Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Tolkien, a Batalha do Somme e Aprendizado

John garthJohn Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

 

Tolkien compartilhou a visão que os soldados da Primeira Guerra Mundial eram “leões liderados por burros”? É uma ampla questão a qual eu sugeriria que a resposta curta seja “às vezes.” Mas novas evidências pertinentes foram reveladas pelo Dr. Stuart Lee, em um seminário da Universidade de Oxford intitulado “De Somme à Blackwater: J.R.R. Tolkien e A Batalha de Maldon”.

maldon_causeway_landscape1

Decisão fatal: Beorhtnoth permitiu que os Vikings at avessassem a ponte de seu local de desembarque na Ilha Northey

Note que a palavra acima é “Blackwater”, não “Blackadder”, a série de comédia a qual mostra memorável e detalhadamente a visão da guerra “leões liderados por burros”. Blackadder tem estado nas manchetes enquanto figuras políticas e culturais (notavelmente o Secretário de Educação Michael Gove e a estrala de Blackadder Tony Robinson) batalham sobre como devemos encarar a guerra. Mas o título do seminário refere-se ao Rio Blackwater em Essex, cena do confronto de 991 DC o qual está registrado no poema em Inglês Antigo “A Batalha de Maldon”.

Tolkien desafiou atitudes existentes para o poema em um artigo de 1953, “Ofermod”, publicado com seu drama em verso The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son em Essays and Studies. “A Batalha de Maldon” narra como Beorhtnoth, um líder Anglo-Saxão, liderou seus homens em uma defesa suicida contra um ataque Viking. Os Vikings estavam em uma ilha de maré [Tidal Island] no rio; mas crucialmente Beorhtnoth decidiu deixar tal força saqueadora através da passagem (como na imagem acima). A batalha começou, e os Ingleses foram massacrados. O poema parece celebrar o que foi chamado “Coragem Nortenha”, um espírito de bravura obstinada mesmo diante da derrota certa. Mas o poeta também descreve a decisão de Beorhtnoth como o produto de ofermod, cujo significado não está totalmente claro.

Tolkien discutia que a palavra em Inglês Antigo significa não apenas “ousado” (daring) mas “orgulho irresistível”. Este podendo ser considerado para reverter o sentimento do poema, tornando-o em uma crítica de um ato irresponsável de liderança.

Stuart, de qual o livro “The Keys of Middle-Earth” (escrito com Elizabeth Solopova) fornece um guia para as fontes medievais de Tolkien, tem olhado as notas manuscritas de Tolkien sobre o poema, desde quando este era um graduando e em diante. E acontece que Tolkien não proferiu uma palavra de crítica à Beorhtnoth durante muitos anos – não até perto do começo da segunda Guerra Mundial. Este, Stuart sugere, enfraquece qualquer suposição de que a visão de Tolkien de “A Batalha de Maldon”, como expresso em seu trabalho “Ofermod”, indicou uma atitude “leões liderados por burros” formada por experiências da primeira Guerra Mundial.

Eu concordaria que a visão de Tolkien dos líderes militares da Grande Guerra não era tão preto-e-branco como tudo isso. Mas eu com certeza discutiria que suas experiências na trincheira lhe deram alguma razão para sentir-se muito ambivalente sobre os líderes. Como eu disse no fim da fala de Stuart, há o caso de um comandante da companhia no batalhão de Tolkien que os liderou em uma incursão noturna que ultrapassou seu objetivo – então quando o sol nasceu, eles eram alvos fáceis para os metralhadores alemães e para a Artilharia Britânica (não-ciente de suas posições), e a maioria dos homens foram dizimados. Esse avanço fatalmente prolongado por um líder militar parece ecoado em alguns dos incidentes na Terra-Média, incluindo a investida de Théoden na Batalha dos Campos de Pelennor. A escrita de Tolkien mostra um espectro de atitudes para os diferentes incidentes – implicando, eu acho, que ele se sentiu profundamente ambivalente sobre tais atos de coragem dos líderes responsáveis para com as vidas dos outros.

Em uma conversa em que também tratou vários outros pontos interessantes dos manuscritos na Biblioteca de Bodleian, Stuart advertiu contra olhar a vida de Tolkien ou eventos contemporâneos a fim de explicar a mudança na visão de Tolkien na “Batalha de Maldon”. A segunda Guerra Mundial em si poderia ter levado à uma mudança na visão de Tolkien – talvez porque ele viu ofermod no seu pior em Hitler. E como eu apontei, sua visão posterior pode ter sido colorida pelo fato que dois de seus filhos estavam servindo nas forças, e enfrentando perigo mortal, enquanto o próprio Tolkien tinha que sentar-se impotente às margens.

No entanto, o argumento de Stuart não era sobre o escritor criativo mas o estudioso rigoroso. Como ele disse em um email mais tarde, seja lá o que Tolkien sentiu sobre a liderança militar de 1914-18 (uma questão discutível), “ele estava inteiramente em liberdade para cobrir essas visões em cenas ou personagens em sua ficção, logicamente, e assim eu acredito; mas ele era um estudioso bom demais para permitir que seus próprios sentimentos e experiências do século 20 colorissem suas visões do décimo.” Esse é um argumento persuasivo.

Eu me apertei em uma sala de seminário juntamente com aproximadamente 70 pessoas. Foi, como Stuart disse, recordativo da câmara de registros sendo oprimido por todos os orcs em Moria. Felizmente, o auditório ao lado estava livre, então tivemos espaço de sobra no fim. Stuart, incidentalmente, é também o editor do vindouro “Blackwell Companion to Tolkien” (o qual tenho contribuído com o capítulo sobre a vida de Tolkien).

Após o seminário (em 22 de Janeiro) eu estava encantado em ver meu antigo tutor de Oxford, o Professor Vincent Gillespie, o qual originalmente me ensinou Inglês Antigo e “A Batalha de Maldon”, entre outras coisas. Estou certo que não era o aluno ideal: quando eu deveria ter enfiado o nariz nos estudos[1], lembro-me de passar um bom tempo jogando sinuca, ouvindo álbuns com amigos, ou folheando em livrarias. Vincent, que era “Dr. Gillespie” naqueles dias, é agora o J.R.R. Tolkien Professor de Literatura e Língua Inglesa em Oxford. E ele não apenas leu Tolkien and the Great War, mas o apreciou – então parece que fui bem no fim.

© John Garth

Artigo publicado originalmente 29 de Janeiro de 2014 em (http://johngarth.wordpress.com/2014/01/29/tolkien-the-somme-and-scholarship/). A publicação e tradução foi autorizada pelo autor do artigo John Garth. Tradução de Felipe Almeida.



[1] Do original “when I ought to have had my nose to the grindstone”.

facebooktwittergoogle_plusredditby feather