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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 03

 

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média.

Você pode ver as partes anteriores clicando nos links:

Parte 01 -A Floresta das trevas

Parte 02 – Caminho pelo Rio

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PARTE 3 – RIO ABAIXO

 

– Você irá gostar das Colinas de Ferro jovem Bardo, eu tenho certeza. Irá provar da lendária hospitalidade dos anões, embora nosso caminho até lá seja longo, muito longo.

 Gildron olhou o rio, como se tentasse observar muito além do que seus olhos podiam ver. O dia estava apenas começando. Pássaros cantavam e iniciavam seus voos matinais, mesmo o sol ainda não havia dado o tom no distante leste, mas já anunciava seu reinado diurno explodindo em claridade, inundando o mundo com o seu calor. Um fino vapor subia do rio, frio, mas de certa forma acolhedor, como suaves dedos acariciando a pele. O vento também estava lento, agradável. Uma manhã para se espreguiçar e ficar tomando um bom chá com torradas e bolo de sementes enquanto se olha a paisagem, bem ao estilo dos hobbits. Mas ali não havia hobbits, não era o Condado, nem havia tempo para bolos e torradas, apenas café, que já haviam tomado, e um pão meio duro da noite anterior com ovos fritos, toda a refeição que fizeram antes de embarcar junto com os tantos barris de vinho no pequeno barco.

 Cinquenta e dois barris de vinho estavam na pequena embarcação. Toda a tribulação era composta por Anárion, Gildron, e mais três anões carrancudos e quietos. Gildron os chamava de as pedras, por serem tão fechados e mal humorados, mas eram habilidosos com o manejo do barco, e incansáveis nos trabalhos de carga.

 – Eles são bons anões, embora não sejam tão amistosos. São fieis, isso posso lhe garantir jovem Bardo, mas não gostam muito de papear com ninguém além dos seus. Trabalham para o meu pai a cerca de seis meses e sequer sei os seus nomes. – riu de forma gutural, dando um leve tapinha nas costas do Bardo.

 Anárion estava sereno naquela manhã. Não estava de mau humor, mas os exageros do vinho na noite anterior haviam cobrado o seu preço e sua cabeça doía. O dia amanheceu frio e isso lhe era prazeroso de certa forma diante das dores, mas conforme o dia avançava, a medida que se dirigiam para o sudeste, descendo o Rio Corrente, sua dor de cabeça aumentava conforme o dia ficava mais e mais quente. Diversas foram as vezes em que se debruçou sobre a lateral do barco, colhendo água do rio com a mão em concha, molhando a nuca e as têmporas na tentativa de amenizar o incômodo pela dor, e pelo calor que crescia. Usava apenas uma camisa simples. Suas coisas estavam numa bolsa, com exceção de sua pequena faca, que estava sendo usada pelo mesmo no entalhe de novas flechas. Arco e flecha eram as armas mais próprias à defesa de uma embarcação descendo o rio, em caso de ataque vindo das margens. Dessa forma, uma boa quantidade de novas flechas estavam sendo afiadas, e as pontas de metal postadas. Anárion gostava daquilo, já que o tempo parecia passar mais rápido e ele esquecia um pouco da dor de cabeça.

 Gildron o observou por um momento e então sorriu e falou:

 – Vejo que o vinho de Esgaroth abateu o ânimo de nosso Bardo. Pasmem, bebemos como terra seca em dia de chuva hahaha! Você está péssimo jovem Bardo!

 – E você está ótimo mestre anão, como sempre. A bebida parece não ter forças contra você. Gostaria de ter essa força agora que minha cabeça dói, o dia está quente, e me sinto tão disforme quanto as águas que agora navegamos.

 – Jamais irá beber como um anão jovem Bardo, e modéstia a parte, muito menos como Gildron, filho de Gildede! – Ergueu os dois braços para cima, e explodiu em risos, de forma gutural.

 Anárion sorriu. Nem mesmo a pior das dores de cabeça poderia deixá-lo imune às cômicas caretas feitas por Gildron. O anão sempre se mostrava bem humorado, e disposto. Sua energia e ânimo pareciam inesgotáveis. Enquanto sorria, o Bardo olhou rapidamente para um dos anões, mais à frente, e ele apenas devolveu o olhar de soslaio, sempre carrancudo e quieto, assim como os outros dois.

 – Nada parece abater o seu ânimo Gildron. Eu gostaria de ter esse poder em dias como este.

 – Ora, ora jovem Bardo, o que mais é a vida senão um grande palco para piadas? Hahaha, sorrir é tudo o que nos resta quando tudo o mais é cinza, escuro e frio. Então aprenda isto deste velho anão: carregue um sorriso sempre em seu coração, se possível em seu rosto, e irá sempre ter um jardim florido em seu interior, e embelezará o mundo.

 – Lição aprendida meu caro amigo! – Anárion riu. Para um fanfarrão, o velho anão mostrava-se muito sábio. Pegou um pequeno pedaço de papel de dentro de sua camisa, e um lápis, e anotou as palavras do anão.

 No final daquele dia, atracaram o barco na encosta oeste, e montaram um acampamento no ermo não muito longe do rio. Ao que sabiam, não haviam orcs nas proximidades, então se aventuraram com uma fogueira acessa durante a noite, mas houve turnos de vigia. Anárion estava ainda cabisbaixo no final da tarde, então havia saído para caçar, retornando já na entrada a noite com alguns coelhos. Ao menos teriam alguma carne mais mole para comer, já que o porco salgado que religiosamente Gildron carregava consigo em suas viagens parecia agradar apenas a ele. Os três anões carrancudos também comeram do porco, mas como sempre estavam com semblante fechado, não havia como saber se apreciavam ou não aquela carne.

 Depois de banhar-se no rio quando retornou da caçada, Anárion sentou-se junto à fogueira. Com o cair da noite e da temperatura, sua dor de cabeça se fora. Estava pronto para outra, mas não houve outra já que teve de recusar as diversas investidas de Gildron no sentido de que tomassem muito vinho novamente naquela noite. O vinho era excelente, mas para alguém não acostumado a viver bebendo, o “dia-seguinte” era por demais tortuoso para que aceitasse se aventurar na bebida novamente.

 – Não meu amigo, eu sou muito grato, mas chega de bebidas por alguns dias. Quero contemplar o belo em nossa viagem, entoar minhas canções e fazer minhas prosas e versos, e preciso da mente sóbria. Uma noite de vinho e alegria por um dia inteiro de ressaca parece um preço alto demais a se pagar, e já que não tenho o seu vigor para a bebida, que tome o meu lugar e me aquiete.

 – Hahahaha, então beberei por nós dois jovem Bardo, e amanhã, quando tocar suas canções, espero estar bêbado o suficiente para cantar alegremente aos quatro ventos. Um anão cantor… não seria digno dos salões por este mundo tal fato? – E mais e mais risadas guturais enquanto a lua ia alta, e o estrelado céu os contemplava, sendo cada estrela como uma pequena criança de luz a olhar aquela trupe ímpar à margem do rio.

 Quando o dia amanheceu, retomaram a viagem. Gildron foi carregado pelos três carrancudos e deitado no barco. Havia levado à cabo sua promessa de beber por dois e não havia acordado ainda. Suas tranças estavam desfeitas e seus cabelos soltos eram como raízes antigas e finas em volta de um toco velho e enrugado. Parecia mais um monstro do rio, em seus trajes de dormir e com cabelas e barba tão emaranhados, do que um mestre anão filho de comerciante de vinho das Colinas de Ferro. Por volta das nove horas abriu um dos olhos, protegendo o outro contra o brilho do sol que já ia um pouco alto. Anárion dedilhava sua harpa na proa do barco, enquanto os carrancudos cuidavam de seus próprios afazeres.

 – Com mil machados, me sinto como um velho carvalho que se levanta da terra.

 Anárion riu – Bom dia meu nobre mestre anão, vejo que seu vigor para a bebida não se estende a representar mais alguém!

 – Realmente jovem Bardo, vejo que minha representação de você parece ter bebido muito mais do que minha representação de mim mesmo, hahahaha, ai ai ai, minha cabeça!

 – Devo começar uma de minhas canções para que cante à plenos pulmões meu amigo?

 – Receio que não jovem Bardo. Minha carreira musical terá de esperar diante do meu deplorável estado. Mas ainda assim temos algo incomum, não é mesmo? Um velho carvalho com dor de cabeça, hahahahahaha, aiaiaiaia!

 O Rio Corrente mais ao sudeste encontrava-se com um braço de águas que vinha das Colinas de Ferro. Lá havia um matagal e começava do lado leste a savana que se estendia até o extremo oriente. Um rústico ancoradouro de madeira encontrava-se ali. A rota para as Colinas de Ferro por terra era mais rápida, mas o calor excessivo comprometida a qualidade do vinho que geralmente azedava. Como a temperatura ao longo do rio geralmente era mais amena, os anões comerciantes passaram a usar o rio para transportar grandes cargas, seja indo ou saindo das Colinas. O ponto onde os rios se encontravam era muito acidentado. Haviam muitas pedras, a água descia ligeira, e a profundida era curta para um barco. Dessa forma, sempre transferiam a carga do barco por terra até o outro lado, numa caminhada bem curta, já que o braço de água não ficava tão longe do rio. Lá havia sempre um outro barco, este utilizado para subir o braço de águas até as Colinas de Ferro.

 Foi quando se aproximavam do ancoradouro que os Orientais apareceram. Vestidos em negros, com panos cobrindo parte de seus rostos do nariz abaixo, deixando apenas os olhos à vista, ergueram-se dos matagais e atiraram contra a embarcação. Gildron manobrou o leme rapidamente em direção oposta, tentando fugir do ancoradouro quando uma flecha cravou-se em seu antebraço esquerdo. A dor e o impacto o fizeram largar o leme, que girou, e o barco bateu de lado com força na margem. Com a pancada, boa parte dos barris e o próprio Gildron foram arremessados para os matagais, tombando e caindo em baques surdos em meio à fechada vegetação rasteira com apenas algumas árvores.

 Anárion sacou seu arco, e as flechas que conseguiu alcançar e saltou rapidamente para a margem, protegendo-se das saraivadas de flechas atrás de uma rocha. Os três anões carrancudos sumiram, talvez arremessados para a margem ou caídos no rio. Sozinho, não houve resistência suficiente para o Bardo. Mesmo sua proeza nas batalhas não era o bastante para enfrentar aquele grupo de Orientais, e quando deu por si, dezenas de arqueiros o cercava com arcos retesados para disparar. Um dos Orientais, o que parecia ser o comandante da ação, avançou em direção ao Bardo quando este estava de pé e com as mãos para cima em sinal de rendição e falou algo em sua própria língua negra. Uma pancada forte atingiu Anárion na parte de trás da cabeça e apenas o baque surdo do seu próprio corpo caindo ele ouviu. Tonto e perdendo os sentidos, conseguiu ver o momento em que sua harpa foi jogada ao chão e quebrada com um pisão pelo Oriental que parecia o líder.

 Não sabe quanto tempo depois acordou. Era noite mas uma fogueira emprestava luz ao lugar. Estavam na savana, em um ponto desconhecido. Sua cabeça doía demais e podia sentir o cheiro de sangue pedrado na nuca. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas, assim como seus pés. Conforme a visão ficou firme, contemplou o grupo que o capturara. Cerca de vinte Orientais estavam ao redor da fogueira, todos vestidos em negro. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foi a presença dos três anões carrancudos. Aliás, não mais carrancudos já que pareciam felizes e satisfeitos naquele momento. Ao que parecia, estavam acordados com os Orientais sobre o ataque. Haviam alguns poucos barris de vinho próximo, o que levou o Bardo a pensar que não deveriam estar tão longe do rio. Um dos anões usava o gorro que Gildron gostava de usar para dormir, ou quando estava muito frio, e bebia conversando algo impossível de se ouvir pela distancia com os outros dois anões. Não havia nenhum sinal de Gildron.

 Nesse momento o líder dos Orientais saiu de uma rústica tenda negra e dourada, e se dirigiu ao grupo, escoltado por dois enormes homens, muito corpulentos, cobertos por túnicas negras, a sua guarda pessoal. O anão com o gorro de Gildron se adiantou e falou, num tom lento e grotesco:

 – Girad cumpriu o prometido senhor dos negros, e agora Girad e seus irmãos querem o pagamento dourado. Chega de vinho e fogueira. Queremos dourado!

 – Dourado não é? Sim, agora lembro, o pagamento justo por sua traição e pelas informações sobre a viagem. Nada é mais digno, não é mesmo? – A voz do líder era firme e clara.

 – Sim senhor dos negros, nosso dourado para os três!

 – Claro, como desejar. NEMESIS! – bradou o líder e um machado voou na noite e gravou-se no crânio do anão com o gorro de Gildron, fazendo parte do próprio gorro aprofundar-se em sua cabeça rachada, explodindo em sangue enquanto ele se debatia no chão aguardando os segundos antes da morte certa.

 – Ao ver aquilo, os outros dois anões tentaram correr. Um deles foi segurado por dois Orientais e rendidos com uma faca na garganta. O outro conseguiu empurrar o homem que tentou lhe segurar, e começou a bambolear conforme suas pernas permitiam em direção à escuridão, tentando fugir, mas uma poderosa lança rasgou suas costas, saindo-lhe do outro lado, e ele caiu morto.

 – TRAIÇÃO, TRAIÇÃO, VOCÊ HAVIA NOS PROMETIDO O DOURADO EM PAZ! – Urrava o anão carrancudo rendido enquanto o líder dos Orientais se aproximava dele devagar, com uma calma assustadora.

 – Eu não estou entregando ou matando meu próprio povo. Traição foi o que vocês fizeram ao entregar seus patrões à morte e saque em nossas mãos. Mas nunca serei tomado como um homem sem palavra. – Sacou uma grande faca curva, semelhante a uma pequena cimitarra. – Qual a cor dessa lâmina anão? Responda correto e o pouparei!

 – Prata senhor dos negros, prata…prata…prata! – Gesticulava desesperado e domado.

 – Tem razão… mas eu lhes prometi dourado… vejamos… Ah… aqui está! – Guardou a pequena cimitarra e arrancou o machado que estava cravado na cabeça inerte do anão que usava o gorro de Gildron e, segurando forte os cabelos do anão, cortou fora a sua cabeça com um poderoso golpe, jogando machado e cabeça fora. Quando o machado caiu, via-se claramente adornos dourados.

 – Levantem acampamento e juntem os pertences de algum valor. Acordem o prisioneiro e coloque-o na carroça com os outros. Vamos partir. Quero estar em Rhûn em dois dias. – Ordenou o frio líder dos Orientais.

 

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13 comentários

  1. Sidney Nunes /

    Olá Sandro França! Gostaria de parabenizar pelo belo trabalho. Valeu!!!

  2. Estou terminando de escrever a parte 4 Renan, e será publicada em breve. Obrigado!

  3. Estou terminando de escrever hoje, e será publicado em breve ^^

  4. Quando sai o próximo?

  5. A história ganhou força agora e parece que se desviará dos caminhos trilhado por Tolkien em suas duas principais sagas. Isso pode ser muto interessante!

  6. Parabéns mano muito bom mesmo 😀

  7. Brenda e Max, muuuito obrigado por seus comentários. Estejam em paz! ^^

  8. Brenda e Max, muito obrigado por seus comentários. Estejam em paz! ^^

  9. Brenda Andrade /

    Gostei muiito!

  10. Muito Bom meu amigo, gostei bastante, to começando neste universo Tolkien e seus escritos estão no nível
    dos livros que estou lendo, Parabéns!

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