Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Você já deu seu último adeus à Terra-média?

Por: Sérgio Ramos*

 

“Earendel ergueu-se da Taça do Oceano

Na escuridão da borda do mundo-médio;

Da porta da Noite, como um raio de luz,

Saltou por sobre a orla do crepúsculo,

E, lançando sua barca, como uma centelha de prata,

Da areia dourada que esmaecia,

Descendo pelo ensolarado hálito de ígnea morte do Dia

Fugiu célere da Terra Ocidental.”*

*Este poema é considerado o primeiro escrito de Tolkien sobre a Terra-média, datado de 1914, e aqui traduzido por Ronald Kyrmse na forma que aparece no livro “J. R. R. Tolkien: Uma Biografia”, de Humphrey Carpenter, da Editora Martins Fontes.

A sensação, ao final do ano de 2014 e início de 2015, é que uma Era estava se encerrando… Algo que começou em 1914 com um poema parecia estar acabando e seria hora de dar adeus, exatamente um século depois de sua criação. A tão querida e amada Terra-média iria findar, visto que veríamos “pela última vez” este mundo maravilhoso no cinema, e a chave que iria trancar a mitologia criada por Tolkien se chamava A Batalha dos Cinco Exércitos.

Campanhas publicitárias de grandes produtoras e distribuidoras de filmes afirmavam que seria a última oportunidade de se ver a Terra-média, e foi feita até uma música bela, mas triste, com um clipe com clima de despedida intitulado “The Last Goodbye” (O Último Adeus). E pessoas ao redor do mundo compraram a ideia… Muitos cantaram lamentos nas redes sociais pelo fim da Terra-média, jovens corriam diversas vezes para rever o último filme da trilogia cinematográfica como se assim pudessem manter vivo algo que, para eles, estava morrendo. A impressão que se tinha era algo similar ao que líamos n´O Senhor dos Anéis quando víamos os belos elfos fazendo jornadas para os Portos Cinzentos no intuito de velejar para as Terras Imortais. Enfim, uma sensação de que algo estava mudando e belezas antes desfrutadas não seriam mais usufruídas…

Cena da adaptação cinematográfica de O Hobbit.

Cena da adaptação cinematográfica de O Hobbit.

Mas (e aqui coloque-se um grande MAS), se nem o falecimento do querido Professor Tolkien em 1973 impediu que gerações e mais gerações de leitores e fãs se despedissem da Terra-média, por que um filme que foi apenas levemente baseado em um de seus livros selaria o funeral da Terra-média? Aliás, parece que a Terra-média começou realmente a ser desvendada após a passagem de seu criador, quando seu filho prodígio, Christopher Tolkien, organizou e editou os papéis deixados pelo patriarca da família Tolkien e publicou uma série de livros incríveis que mostram em detalhes a evolução do mundo criado pelo pai. Não só isso, mas um século depois da criação deste mundo imaginário (mas tão real na mente de milhões de pessoas), ainda eventualmente somos surpreendidos com o lançamento de algum escrito inédito que ficou guardado por décadas até ser lançado nas livrarias (por exemplo, Os Filhos de Húrin, que foi disponibilizado em sua forma mais completa em 2007; e agora em 2015 haverá o lançamento do The Art of The Lord of The Rings, que trará praticamente todas as artes, desenhos e pinturas que o próprio autor fez para a história, ajudando enormemente a compreender sua visão do Legendarium).

Os filmes são de fato incríveis do ponto de vista visual (embora bem diferentes do que Tolkien tenha imaginado em alguns momentos) e possuem várias passagens de diversão. São também uma bela oportunidade de angariar novos leitores que queiram conhecer realmente o mundo de Bilbo Bolseiro e Elrond Meio-Elfo. No entanto, de forma alguma eles devem ser considerados o fim do legado mitológico, a não ser, claro, por aqueles que são fãs apenas do cinema e não se interessam pelos livros.

Minha impressão pessoal da Obra Tolkieniana é que, a cada releitura que se faz dos livros, novas nuances e detalhes são revelados. A possibilidade de descoberta é infinita, pois surgem revelações a cada novo retorno àquelas páginas, e isso mantém a Terra-média sempre viva e em constante processo de evolução, pois aquele que se debruça sobre a Obra está sempre aprendendo mais e vendo nascer diante de si novos desdobramentos antes não percebidos. Isso é verdade quando se fala em reler pelo menos os livros mais conhecidos (O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion). Esta trinca, por si só, daria uma vida de estudos, e o que dizer então de tudo aquilo, milhares e milhares de páginas, que foram publicadas – seja a série em doze volumes do The History of Middle-earth (A História da Terra-média, ainda sem publicação no Brasil), os Contos Inacabados, Os Filhos de Húrin, As Aventuras de Tom Bombadil, As Cartas de J. R. R. Tolkien, o The History of The Hobbit (A História de O Hobbit, ainda sem publicação no Brasil) ou mesmo tantos textos de Tolkien que saíram em outros livros ou periódicos linguísticos (tais como o Vinyar Tengwar) e até nos livros com desenhos e artes do Professor?

Créditos da foto: tolkienlibrary.com

Créditos da foto: tolkienlibrary.com

Como se percebe, é possível passar uma vida inteira aprendendo sobre a Terra-média, e cada pequena coisinha que se revela, que antes havia passado despercebida, gera um enorme contentamento por quem é fã e admirador deste complexo mundo tolkieniano. Não é o fechamento de uma série cinematográfica que irá ditar o último adeus à Terra-média, pois esta é revelada verdadeiramente nos livros. O que vemos no cinema é a visão de um diretor, suas mudanças e adaptações.

Não bastasse isso, O Senhor dos Anéis já havia sido escolhido o melhor livro de todos os tempos por leitores da Inglaterra muito antes das recentes adaptações de Peter Jackson. Aliás, este não foi o primeiro diretor a fazer sua versão da obra, embora tenha sido a de maior sucesso. Desde versões para o teatro, passando por séries de rádio, até os desenhos animados dos anos 70 e 80 e adaptações russas do final dos anos 80 e começo dos 90, O Hobbit e O Senhor dos Anéis já estiveram presentes em diversas mídias. Daqui a alguns anos, novos filmes irão surgir para recontar essas histórias.

De forma alguma a ausência de filmes irá barrar nossa entrada no Legendarium de Tolkien. A Terra-média está mais viva do que nunca, dependendo apenas do interesse de cada um em buscar saber mais. Aliás, A Terra-média é aquilo que Tolkien escreveu e produziu, e que já encanta gerações há décadas, antes mesmo de qualquer adaptação. Por isso, esqueçamos o sentimento de “último adeus”, pois ele não é necessário – estamos todos apenas começando a descobrir este mundo de hobbits, homens, elfos e anões, heróis e criaturas do mal!

Os livros sempre estarão disponíveis para podermos ir… Lá e de volta outra vez!

*Sérgio Ramos é membro da Tolkien Society e administrador do Tolkien Brasil. Servidor público, esportista e entusiasta de histórias de heróis.

*Sérgio Ramos é membro da Tolkien Society e administrador do Tolkien Brasil. Servidor público, artista marcial e entusiasta de histórias de heróis.

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather
  • Frederico

    Sergio, primeiramente gostaria de elogiar seu trabalho e seus cometários que sempre são muito ponderados…partilho da maioria deles ! Tentei uma ajuda anterior(email / youtube) com o Eduardo, mas infelizmente não obtive resposta. Sou um grande fã da Terra Média, inclusive meu quarto é baseado nela (tenho 35 anos), até o machado do Gimli fica pendurado na parede caso alguém fale mal da Terra Média, enfim…tenho uma duvida que espero que não o envergonhe. Quais os livros de fato formam o Legendarium ? Tenho O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Silmarillion e Contos Inacabados…acredito que falte Os filhos de Húrin e As aventuras de Tom Bombadil estou certo ? Falta algum alem destes que citei ? Grande abraço e mais uma vez parabéns pelo trabalho…Fred.

    • Sérgio Ramos

      Olá, Fred.
      Obrigado pelo feedback positivo! Bom, tentamos responder os seguidores do Tolkien Brasil na medida do possível de acordo com nosso tempo disponível, talvez por isso você não tenha obtido resposta antes, beleza?
      Olha, muito legal esse lance do seu quarto ser baseado na Terra-média. Eu também tô colocando muitos itens na minha casa com esse tema, a começar pelo capacho da entrada, passando pelas paredes com mapas da Terra-média :).
      Além dos livros que você citou sobre o Legendarium, falando de obras nacionais, falta o “As Cartas de J. R. R. Tolkien”, que tem muuuuitas coisas que Tolkien esclareceu a respeito. É um excelente livro que vale muito a pena.
      Tem também “A Última Canção de Bilbo” – um livro fininho com um poema que Bilbo escreveu quando ia para os Portos Cinzentos, com belíssimas ilustrações de Pauline Baynes, a ilustradora favorita do Tolkien.
      Se você quiser ter um panorama geral das obras do Legendarium (incluindo em inglês), recomendo a leitura do artigo (http://tolkienbrasil.com/noticias/sobre-livros/legendarium-j-r-r-tolkien-saiba-sao-obras-tratam-universo-mitologico-senhor-aneis/), que tá bem completinho. Inclusive, o Eduardo vai atualizar esse artigo em breve.
      Obrigado pela participação e continue nos acompanhando.
      Abraço,
      Sérgio.

  • Cesar Augusto Machado

    “… a cada releitura que se faz dos livros, novas nuances e detalhes são revelados. A possibilidade de descoberta é infinita…” Sempre penso nisto!

  • Patricia Carvalho

    Tolkien é eterno! Mas confesso que ao ler “O retorno do rei” sempre me debulho em lágrimas haha! Sinto como se tudo acabasse ali, então me lembro que obra do grande mestre é extensa e cheia de surpresas e nunca me cansarei de ler tudo o que ele criou.

  • Gabriel Casetta

    Perfeito.

  • José Tadeu Barros

    Morro de rir quando leio ou fico sabendo de neguinho choramingando seu “adeus à Terra-média” só porque a malfadada trilogia do PJ chegou ao fim… eu aqui, enfronhado e apanhando do Volume 2 da History of Middle-earth (The Book of Lost Tales II), tenho plena consciência de que esse adeus jamais vai chegar. Depois de ler tudo haverá muita coisa pra reler e (re)descobrir… Parabéns pela matéria!

  • Bia Fanfics

    Belas palavras. Nunca me senti realmente como dando o “último adeus” sobre a obra. Foi um adeus dos filmes. Por enquanto acredito que sim, não sei o que o futuro nos trará, mas é como dito acima. “Os livros sempre estarão disponíveis para podermos ir…. Lá e de volta outra vez!”