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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 02

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernanbucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média.

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Parte 02 – CAMINHO PELO RIO

 

– Eis uma paisagem realmente bela…!

Anárion sorriu, enquanto a correnteza levava a jangada lentamente rio abaixo. Sobre esta estavam alguns barris de vinho coletados pouco acima, onde o rio fazia uma curva e havia uma pequena ilhota de areia no ponto mais raso. Foi lá que ele foi deixado pelos batedores élficos, depois de percorrerem toda a trilha dos Portões de Thranduil até aquele ponto no rio através da Floresta das Trevas.

A estadia nos Salões do Rei dos Elfos Silvestres fora curta, mas extremamente agradável. Muito aprendeu o Bardo naqueles três dias em que esteve na companhia dos elfos. Foram muito generosos com ele. Sua harpa havia sido reforçada por um dos menestréis, as cordas trocadas. Do príncipe Legolas ele ganhou um arco novo, e uma boa quantidade de flechas em um alforje especialmente ornamentado conforme a cultura dos elfos silvestres. O rei lhe deu uma capa nova, de um tom verde, hora mais claro, ora mais escuro e cinzento, conforme a luz do ambiente. Nas forjas, sua espada fora reforçada, e afiada, e runas foram gravadas em sua lâmina. O poder dos eldar, ainda reinante na Terra-Média naqueles dias, embora modesto em relação a outros tempos, estava em todos estes utensílios agora.

Após despedir-se da corte de Thranduil, Anárion avançou junto a dois dos batedores que o encontrara quatro dias antes na floresta, e por caminhos conhecidos apenas pelos elfos, avançaram até encontrarem o lugar onde os barris de vinho, dispensado pelos elfos através do rio de dentro mesmo de seus salões subterrâneos, eram juntados e empilhados sobre as jangadas, que os levariam até Esgaroth, a Cidade do Lago. Lá também os elfos pegavam os barris de vinho trazidos da cidade, levando-os por terra até seu reino, nos negócios que os elfos mantinham com os homens daquele lugar.

Ainda antes do sol estar à vista além das copas das altas árvores, a trilha já havia sido iniciada, então desse forma, foi com o nascer do sol que Anárion começou seu caminho pelo rio. Juntamente com ele na jangada seguiam dois homens de aspecto rude, embora gentis à seu próprio modo, ambos empregados do senhor responsável pelo comércio do vinho com os elfos pelo rio. O sol surgiu preguiçoso e tímido por trás de algumas nuvens, para lá daquelas colinas muito a leste. “Devem ser as Colinas de Ferro”, imaginou o Bardo, lembrando ter lido sobre as mesmas algum dia em sua antiga vida no sul.

Puxou sua harpa, e começou a tocar, lentamente, sem nada cantar. Ao paço das águas ele tocava, e quando para a direita a jangada enveredou, chegando em uma parte mais larga do rio, encontrando assim seu outro braço, que vinha do norte, de Erebor, ele sorriu, vendo bem ao sul a Cidade do Lago.

Era final de tarde, e o sol já havia partido para além das Montanhas Sombrias, muito ao oeste, quando Anárion saltou da jangada e pisou o modesto ancoradouro. Agradeceu aos homens que o acompanharam e trouxeram na viagem, e lhes deu algumas moedas, o suficiente para garantir a bebedeira naquela noite a ambos. Colocou o capuz sobre o rosto, e subiu o curto vão de escadas que levava do ancoradouro ao plano reto onde estava assentada a cidade de Esgaroth.

Era também conhecida como A Cidade do Lago, por estar construída inteiramente sobre enormes toras de madeira sobre o Lago Comprido. Esgaroth era habitada basicamente por homens, embora alguns anões ainda fossem vistos por lá. Raramente se viam elfos, e quando estes estavam na cidade, limitavam-se a estar no ancoradouro, sempre envoltos em seus próprios e rápidos assuntos como era peculiar àquele tão reservado povo. Os anões procuravam a cidade em busca de negócios, sempre trazendo minerais dos mais variados tipos, além de obras de suas mãos, e trocando por dinheiro, comida ou bebidas. Mas a grande maioria dos habitantes era composta por homens, e a maioria destes, descendentes dos homens que habitaram o antigo reino de Valle, mais ao norte, quase aos pés da Montanha Solitária. Viviam lá e o reino era próspero, até que Smaug, o grande dragão, veio do Urzal Seco e atacou a Montanha Solitária, tomando-a e estabelecendo lá o seu covil. De tempos em tempos, voava até Valle, sempre à procura de carne humana para suas refeições, e isso afastou o povo, e destruiu o reino. Descendentes diretos dos senhores de Valle ainda viviam em Esgaroth, mas agora como exilados, ocultos, vivendo às sombras de seu passado e nomes, em completo anonimato, embora ainda um ou outro dos anciões mais versados nas tradições ainda lembrassem destes e guardassem registros de suas linhagens.

A cidade possuía muitas casas, e outros prédios, mas basicamente só havia uma pousada, onde também funcionava o principal bar de lá, de forma que no final do dia a noite, era comum a presença dos muitos senhores e algumas senhoras neste lugar, um lugar comum para encontrar a todos.  Mas nas hora em que o Bardo chegou o movimento era pouco, e apenas dois ou três senhores tomavam cerveja escura no salão principal, próximos de uma viva lareira. O ambiente interno era por demais pitoresco, mesmo convidativo ao descanso. Após ter com o estalajadeiro e conseguir um quarto, Anárion sentou-se num dos cantos do salão, de forma bem reservada, e saboreava uma caneca do vinho local enquanto esperava sua refeição. Do seu assento, pela janela, via o lago, e o ancoradouro mais distante, e ficou admirando a paisagem por alguns instantes, até que foi interrompido pelo estalajadeiro que trouxe sua refeição. A estalagem era simples, mas muito bem decorada e organizada, toda em madeira como era próprio dos prédios naquela cidade. Seus pórticos, dobradiças, candelabros, mesas e cadeiras traziam entalhes interessantes, talvez fruto dos antigos artífices de Valle.

Foi olhando uma dessas peças que Anárion estava quando foi cumprimentado por alguém. Ao olhar, eis que estava diante de si um anão, de voz gutural e aspecto engraçado. Sua barba era castanha-escuro, e usava um tapa-olho do lado direito do rosto. Estava vestido de marrom, com calças pretas e botas também marrons, um pouco sujas pelo trabalho ao que se via. Cheirava a vinho, mas não parecia bêbado. Sua longa barba estava presa em seu cinto de couro branco, com uma fivela grossa e cinzenta. Prestou uma profunda reverência quando o Bardo o olhou.

– Saudações forasteiro. Sou Gildron, filho de Gildede. Poderia sentar convosco e conversar enquanto saboreamos um bom vinho?

Anárion pensou em ficar sozinho, mas sempre fora receptivo a uma boa conversa, então mudou de ideia. Levantou-se, e meneou a cabeça em cumprimento ao anão.

– Anárion, filho de Galdor, mas chame-me apenas de Bardo, como sou conhecido nestes tempos. Será uma honra para mim ter vossa companhia para uma boa rodada de vinho mestre anão. Que sua barba nunca pare de crescer.

Sorriu o anão diante daquela cumprimento, e logo puxou um assento e se acomodou.

– Cumprimentas a mim da maneira do meu próprio povo, e nisto vejo que deves ser um erudito disfarçado em vestes simples. Que bons ventos o trazem ao norte jovem Bardo?

– Muitos assuntos, muitas palavras mestre anão, mas se posso resumi-las: aventura! – Sorriu.

– Ah, então teremos muito o que contar um ao outro e desde já vejo que nos daremos bem, pois acredito que entre meu povo está para nascer um mais aventureiro do que eu. – riu de forma tosca.

– Então que nosso vinho não se acabe! – Ergueu a caneca para um brinde, prontamente respondido pelo anão.

– Excelente mestre anão. Esta noite vamos celebrar, cantar canções e histórias, bem ao estilo dos Bardos!

– Sim, e com boa bebida e comida, bem ao estilo dos anões!

Assim se foi a noite, e muitas palavras foram ditas e histórias contadas. Quando a lua ia alta, recolheram-se cada um a seus próprios aposentos naquela taverna, na esperança de se encontrarem novamente no dia seguinte, uma vez que antes que tudo acabasse em meio à celebração, prometeram partilhar de uma viagem…uma longa viagem!

 

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