduil, os portões se fecharam.

Haviam muitos corredores lá dentro, para os mais variados lados. Um pouco rústico era o recinto, mas acolhedor, bem iluminado, e nele se encontrava quase que em cada seguimento elfos cuidando de seus próprios assuntos. Seguiram por dois longos corredores, até avançarem contra uma outra pesada porta. Além desta, dois capitães dos elfos passaram a conduzir o anfitrião, liberando do serviço os demais batedores. Foi na companhia deste elfo que Anárion chegou diante do salão real de Thranduil.

Muitos membros da corte dos elfos daquele reino estavam presentes. As cadeiras mais altas eram do Rei Thranduil e de sua esposa, e um pouco mais abaixo, a de seu primogênito, o príncipe Legolas Verde-Folha.

Um arauto, posto abaixo da curta escadaria que dava no trono, anunciou o convidado:
– Saudações a todos os presentes. Que a graça dos Valar os proteja. É com grande honra que recebemos hoje no salão de nosso rei, pela primeira vez em nossa história, um dos filhos dos Edaín. Anárion é seu nome, filho de Galdor, um Bardo como se diz, um guerreiro apreciador de música e histórias. Esta é a corte do Reino dos Elfos da Floresta das Trevas, alto senhor dos elfos da Floresta das Trevas, nosso soberano. Sede bem vindo aos Palácios de Thranduil!

Anárion prestou uma profunda reverência diante do anúncio feito pelo arauto do rei. Prostrou-se sobre um dos joelhos, e curvou-se, até que o rei levantou-se e pediu que ele ficasse de pé.

– Anárion, filho de Galdor, vi em meus sonhos um dos filhos do sul caminhando na floresta. Tem consciência dos perigos que o cercava a cada noite?

Anárion sorriu, meneando a cabeça. Falou de forma lenta e clara:

– Sou grato por vossa cortesia meu senhor, e estou mais que honrado em estar diante de tão nobres. A aventura sempre foi o meu combustível, e sim, embora não tenha a visão dos elfos, tinha consciência dos perigos físicos que me cercavam, ao menos destes.

Thranduil sorriu, mas sua expressão era muito pensativa. Com um sinal de sua mão, alguns dos presentes se foram, e outros elfos abriram uma porta lateral, que dava para um salão simples, mas aconchegante, bem iluminado, onde uma grande mesa fora posta no centro com alimento. Haviam três grandes fogueiras num canto, e seu choro em fumaça se perdia por saídas semelhantes a dutos de ar, provavelmente em direção à noite lá fora.

– Caminhe comigo filho de Galdor. Cearemos juntos esta noite.

Todos agora estavam sentados à mesa, e Anárion estava à destra do rei. Os presentes se envolviam em suas próprias conversas, mas o rei continuou a falar com Anárion.

– Que motivos o fizeram partir do sul para uma viagem como esta filho de Galdor? Posso dizer pelo que deduzi, que seus caminhos são estranhos. Pareces não estar indo a lugar algum, e ao mesmo tempo já estivestes em muitos lugares, ou estaria minha intuição traída?

Anárion riu diante da perspicácia demonstrada pelo rei, um rei de visão aguda e sagaz.

–  Sempre fui admirador da leitura, e à medida que cresci em Belfalas, criei o gosto pelos estudos das tradições e histórias. Foi mágico para mim enquanto criança e adolescente, ler sobre todos aqueles lugares, povos, reinos, de hoje e de outrora. Aprendi a tocar harpa, assim como aprendi a usar espada e arco, e foi nesse tempo que comecei a produzir meus primeiros textos, e esboçar minhas primeiras canções. Nada que se compare ao que os menestréis élficos produzem e já produziram, mas coisas simples que deixam um simples homem feliz. Como amante de história, comecei a cantar esta em forma de canções, e disto me veio o apelido de Bardo.

Thranduil observava atentamente o jovem senhor, como que perscrutando seus olhos, sua alma. Anárion continuou:

– Em uma tarde, um pensamento me veio: por que não empreitar uma viagem pela Terra-Média, para conhecer pessoalmente os tantos belos lugares sobre os quais havia lido? O desejo de escrever um conto sobre minhas viagens cresceu em meu coração, então me vi impelido em realizar esta proeza, e contra toda a razão para muitos, viajar sozinho, levando comigo apenas minha harpa, arco e espada, afim de conhecer esta terrivelmente bela terra. Com este desejo no coração deixei o sul, e hoje conto vinte e três dias de viagem desde que desci de um barco na altura do Rauros, e vim seguindo para o norte pela margem leste do Anduin.

– O que foi para ti um imenso perigo visto que andasse por território de orcs juramentados a Dol Guldur, o redudo maligno de um Necromante na parte sul da Floresta das Trevas. É lá que não conhecestes a extensão dos perigos que te cercava, e foi lá que aparecestes em meus sonhos. – Disse-lhe o rei. Aproximou seu corpo mais para a mesa, e falou à alma do Bardo: – Ouço teu relato, e sei que em parte mentes. O desejo de conhecer te cercava, mas o estopim de tua partida é uma dor no coração. Respeitarei o teu desejo de sobre tal não falar, mas espero que em tuas andanças encontres cura para os males de tua alma. O mundo não é um lugar perfeito, mas cabe a cada um de nós tentar torná-lo melhor a cada dia. O mais belo de ti será sepultado enquanto alimentares ódio e rancor por pecados passados. Perdoa a ti mesmo, aos outros, e segue o teu caminho filho de Galdor. – Sorriu, tocando-lhe o braço. Os olhos de Anárion estavam rasos d’água: – Não lamentes esta noite, pois terás descanso e paz em meus domínios. Senta comigo agora diante do fogo, e ouçamos as canções de nosso povo. Que seu espírito esteja em paz e consolado.

 Foi assim que uns minutos depois, muitos dos presentes estavam acomodados em almofadas de penas diante das fogueiras no canto do salão. Dois menestréis élficos cantaram por longo tempo, canções belas e antigas, dos dias jovens do mundo, dos tempos em que o mal não tinha dedos tão longos, ou sobre tais ainda não se sabia. Um a  um os corações dos presentes foram inundados de temperança e descanso, enquanto seus pensamentos se elevavam a cada frase, projetando em visões e em suas mentes as coisas cantadas pelo Belo Povo.

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14 comentários

  1. Tatiana Souza /

    Lindo seu texto ! Quanta eloquência ! Amo o rei Thranduil e adoraria se tivesse uma estória de amor sobre ele !

  2. me emocionei! suas palavras me iludiram como se eu realmente estivese ao lado do rei.nao esquecerei de teus contos.

  3. monique /

    🙂 com o gostosão do Thranduil por perto quem vai ter medo dessa floresta , a eu não?!

  4. Bem, ainda não li, mas como te conheço a um tempo e já li alguns outros escritos seus sei que este será ótimo. Prometo tirar o fim de semana pra ler, rs! Parabéns pela dedicação Sandro.

  5. Muito bom. Posso divulgar na pagina do face que sou adm o Nerd Socialista.

    Acho que vão gostar. Contos da Terra Média são sempre bem vindos.

    https://www.facebook.com/NerdSocialista

  6. Elimar Diego /

    E aí Nêgo véio!!! Show esses seus textos, e continue sempre assim… cê sabe que seus amigos, os verdadeiros, sempre irão te apoiar nessa nova caminhada… Sucesso!!!

  7. Parabéns amigo! sempre acompanho seus textos, amei esta edição e continuarei esperando as proximas novidades! tinha que vir de você!! me orgulho de ter um amigo tão inteligente! não desista nunca!

  8. DIogenes Santos /

    Perfeito Sandro! Você tem um talento indescritível com os textos…. Esperarei ansiosamente a próxima parte.

  9. Muito bom!
    E eu conheço a mente brilhante por traz deste Texto.
    Esta de parabéns!

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