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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 05

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média.

Você pode ver as partes anteriores clicando nos links:

Parte 01 -A Floresta das trevas

Parte 02 – Caminho pelo Rio

Parte 03 – Rio Abaixo

Parte 04 -Cativo

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Parte 5 – Ainda Há Esperança

 

– Acordem seus bastardos miseráveis e imundos. Trouxe, como sempre, trabalho para o café da manhã. Espero que apreciem!

Os brados ecoaram aterradores como sempre, numa gentileza fingida e irônica, despertando os poucos que ainda dormiam naquela manhã. Para evitar os chutes e bofetadas, rapidamente levantaram-se e saíram da cela. Anárion estava entre eles, próximo de Elmmeth e seguido por Rasgul. Em fila única partiram, sob a vigilância de soldados vestidos de negro. Haviam muitos por todos os lados, mas não tantos que pudessem conter com o total de prisioneiros, se estes fossem conhecedores das artes de luta e se rebelassem. A principal função do cativeiro era minar o homem, suas esperanças, sua confiança, a capacidade de lutar. Assim o controle das massas tornava-se algo mais fácil.

Para a fonte se dirigiram todos, escoltados como estavam. Lá deveriam tomar toda a água que pudessem, e encher os alforjes com ela. Essa porção deveria durar todo o dia. O trabalho os aguardava. As duas porções de refeição eram jogadas próximo ao meio-dia, e no final da tarde. Entre uma hora antes do meio-dia e duas horas depois, ninguém trabalhava, pois mesmo os duros Easterlings sabiam que ninguém poderia suportar por muitos dias esse tipo de esforço exposto ao causticante sol de Rhûn.

– Não deve ser nem oito horas da manhã e o sol já está insuportável. Esse calor deve ser a punição sobre este povo por pecados antigos. Mesmo assim, pelo que pude aprender com Rasgul, nem todos são ruins, embora dificilmente pudessem se adaptar à nossa cultura. – Elmmeth passou a mão na testa afastando os cabelos depois que terminou de falar. Molhados, eles grudavam em seu rosto.

– Este povo se fixou aqui há muito tempo, e não são seus pecados que determinam ou não as condições climáticas. Acredito que este sol seja apenas o sol, livre de ecos de pecados antigos. – Anárion sorriu e repousou uma das mãos sobre o ombro de Elmmeth, enquanto continuou a falar. – Por outro lado meu amigo, concordo quando falas que nem todos são ruins, e aqui vemos a essência da natureza do homem, seja superior ou inferior. Nenhum deles nasce determinantemente mal ou bom. É o seu meio, a forma como é criado, e sua própria personalidade que determinará quem ele será, como ele será.

Um dos soldados Orientais que estava guardando os prisioneiros durante o trajeto até as minas percebeu a conversa e observou Anárion durante um tempo. Depois se aproximou dele um pouco mais, e ali seguiu.

– O peso cultural sobre este povo é muito grande. Vejam como são forçados a se submeter a costumes e ritos desde cedo. Não é estranho para mim que cresçam doentes de ódio pelos homens do ocidente. As batalhas travadas no passado foram pelos motivos do passado. Muitos dos que lutam hoje sequer sabem os motivos para estarem nas linhas de combate. Prefeririam estar com suas esposas, pais, filhos, amigos, e esse sentimento é comum aqui, ou em Gondor, ou em Rohan meu amigo. – Continuou Anárion.

– Você tem compaixão por estes que te aprisionam? – Perguntou Elmmeth, em tom sério.

– Eu entendo que nenhum homem nasce para o conflito. Se somos atacados, nos defendemos, mas ainda assim, isso não invalida minha forma de pensar a natureza humana. A necessidade da família de Rasgul fez você apiedar-se da condição deles. Naquele momento, não eram Orientais, ou Rohirrins, ou Gondorianos… Eram apenas seres humanos ajudando-se mutuamente, como entendo que deveria sempre ser. Não é o lugar onde nascemos que determina quem seremos. Númenor caiu, apesar de sua origem gloriosa. Entre os Orientais há bons corações, mesmo que oprimidos sob o peso cultural; como também em Rohan ou Gondor, diante de toda a liberdade e luz, há corações sombrios e inclinados para o mal. Mesmo em meu próprio sangue sei que há…! – Baixou um pouco a cabeça, olhando fixamente algum ponto perdido, como se estivesse tendo visões. Depois contemplou o horizonte, e seus claros olhos eram como antigas esculturas de pedra. Então Elmmeth percebeu em Anárion a sabedoria antiga, dos altos homens que vieram nas asas da tempestade pelo mar. Aquilo do qual só ouvira falar, agora de descortinava diante de seus olhos. Respirou fundo, e seguiu caminhando. O soldado que estava caminhando próximo parou, e por alguns instantes não se moveu. Depois saiu em outra direção, e não retornou.

Prosseguiram em silêncio até os campos de trabalho. Lá os cativos eram divididos. Alguns adentravam cavernas nas colinas rochosas, indo trabalhar nas minas, outros desciam o riacho, para os garimpos, outros ainda dirigiam-se para as forjas, enquanto outros apenas carregam minerais, materiais, peças de ferro, para lá e para cá, entre oficinas e postos de estocagem, e outros centros daquela complexa máquina de guerra em Rhûn. Perigoso era aquele povo, e determinado em seus afazeres. Não sorriam, não eram muito pacientes, não se tocavam nem em cumprimentos. Seus modos eram retos e duros, sempre firmes, numa aparência de falta de amor assombrosa.

Durante toda a manhã os três companheiros trabalharam transportando coisas, e palavra alguma trocaram. Rasgul parecia sempre abatido de espírito, como quem lamenta por muitos dias grandes tristezas. Elmmeth apenas meditava em tudo o que o Bardo havia lhe dito naquela manhã, e em outras coisas próprias de seu reino, de sua família, do seu tempo. Anárion observava os Orientais. Próprio de seu anseio quando decidiu viajar, iria escrever sobre o que vira, e mesmo agora em situação difícil, ele continuava firme nesse propósito, alimentando a esperança de se ver livre daquelas garras negras um dia. Isso o fazia forte, isso o fazia viver, isso o deixava alerta. A lembranças das coisas que amava, das pessoas queridas, de tudo o que era bom e belo em seu coração, era como uma fonte interminável de água em seu interior. Ele sabia que jamais deveria deixar que aquela fonte fosse minada, pois era o último refúgio seu em momentos de dor e desespero quando tudo o mais se fechava e escurecia. Ele carregava o seu cantinho dentro de si, e aquela terra era sagrada e impossível de ser acessada facilmente, a não ser por ele mesmo.

Quando a noite veio, novamente se pegou olhando a lua, e as estrelas, e pensando em muitas coisas. Sentiu os dedos doloridos, e lembrou dos acordes que outrora destilava sobre sua harpa. Desejou ter ela consigo naquele momento para cantar, para ouvir mesmo que por um instante a doçura de suas notas, mas ela estava abandonada e quebrada em algum lugar distante, pisada por pés firmes, de homens duros, com corações de pedra. Pobres Orientais… eram escravos de si mesmos.

– Querida senhora Varda, a quem os eldalië tanto veneram e sobre a qual tanto cantam, onde estão os teus poderes agora além da beleza destas estrelas para estenderdes em tua graça um de teus dedos a nós, libertando-nos do cativeiro? Liberta também este povo do oriente, usando de tua misericórdia, trazendo luz ao seu conhecimento. Afasta-os do culto e do temor ao senhor do escuro, o inominável de Mordor, e conduze-os à sabedoria, honra e justiça, assim como aconteceu com nossos vizinhos de Rohan, vindos do distante norte para as regiões de Calenardhon, em auxílio a Gondor, capitaneados por Eorl, o Jovem! Há como anseio por dias de luz, por dias claros, dias de sabedoria e paz. Como fomos deixar estes dias negros acontecerem? Como deixamos essa mancha se espelhar pelo mundo? Númenor, tu deverias ser a luz dos homens sobre a terra, referencia nos valores, mas onde estas agora? Caída e sepultada sob o Grande Mar, em silêncio profundo e eterno nos imensos vales abaixo das águas! – Seu lamento era quase inaudível.

Fechou os olhos por alguns instantes e desejou sonhar, mas sua mente vagou em outra direção, e dentro de suas próprias memórias, lembrou de uma canção que há muito aprenderá em Belfalas. Uma antiga canção dos elfos, escrita em algum lugar e por ele conhecida quando era mais jovem. Lentamente e de forma tímida, começou a entoá-la baixinho:

 

A Elbereth Gilthoniel

Silivren penna míriel

o menel aglar elenath!

Na-chaered palan-díriel

o galadhremmin ennorath

Fanuilos, le linnathon

nef aear, sí nef aearon!

 

A canção estava em élfico, da forma como ele havia lido, embora não soubesse bem se a pronúncia estava correta, pois aquele era o dialeto Quenya da língua dos eldar, o dialeto usado pelos Altos Senhores dos Elfos de outrora, conhecida e proferida por poucos nos dias atuais. O dialeto sindarim era o que predominava. Na língua comum, a canção dizia:

 

Óh, Elbereth estrela cintilante

Brancas faíscas derramam-se como joias brilhando

do firmamento, na glória da lua estrelada

Em terras distantes, contempladas à distância

de regiões da Terra-média enredadas em árvores

Fanuilos, a ti eu cantarei

em terras distantes, além do mar!

 

Quando abriu os olhos, voltou a contemplar a noite, e tanto a lua quanto as estrelas pareciam assustadoramente brilhantes. Ficou encantado olhando aquela cena, quando percebeu uma grande estrela movendo-se com grande velocidade. Como um raio de luz ela riscou os céus de oeste a leste, até se extinguir numa chama rápida sobre Rhûn. Sorriu então o Bardo, e em seu coração, tomou aquilo como um sinal. Sua sorte iria mudar. Ainda havia esperança!

Quando a manhã chegou, o trabalho novamente os esperava. Toda a costumeira rotina foi repetida, com a única exceção de Rasgul. Naquele dia ele não foi levado ao trabalho, e nem havia acordado entre os outros cativos. Durante a noite ele foi procurado por um dos Orientais, e levado embora não se sabe para onde. Elmmeth e Anárion estavam cansados demais e não viram nada. Os cativos que viram, não se importaram. Um a mais ou um a menos, o que importava a eles?

Quando o dia terminou, receberam a segunda porção de comida, e com o restantes das forças que ainda possuíam, alimentaram-se. Mal haviam terminado de comer quando um soldado Oriental aproximou-se da cela e chamou por Elmmeth e Anárion. Com os grilhões como estavam, foram escoltados pelo soldado colina acima, até uma rústica casa. Lá dentro, haviam mais três soldados e um homem acorrentado pelas mãos, preso junto a uma parede. Era Rasgul.

O assombro tomou conta dos dois, pois viram ali uma complicação de seus problemas. Não entendiam a língua local dos Easterlings, mas pelo tom, estavam furiosos. Anárion percebeu depois que um dos soldados furiosos era o Oriental que se aprazia de lhe afligir dor. Ele saiu da tenda, acompanhado de mais um soldado, e quando passou por Anárion, o fuzilou com seu olhar. Ódio, e apenas isso, saltavam daquele olhar. O Bardo encarou o homem, e em seu coração sentiu que chegaria o momento de um confronto final com aquele homem, fosse para a vida ou para a morte.

Elmmeth e Anárion foram levados até onde estava Rasgul e, da mesma forma que este, foram aprisionados. O soldado que já estava lá dentro, se dirigiu a eles na língua comum, e lhe disse em tom frio:

– Vocês foram acusados de motim, maquinando ideias para tentarem fugir de suas celas e serviços. Ao amanhecer, serão executados. Desfrutem de sua última noite vivos!

Elmmeth começou a protestar e praguejar, tenso com aquela informação, mas Anárion concentrou-se no semblante do soldado que os fora buscar, e a rápida troca de olhares entre ele e Rasgul. Com um esforço e de forma disfarçada, olhou também a face de Rasgul, e percebeu que este estava, pela primeira vez desde que o vira, com o semblante mais tranquilo. Pensou então que talvez a proximidade da morte iminente soasse para ele como libertação de suas agruras, mas então lembrou da noite passada, da canção e da estrela, e um fio de esperança voltou a crescer em seu coração.

Os soldados haviam deixado o recinto e mantinham guarda do lado de fora. O Bardo então inclinou a cabeça para o lado de Elmmeth e disse:

– Firmeza meu amigo, não estamos de todo terminados. Sinto em meu coração que nossa sorte começou a mudar, e não falo nas asas da loucura. Se meu coração não estiver profundamente enganado, esta será nossa última noite em Rhûn, mas não nossa última noite vivos.

Elmmeth levantou um pouco a cabeça e olhou Anárion incrédulo, buscando nos olhos claros do Bardo algo em que se agarrar diante de suas palavras. Percebendo a inquietação no espírito de seu amigo, Anárion falou:

– Lembre-se de sua linhagem Elmmeth, e do sangue em suas veias. Lembre-se dos grandes feitos de sua casa, e da força de suas mãos. Haverá um dia em que tombaremos, pelo fio da espada, ou pelo lento passar dos anos, mas este dia não será hoje, nem amanhã. Feche seus olhos Eorlinga, e lembre-se de seus juramentos. Há mais força em nós do que nós mesmos imaginamos, e as forças do bem neste mundo conspiram a nosso favor. Tenha fé Cavaleiro de Rohan, ainda há esperança!

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2 comentários

  1. Trouxe debates interessantes, além do bem-estar de se caminhar pelo mundo de Tolkien.

  2. E aí meu peixe… estão bem desenrolados esses contos velho. Gostei da
    parte em que Elmmeth passa o ideal de que o meio é quem corrompe o
    homem. Ele inspirou Rousseau… hehehehehe… Continue com esse trabalho
    legal hein… Flw!!!

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