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Tolkien aos quinze, um futuro guerreiro

John garth

John Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

 

 

Uma foto descoberta recentemente revela J.R.R. Tolkien aos quinze anos de idade no novo Corpo de Cadetes em sua escola – lançado em 1907 enquanto as nações se preparavam para a guerra.

Tolkien é um dos 120 sem-nomes na imagem, desenterrada pelo departamento de história da escola King Edward, em Birmingham. O arquivista da escola Alison Wheatley conseguiu distinguir seu rosto em meio à multidão. A imagem aparece aqui em uma resolução maior pela primeira vez.

Scan provided by Alison Wheatley, KES archivist, 3.3.14

Um rosto na multidão: Tolkien, o quarto a partir da esquerda, na coluna do meio, de pé para inspeção com o novo Corpo de Cadetes na escola King Edward, Birmingham, em 4 de Abril de 1907*

Uma versão em baixa resolução foi publicada semana passada no Birmingham Mail e na BBC em referência a um item de rádio sobre Tolkien e a Primeira Guerra Mundial. A legenda ambígua deu a impressão que poderia ser mostrado Tolkien com o 11º Batalhão de Fuzileiros de Lancashire, o batalhão no qual ele lutou na Batalha do Somme em 1916; ou que poderiam ser soldados anteriormente da escola, mas fotografados durante ou depois a guerra. Alguns leitores observaram que esses são claramente garotos, não homens, e que Tolkien parecia muito mais velho quando foi à guerra aos 24 anos; ele também usou um uniforme bem diferente, e (de acordo com as “regulações militares) ele havia crescido um bigode.

Então eu estou contente em ser capaz de confirmar que a fotografia foi tirada em 4 de Abril de 1907, e mostra que o Corpo de Cadetes da escola de King Edward ao ser recentemente formado, foi preparado para inspeção pelo Marechal (de campo) Earl Roberts.

Eu concordo com Alison Wheatley ao identificar Tolkien em sua até então fotografia no anonimato. Além de qualquer coisa, suas orelhas levemente assimétricas (tortas) entregam. Detalhes ínfimos assumem importância peculiar quando se está tentando combinar pessoas entre duas fotografias diferentes.

tolkien-kes-cadet-corps-measures

Comparação com uma fotografia não-datada de Tolkien na escola confirma que é ele na foto do Corpo de Cadetes*

Os arquivos da escola mostram que Tolkien foi um cabo no Corpo de Treinamento de Oficiais (assim como o Corpo de Cadetes logo ficou conhecido) em seu último ano acadêmico, 1910-11. Antes disso ele foi, presumidamente, um recruta, porém rapazes desta posição na hierarquia não eram listados.

Um artigo em Março de 1907 na publicação da Crônica da Escola King Edward anuncia o lançamento do Corpo:

A longa e desejada realização do Corpo de Cadetes é finalmente um fato consumado. O Escritório de Guerra decidiu, após muitas semanas exaustivas de espera, consentir com a formação de uma Companhia. Muito antes disso aparecer impresso, os sons das instruções de tiro terão sido ouvidos ecoando através dos claustros, e as notas retumbantes (extremamente altas) dos instrutores terão preenchido a praça.

A visita do Senhor Roberts é relatada na publicação de Abril como “o principal evento do semestre atual”.

O propósito original de tal vinda foi a inspeção do novo Corpo de Cadetes; mas um endereço na Grande Escola [uma imensa sala de aula] também foi inclusa no programa. Às 3:45 os cadetes encontravam-se alinhados em duas filas na praça, enquanto no andar de cima A Grande Escola estava cheia, quase ao ponto de sufocar-se, com uma multidão expectante…

O Senhor Roberts havia se distinguido millitariamente na Índia, Abissínia (agora conhecida como Etiópia), Afeganistão e, mais recentemente, durante a Guerra Bôer. Lá, entre outras vitórias, em Março de 1900 ele havia comandado a captura de Bloemfontein (uma das três capitais da África do Sul), cidade natal de Tolkien. Tal era sua postura que o guardião de Tolkien, Padre Francis Morgan, até mesmo nomeou seu cachorro “Senhor Roberts”. Birmingham foi enfeitada com bandeiras para sua visita, de acordo com o The Times. A crônica da escola continua:

Às 3:50, altos “vivas!” na rua, fora da escola, anunciavam a chegada de Earl Roberts, que imediatamente seguiu para a praça e lá inspecionou os futuros guerreiros: estes, nós acreditamos, expunham-se com grande vantagem em seus (de certa forma dolorosos) novos uniformes.

kes-cadets-1907

A foto inteira: A nova companhia do Corpo de Cadetes alinhada para inspeção do Senhor Roberts (foto inserida no topo).*

 

“Futuros soldados” não foi algum tipo de ficção inocente. A formação do corpo de cadetes foi um sinal dos tempos – uma era que a Grã-Betanha, o poder imperial estabelecido, estava engajada em uma corrida de armamentos com a Alemanha, algo que não havia existido antes de 1871. Os Corpos (de Cadetes) estavam estabelecidos na escola King Edward assim como o governo Britânico estava procurando formas de assegurar um suprimento de oficiais caso a guerra iniciasse. Em 1908, todas essas unidades vieram a ser administradas pelo Escritório de Guerra. Em Tolkien and the Great War, digo mais sobre o Corpo de Treinamento de Oficiais da escola e o que Tolkien fez nele enquanto as batidas da guerra tornavam-se mais agitadas. Mas mesmo em 1907, a geração de Tolkien já estava a caminho das trincheiras.

Enquanto o The Times relatava o discurso do Lorde Roberts para a escola aquele dia, “ele queria ver cada garoto com corpo capaz aprender a atirar seu rifle com habilidade. Ele queria que cada garoto entendesse que não apenas era seu dever sagrado mas uma honra e um privilégio defender seu país”.

Em um discurso anterior no mesmo dia ele havia falado sobre a vantagem que a perícia no rifle havia dado aos Bôers. Seria “o cúmulo da burrice” não acatar às mudanças tecnológicas militares as quais fizeram o combate de formação cerrada (próxima) algo do passado. Agora, “cada homem era frequentemente chamado para agir e pensar por si mesmo… O que era necessário agora era a disciplina da autoconfiança, não a disciplina da praça da caserna.”

A ironia é que muitos voluntários futuros e conscritos na Grande Guerra – incluindo homens que vemos na infância nesta fotografia de 1907 – foram ceifados em 1914-18 por serem ordenados através das Terras de Ninguém exatamente como se cruzassem a praça da caserna, enfrentando metralhadoras muito mais mortais que rifles.

Aqueles homens incluíam o próprio filho do diretor da escola, Robert Quilter Gilson, um amigo íntimo de Tolkien, morto no primeiro dia na batalha do Somme. O comandante de seu pelotão relembrou: “Minha última memória do ataque é a visão de Gilson em frente a mim, e o CSM Brooks (Company Sergeant-Major/Sargento-Major da Companhia) a minha direita, ambos movendo-se como se estivessem em um desfile, e ambos um minuto ou dois mais tarde sendo mortalmente atingidos” (meus itálicos; citado a partir de C.C.R. Murphy’s 1928 History of the Suffolk Regiment).

Enquanto pesquisava Tolkien and the Great War, passei muitos dias na Biblioteca Britânica lendo a Crônica da Escola King Edward e tentando formar uma imagem do jovem Tolkien e de seus amigos como indivíduos. Não foi um exercício simples, pois as revistas de estudantes como essa tendem tornar público relatos seríssimos de eventos oficiais, ou brincadeirinhas irônicas.

Todavia, enquanto lia as publicações envolvendo o tempo de Tolkien na escola e nos anos seguintes, uma foto começou a se juntar, tal como Seurat (pintor Francês Pontilhista/Divisionista), partindo de minúsculos detalhes. Não era uma imagem formal como a dos cadetes em 1907, em seus dolorosos novos uniformes, mas uma imagem de um grupo de garotos acotovelando-se, exuberantes, e às vezes brilhantes, emergindo da infância desapercebida na maturidade e individualidade. Eu segui o progresso de vários círculos de Tolkien – membros do clube de Rugby, as sociedades literárias e de debates, e especialmente o completamente não-oficial T.C.B.S.[1] o qual veio a significar muito à ele, a Gilson, e aos amigos Geoffrey Bache Smith e Christopher Wiseman. Eu assisti aos garotos ganhando seus primeiros prêmios escolares, às suas fraquezas anatomizadas no piche, a darem abertura às próprias oratórias sobre assuntos desde cinema ao sufragismo (movimento dedicado a estender o direito de voto à mulher), a compartilhar suas paixões pelo Romantismo ou Literatura Arturiana, e a ir navegar para Oxford ou Cambridge, como se nada pudesse pará-los.

E então, em “Notas e Notícias”, os anúncios de prêmios, bolsas, e outras conquistas darem espaço a “Os seguintes são relatados a partir das recentes listas de casualidades: – Morto ou Morte por ferimentos. Alabaster, F.C. 2ª Ten., R[oyal] War[wickshire] R[egiment], 1899-1905. Brearley, N.B., 2º Ten., R. War. R., 1910-1912. Butler, L.S.L., Sold., R. War. R., 1913. Clarke, E.C.G., 2º Ten…”

E assim por diante, e continuando, e novamente, durante quarto anos.

(* Fotos reproduzidas com a permissão dos Governantes das escolas de King Edward VI em Birmingham)

[1]Do original Inglês “Tea Club andBarrovianSociety” era um grupo formado por Tolkien e três amigos que se reuniam para debater literatura e outros assuntos.

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 © John Garth

Artigo publicado originalmente 05 de Março de 2014 em (http://johngarth.wordpress.com/2014/03/05/tolkien-at-fifteen-a-warrior-to-be/). A publicação e tradução foi autorizada pelo autor do artigo John Garth. Tradução de Felipe Almeida.

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