Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Artigo: “Ronald & Rayner” por Noble Smith

noble smith
Noble Smith, escritor, roteirista e produtor  é mais conhecido no Brasil por ser o autor do livro A Sabedoria do Condado, da editora novo conceito. @shirewisdom

 

Ronald & Rayner

 

“Numa toca no chão vivia um hobbit.”

Dia 21 de setembro é o 75º aniversário de publicação de O Hobbit. J.R.R. Tolkien, como a história é passada, rabiscou a primeira linha de seu famoso livro enquanto fazia uma muito-necessária pausa revisando os trabalhos de seus graduandos. As palavras lhe ocorreram num lampejo de inspiração – uma epifania que iria mudar a literatura para sempre e criar um gênero completamente novo de fantasia séria, deixando para trás “a quinquilharia [gimcrack?] convencional dos contos de fadas modernos” que Tolkien tanto desprezava (pense nos primeiros filmes da Disney).

Mas O Hobbit nunca teria sido publicado se não fosse pela recomendação de um menino de 10 anos de idade. Rayner Unwin, filho do editor Stanley Unwin, recebeu um manuscrito de O Hobbit de seu pai e recebeu um xelim para escrever um relatório sobre o texto (um xelim era um trocado descente para uma criança lá nos anos 30). Rayner desfrutou o livro de Tolkien e escreveu, “… é bom e deve atrair todas as crianças entre 5 e 9”. E isso foi o suficiente para seu pai. É uma das grandes ironias da história editorial que um livro de um professor de Oxford tenha recebido aprovação para ser publicado baseada na recomendação açucarada de um garoto de escola.

rayner

Em 1937 Hitler erguia-se na Europa. Japoneses invadiram a China. A Guerra Civil Espanhola eclodia. O jogo inaugural da NFL era disputado. O primeiro filme “falado” de Charlie Chaplin foi lançado nos cinemas. E O Hobbit era impresso numa tiragem inicial de apenas 1.500 cópias – antecedendo o lançamento de A Branca de Neve da Disney (um filme com sete “anões” [“dwarfs”] cantarolantes em oposição a 13 anões [“dwarves”] ferozes) em exatos três meses.

No ano seguinte Tolkien começou a trabalhar em sua, ainda sem título, sequência de O Hobbit. Ele mandou o primeiro capítulo para o editor que, claro, entregou “Uma Festa Muito Esperada” para ninguém mais do que o jovem Rayner, agora com 11 anos. O editor-em-treinamento desfrutou do capítulo, mas reclamou que havia muita “conversa hobbit”. Ha!

Cerca de dezenove anos se passaram. Tolkien trabalhou diligentemente em O Senhor dos Anéis todo o tempo, digitando ele mesmo o manuscrito de 600.000 mil palavras. Duas vezes. Ele encontrou um editor e ficou furioso quando o editor ficou procrastinando a data de lançamento, desistindo do manuscrito em um surto de ressentimento que ele logo iria lamentar. Afortunadamente Rayner – agora um adulto e trabalhando para a editora da família – reapareceu em cena com a precisão de um mago, perguntando se poderia ver o manuscrito. O resto é história da edição de livros.

Rayner conduziu Tolkien pelo árduo processo de deixar O Senhor dos Anéis pronto para publicação. Foi ideia de Rayner dividir o livro massivo em três partes, para muita irritação de Tolkien (Peter Jackson não é o primeiro a dividir um dos livros de Tolkien em uma trilogia). As trocas de correspondência do autor com Rayner (em As Cartas de J.R.R. Tolkien) durante este período são uma maravilhosa e entretida janela para a fascinante relação existente entre eles. Tolkien era como um irritadiço mas amável Bilbo lidando com Frodo, discutindo sobre os títulos para os livros (ele não gostava do nome As Duas Torres por exemplo) e reclamando de forma cômica sobre a finalização do mapa da Terra-Média, “Este mapa é um inferno!”.

Cerca de um ano e meio antes de Tolkien falecer, ele enviou uma carta a Rayne dizendo “Tudo o que você faz por mim me enche de gratidão”. Ele pediu para Rayner que, por favor, passasse a chamá-lo de “Ronald” – seu nome católico. Esta foi uma grande honra e uma marca de respeito vinda a aquele que trouxe à luz o mundo de Tolkien, onde mesmo amigos queridos chamavam um ao outro pelas suas iniciais: uma arraigada formalidade Vitoriana ainda remanescente. Rayner não era apenas um amigo muito antigo de Tolkien, ele era também seu campeão literário e, afortunadamente (para todos nós fãs de Tolkien) ele teve o bom senso, como um jovem de dez anos, de aprovar O Hobbit. Se ele não tivesse feito assim, o manuscrito poderia ter passado os últimos setenta anos coletando poeira ao invés de vivendo todos este tempo nos corações e mentes de dezenas de milhões de fãs ao redor do mundo.

 

A tradução desse artigo foi expressamente autorizada pelo autor Noble Smith. O original, publicado em 21 de setembro de 2012, pode ser encontrado aqui: Ronald and Rayner

Tradução: Franz Eduardo Brehme Arredondo.

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