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Artigo: “O que faria Bilbo?” por Noble Smith

noble smith
Noble Smith, escritor, roteirista e produtor  é mais conhecido no Brasil por ser o autor do livro A Sabedoria do Condado, da editora novo conceito. @shirewisdom
Vamos encarar isso. No início de “O Hobbit” Bilbo Baggins é um imbecil. Ele é um daqueles solteirões inveterados (e chato) obcecados com a sua própria rotina diária. Levantar, escovar o abundante cabelo do pé, dar brilho à grande maçaneta de latão no centro da porta até que ela brilhe como o ouro, tomar chá e cachimbo na varanda, evitar todo o contato com misteriosos estranhos (por exemplo, vendedores de botões porta-a-porta ou Feiticeiros vagabundos).

Ele tornou-se na sua criança interior.

Gandalf, contudo, sente grandes coisas em Bilbo. “Há uma semente de coragem”, Tolkien escreveu sobre os Hobbits, “escondido (muitas vezes profundamente, é verdade) no coração do hobbit mais gordo e mais tímido, aguardando algum perigo final e desesperado para fazê-la crescer.” O Feiticeiro pensa que a semente da coragem de Bilbo está pronta para brotar, e é por isso que ele o intimida a juntar-se a Thorin & Co. na sua jornada até à Montanha Solitária.

Talvez seja a incitação de Gandalf que finalmente atrai Bilbo para a aventura. Ou talvez seja a música empolgante dos Anões que enfeitiça o pobre Hobbit (“Nós devemos ir antes do nascer do dia / Para buscar o ouro pálido encantado.”) Seja qual for o caso, é um lamuriante, rapazinho assustado que corre para longe de Bag End, esquecendo até mesmo de trazer os seus ” lenços de bolso”.

Para a primeira parte da viagem para a Montanha Solitária Bilbo é um péssimo companheiro. Ele está constantemente reclamando sobre as suas provas. “O meu estômago sente-se como um saco vazio”, ele choraminga para Thorin. E não é só isso, ele sente falta da apanha da amora em casa! (Bilbo “Amoras” Baggins não é exatamente o ladrão mais duro para enviar para o covil de um dragão homicida.)

A “semente da coragem” de Bilbo cresce ao longo do conto, desde enfrentar a horda de aranhas em Mirkwood (e sozinho salvar todos os anões), libertar seus companheiros cativos das masmorras do Rei-Elfo, até furtivamente entrar no próprio coração do covil de Smaug e enfrentar o monstro, apesar de usar o anel da invisibilidade.

Mas o ato mais corajoso que Bilbo comete em toda a história não é o que a maioria das pessoas consideraria ser um ato de valor. É, na verdade, um ato de pacifismo. Quando Bilbo vê que seus amigos anões são enfeitiçados pelo ouro pálido encantado”, ele percebe toda a aventura foi mera tolice. Ele não quer riquezas mais. Tudo o que ele deseja é o sabor da água pura de uma das tigelas de madeira de Beorn. Ele só quer voltar para casa para o seu pequeno buraco confortável.

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E quando ele entende que os Anões – liderado pelo teimoso e possuído pelo tesouro Thorin – vão contra um exército inteiro de homens e elfos (e portanto quase certamente serem chacinados), a verdadeira “semente da coragem” de Bilbo finalmente irrompe cheia de vida. Ele pega a jóia chamada Arkenstone – a única coisa do tesouro de Smaug que Thorin estima acima de todas as outras – e a leva para Thranduil. Ele presenteia a jóia ao Rei-Elfo como uma oferta de paz, sabendo muito bem que Thorin provavelmente irá matá-lo pelo ato. Bilbo dá de bom grado a sua parte do tesouro (o equivalente a bilhões de dólares!) para parar uma guerra. Quantas pessoas no nosso mundo têm sido tentadas pela riqueza para fazer exatamente o oposto?

O enfurecido Thorin quase comete assassinato Hobbit. O anão chega perigosamente perto de atirar Bilbo de uma alta parede antes de Gandalf intervir e salvá-lo. No final, no seu leito de morte, Thorin implora a Bilbo o seu perdão. Ele diz a Bilbo: “Se mais de nós valorizássemos comida e bebida e música acima do ouro acumulado, seria um mundo mais alegre.”

Bilbo retorna para o Shire com riqueza mais que suficiente para lhe durar uma vida. E ele passa o resto dos seus dias em paz, adotando seu jovem primo Frodo (a quem ele carinhosamente se refere como seu sobrinho). Bilbo é o primeiro pai solteiro caseiro na história da literatura! O alegre, gentil e generoso mestre de Bag End é uma pessoa muito mudada do Hobbit inexperiente que começou o conto.

Ele tornou-se, por falta de melhor palavra, um homem.

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A tradução desse artigo foi expressamente autorizada pelo autor Noble Smith. O original, publicado em 03 de novembro de 2012, pode ser encontrado aqui: “What would Bilbo do?”

A tradução é de Lia Margarida Silva,  graduada em Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
Alguns nome constam como na versão de Portugal, tal como Bag End (Bolsão),  Shire (condado) e outros.
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  • Noble Smith

    Thank you so much for translating this! Maravilhoso! Muito legal! Check out my most recent video interview here: http://legendarium.mymiddleearth.com/2013/06/30/to-ancient-greece-and-back-again-an-interview-with-sons-of-zeus-author-noble-smith

  • Diêgo Damohill Castro Lemos

    Simplesmente adorei o artigo. É muito curioso como Bilbo depois de ser surpreendido com 13 anões assaltando sua despensa ainda tem a coragem e a ousadia de abandonar tudo e correr para o desconhecido, essa foi sem duvidas um dos momentos mais dificeis e cruciais, afinal, quantos iriam sair da forma como ele saiu? Ou melhor, quantos sequer iriam deixar os anões entrarem em suas casas daquele jeito.

    Viva ao bom e velho Bilbo!