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A Terra Média completa 100 anos

John garth

John Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

Há 100 anos começou a Terra Média. O mais antigo vislumbre de qualquer personagem ou situação de sua mitologia está em um poema “The Voyage of Éarendel the Evening Star’ (A Viagem de Earendel, estrela vespertina), que J.R.R. Tolkien datou em 24 de Setembro de 1914. Ele escreveu na casa de sua tia Jane Neave, na fazenda Phoenix, em Gedling, Nottinghamshire. Eu examinei o avanço criativo de Tolkien em 1914 de forma aprofundada no futuro Tolkien Studies 11, e eu dou um breve relato dessas descobertas em um artigo para o Guardian, e apareci em um vídeo da Tolkien Society falando tudo sobre o encontro anual Oxonmoot.O que se segue aqui é uma outra perspectiva que eu não fiz nesses outros pontos.

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Há um século, é válido investigar se o poema realmente é o primeiro poema do legendarium de Tolkien. Embora Humphrey Carpenter indetifique “The Voyage of Éarendel’ como “o início da mitologia propriamente de Tolkien” (Biography 79). O próprio Tolkien não o fez explicitamente. E ainda há ingredientes vitais faltando nisso. “A Viagem de Éarendel, estrela vespertina” tem uma conexão básica com o a história posterior de Earendil – a ideia de um marinheiro que navega sobre a borda do mundo e se torna a Estrela Vespertina Vênus. Mas o Éarendel de Setembro de 1914 não tem um motivo claro para sua viagem, falta uma história de qualquer forma e nem mesmo tem um nome élfico – o nome Éarendel é diretamente tirado do Anglo-Saxão.

E de fato Tolkien deu o título de “o primeiro poema da mitologia” para um escrito posterior em 10 meses, em Julho de 1915, “The Shores of Faery” (The Book of Lost Tales, part two, 271), que tem elementos da Terra Média duradouros tais como as Duas Árvores, mas também tem nomes como Valinor e Taniquetil em suas línguas inventadas – a genuína marca registrada de seu legendarium.

Contudo, há evidências de que ele tenha visto o escrito de “A Viagem de Earendel, estrela vespertina” como o momento da descoberta. Eu gostaria de reivindicar o crédito do trabalho de um detetive aqui – mas na verdade devo tudo a minha mãe, embora ela nunca tenha lido Tolkien.

Em “The Notion Club Papers”, uma história de Tolkien de 1946-46 sobre figuras parecidas com os Inklings em Oxford sendo atraídos no passado perdido dos Numenorianos, um membro do Clube, Lowdham, cita linhas do poema anglo saxônico Crist:

‘Éalá Éarendel engla beorhtost

ofer middangeard monnum sended!

– e acrescenta: “Hail Earendel, o mais brilhante dos anjos, sobre a Terra-média enviado aos homens!” Quando me deparei com essa citação no dicionário senti uma emoção curiosa, como se algo tivesse mexido em mim uma parte que estava adormecida. Havia algo muito distante e estranho e bonito por trás daquelas palavras, se eu pudesse apreendê-las, além do antigo Inglês…” (Sauron Defeated 236).

Em J.R.R. Tolkien: Uma Biografia (p. 72) de 1977, Carpenter coloca essas palavras fictícias na própria boca de Tolkien – em um passe de mágica, mas não algo ultrajante. De todo modo, Tolkien está claramente pondo sua própria memória na cabeça de Alwin Arundel Lowdham.

Ele também faz alguma sinalização óbvio com esses nomes. Eu não preciso explicar que  Arundel – é o nome de uma cidade de verdade em Sussex, mas  seu propósito em ‘The Notion Club Papers “é nos lembrar dos nomes Earendel e Eärendil. Alwin é uma versão do Antigo Inglês Ælfwine, que significa “elfo-amigo” e, portanto, liga este personagem com os amigos dos elfos no legendarium de Tolkien – nomeadamente o marinheiro Ælfwine que ouve e registra os Contos Perdidos dos Elfos.

Mas e quanto ao sobrenome Lowdham?

Christopher Tolkien (em Sauron Defeated,151)  nota que “O fato de que Lowdham é “alto” e faz piadas, muitas vezes em momentos inapropriados deriva de [Hugo] Dyson ‘ – o Inkling que notoriamente parou as resenhas que reclamavam de O Senhor dos Anéis em ‘Oh God, not another Elf!’ E, de fato, o manuscrito tem as iniciais de Dyson ao lado do nome. Mas como Christopher observa: “Lowdham é a própria antítese de Dyson em seu aprendizado e interesses.” Na verdade, o personagem expressa a memória de J.R.R. Tolkien ao descobrir o nome Éarendel é mais como um alter ego do próprio autor.

Aqui minha mãe entra. Aconteceu de eu estar mostrando-lhe um mapa da área a leste de Nottingham. Esta é a localização da aldeia de Gedling onde Tolkien estava hospedado quando escreveu “A Viagem do Éarendel, estrela vespertina”. Rapidamente, minha mãe leu o nome de uma aldeia vizinha, Lowdham. L-O-W-D-H-A-M: a grafia distinta corresponde ao sobrenome do personagem, embora ninguém parece ter feito a ligação entre os dois até agora. Autor do excelente estudo específico Tolkien’s Gedling1914, Andrew H. Morton, me contou que a vila de Lowdham teria sido um local agradável, apenas a distância certa para um domingo de caminhada de Gedling.

 

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Então Lowdham do Notion Club não só fala da memória de Tolkien sobre a descoberta do Earendel em 1914, mas é nomeado para a área imediata da composição do poema. É importante notar também que na página de título falso Tolkien marcou para ‘The Notion Club Papers’ (Sauron Defeated 154) a data de publicação é de 2014.

Certamente aqui ele estava pensando conscientemente, como estamos agora, do centenário da Terra-média, e identificando o seu início como o poema que ele escreveu em 24 de setembro de 1914  A luz de Earendel brilha em toda a história externa da Terra-média, tão certo como  brilha através da história interna, passando pelas Duas Árvores  e por todo o caminho até a estrela de vidro de Frodo.

Tolkien-at-Exeter-College

  • Meu novo livreto Tolkien at Exeter College: How an Oxford undergraduate invented Middle-earth está agora disponível em meu site. Com 64 página e mais de 40 imagens, incluindo esboços originais inéditos de Tolkien e fotografias, incorpora uma extensa pesquisa novaa acrescentando de forma significativa ao que narrei em Tolkien and the Great War.
  • Escrevi muito mais sobre o avanço criativo de Tolkien em 1914 em meu artigo ‘“The road from adaptation to invention”: How Tolkien came to the brink of Middle-earth in 1914’,  que deve sair em breve em Tolkien Studies 11.

 

Imagem: Diamond in the Sky, by Dr Wendy Longo via Flickr. Mapa: Ordnance Survey Popular One-inch Series, via Sabre.

 

Artigo originalmente publicado em 24 de Setembro de 2014 aqui e traduzido por Henrique Gurgel.

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