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Sam Gamgee e as ordenanças de Tolkien

John garth

John Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

 

 

Tolkien, como um bom jogador de poker, mantinha suas cartas próximas ao peito, e demonstrava pouquíssimo sobre o impacto da experiência em sua ficção. Ele poderia ser menos cuidadoso pessoalmente, como Humphrey Carpenter revelou em sua obra de 1977 J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, na qual ele cita Tolkien dizendo que Sam Gamgee foi particularmente inspirado por soldados que havia conhecido na Primeira Guerra Mundial. A precisa fonte dessa citação tem sido um mistério desde então – uma frustração para escritores futuros sobre Tolkien, como eu mesmo, que gostam de precisão e contexto. Foi de algum conjunto de notas autobiografadas não-publicadas e desconhecidas – se, de fato, Tolkien escreveu tal coisa? Nós podemos apenas ponderar. No entanto, agora vemos Tolkien fazendo uma quase idêntica declaração ao responder a um fã de O Senhor dos Anéis.

 

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Meu ‘Samwise’ é de fato (como você notou) principalmente uma reflexão do soldado inglês transplantada a partir dos garotos-de-aldeia (garotos aldeões) de antigamente, da memória de meus recrutas e soldados que conheci em 1914, reconhecidos como muito superiores a mim.
Agradecendo mais uma vez, calorosamente, atenciosamente J.R.R. Tolkien

 

A carta, escrita em 16 de Abril de 1956 para H. Cotton Minchin, foi leiloada e é, de fato, um prazer de ler – ampla, reflexiva, escrita na distinta voz (gramatical) e caligrafia de Tolkien. Parece ter sido conhecida por Carpenter apenas em rascunho, a qual ele forneceu trechos em As Cartas de J.R.R. Tolkien. É uma pena que mais conteúdo não foi usado – tal carta estende-se por mais de mil e cem palavras.

No que diz respeito à ligação fictícia de Sam Gamgee à Primeira Guerra Mundial, a biografia de Carpenter cita Tolkien dizendo: “Meu ‘Sam Gamgee’ é de fato uma reflexão do soldado Inglês, dos recrutas e soldados serventes que conheci na guerra de 1914, e reconhecidos como muito superiores a mim”. Um soldado servente, no vocabulário militar, era um soldado que (além de ser requerido lutar) era designado para cuidar do kit de um determinado oficial, cozinhar e limpar. A escolha de palavras de Tolkien na carta enviada a Minchin é diferente, e muito interessante também: “Meu ‘Samwise’ é de fato (como você percebe) amplamente uma reflexão do soldado Inglês – transplantada dos garotos-de-aldeia de tempos antigos, da memória dos meus recrutas e soldados serventes que conheci na guerra de 1914, reconhecidos como muito superiores a mim”.

Dá-nos a dimensão (sensação) extra que ao descrever Sam, Tolkien já havia também esboçado memórias de rapazes dos arredores rurais de Birmingham, onde ele havia vivido entre os três e oito anos de idade. Isso se encaixa bem com sua declaração em outro lugar que a sociedade do Condado é “mais ou menos uma aldeia Warwickshire de aproximadamente o período do Jubileu de Diamante” (Letters p.230) – ou seja, uma aldeia como Sarehole em 1897, O sexagésimo ano da Rainha Victoria no trono e o quinto de Tolkien na terra. Em meio as espantosas inventividades de Tolkien, e juntamente com o vasto conhecimento nos assuntos mitológicos e medievais que ele despejou em seu legendarium, este é um ponto facilmente ignorado: vida contemporânea, especialmente a vida que ele conheceu em seus anos de formação, foi um poderoso manancial de criatividade em O Senhor dos Anéis.

O comentário de Tolkien a Minchin também fornece apoio para um argumento que fiz em várias conversas sobre como a Grande Guerra moldou O Senhor dos Anéis. Através de silenciosamente ligar seus hobbits com os garotos de 1901, os quais tornaram-se os jovens homens de 1914, Tolkien foi capaz de esboçar diretamente sobre a guerra a qual ele e estes homens foram então atirados. Ele havia visto, e sentido, como a guerra podia mudar aqueles que passaram por ela.

Muitos dos perigos que ele descreve em O Senhor dos Anéis podem ser fantásticos, apesar de muitos não e outros apenas simbolicamente. Mas o medo, a desenvoltura, a desmoralização, a coragem, a tristeza, a risada inocente diante das probabilidades terríveis: todas essas coisas ele havia conhecido, e preencheu sua ficção com elas. Isso, e as memórias daquelas raízes rurais, trazendo os hobbits fervorosamente à vida.

Um outro detalhe na carta de Minchin é que Tolkien se refere a “meus soldados serventes”, ao invés de simplesmente “os soldados serventes” como na citação de Carpenter. Eu levo isso em conta para denotar que Tolkien possuía uso exclusivo de um soldado servente, ao invés de ser um dos muitos oficiais acumulando os serviços de um soldado servente – um ponto de ambiguidade nos papéis mantidos por Tolkien que eu vi. Além disso, a carta de Minchin mostra que Tolkien tinha mais do que um soldado servente. Isso não significa que ele tinha toda uma equipe servindo a suas vontades, mas por alguma razão seu soldado servente foi substituído ao menos uma vez. Talvez isso não seja surpreendente: Tolkien foi atribuído a quatro unidades diferentes – os 13º Fuzileiros de Lancashire, seu batalhão de treinamento em 1915-16; os 11º Fuzileiros de Lancashire, o batalhão com que ele serviu na batalha de Somme em 1916; e o 3º Fuzileiros de Lancashire e o 9º Royal Defence Corps, com o qual ele guardou a costa de Yorkshire em 1917-18. Parece pouquíssimo provável que o mesmo soldado servente teria ficado com ele durante esses remanejamentos, particularmente os últimos, os quais foram solicitados por conta de seu estado crônico de má saúde após a batalha do Somme. Há uma alternativa ou possibilidade adicional: que um ou mais dos próprios soldados serventes atribuídos a Tolkien foram incapacitados por doença, ou foram feridos ou mortos.

De volta a Sam Gamgee. Sua posição é certamente distinta dos outros três hobbits, por que ele é de uma classe diferente e permanece, na realidade, empregado de Frodo como havia sido em Bolsão. Mas eu não penso que deveríamos ver essa relação através da perspectiva de classes preto-e-branco que por vezes é aplicada. Tolkien certa vez escreveu que “o trabalho mais impróprio para qualquer homem… é mandar em outros homens. Nem mesmo um em um milhão é adequado para isso, e menos ainda os que buscam a oportunidade” (Letters, p. 64). Como eu havia dito em um trabalho entregue à conferência Tolkien na Universidade de Marquette em 2004,

A relação entre Frodo e Sam reflete rigorosamente a hierarquia de um oficial e seu servo [na Primeira Guerra Mundial]. Oficiais possuíam educação universitária e um histórico de classe média. Homens de classes trabalhistas permaneciam na categoria de soldados ou, na melhor das hipóteses, sargento. Um abismo social divide os instruídos, o desocupado Frodo de seu antigo jardineiro, agora responsável pelo despertar, cozinhar e por toda arrumação e empacotação. A discrição masculina Britânica e a consciência de classes problematizava a comunicação entre soldados serventes e oficiais, os casais excêntricos do campo de batalha. Tolkien mapeia o colapso gradual da restrição [através de perigo prolongado] até que Sam possa levar Frodo em seus braços e chama-lo de: “Sr. Frodo, meu caro.”

Então, a hierarquia é amplamente invertida. Frodo move-se para uma dependência infantil: ele apresenta os problemas, Sam as soluções. Na Primeira Guerra Mundial tal processo estava longe de ser atípico. Oficiais recebiam comissões (posição hierárquica militar) por questões de classe, não porque eram soldados ou líderes experientes; enquanto os recrutas e soldados serventes frequentemente tinham a idade, experiência, e sabedoria que seus superiores careciam. C.S. Lewis, por exemplo, atuou como Frodo para seu sargento Sam. “Eu vim para lamentar e reverenciar o homem comum: particularmente o prezado Sargento Ayres,” Lewis lembrou-se. “Eu era um oficial fútil (eles davam comissões facilmente naquela época), uma marionete movida por ele, e ele transformou essa relação ridícula e dolorosa em algo belo, e tornou-se para mim quase como um pai” [Surpreendido pela Alegria C.S. Lewis, 1955].

Com a ajuda da conversa comum e familiar de Sam, Frodo até mesmo ri a beira de Mordor.
“Tal som não havia sido ouvido nestes lugares desde que Sauron veio à Terra-Média,” as notas de Tolkien. Este é o tipo de riso que o correspondente de guerra Philip Gibbs [em Now it can be told] acreditava agir como “uma fuga do terror, uma liberação da alma através da explosão mental, das paredes da prisão do desespero e depressão/preocupação” no Front Ocidental.*

Eu gostaria de saber mais sobre Minchin. Ele era Capitão Humphrey Cotton Minchin, e havia editado The Legion Book, uma antologia de escrituras e arte de 1929, de contribuintes incluindo Edmund Blunden (o qual havia lutado como Tolkien em Thiepval Wood na batalha do Somme), Rudyard Kipling, Winston Churchil, e o artista da Grande Guerra Paul Nash. O livro, em uma edição estritamente limitada, havia sido comissionado pelo Príncipe de Gales, mais tarde Rei Edward VIII (o abdicador), para levantar fundos para a Legião Britânica. Eu suspeito que Minchin havia servido na Primeira Guerra Mundial também.  De qualquer maneira, parece que a partir da carta de Tolkien que Minchin reconheceu algo dos soldados serventes da Grande Guerra em Sam Gamgee.

A carta de Tolkien para Minchin pode valer mais em leilão do que o livro de Minchin em vendas (foi vendida por $31,250 na Sotheby há menos de um ano atrás). De um ponto de vista biográfico, a carta é particularmente valiosa porque captura Tolkien no momento que ele acabara de perceber, para seu espanto, que o legendarium que ele havia trabalhado por 42 anos não era necessariamente uma busca pessoal, mas uma questão de interesse consumista para outros. Ele saúda as cartas de leitores (bem diferente da maioria das quais ele havia recebido quando era amplamente conhecido apenas pelo O Hobbit) e percebe como seus companheiros acadêmicos em Oxford têm sido “escandalizados por minha excursão vergonhosa em ‘literatura’” – quando ele deveria estar cumprindo seus deveres profissionais como um filólogo. Ele reclama sobre o corte que a Tesouraria teria em taxas do lucro gerado por um livro que havia levado 18 anos para escrever; e descreve O Hobbit como “uma casualidade de guerra” – as cópias remanescentes da superior segunda impressão haviam sido destruídas em um incêndio durante um bombardeio alemão. Deixando reclamações autorais de lado, ele exercita sua perícia linguística no sobrenome Minchin.

As omissões em Cartas não são inteiramente irracionais. Seria repetitivo incluir seu relato à Minchin de como ele escolheu o sobrenome de Sam Gamgee (de uma palavra de um dialeto de Birmingham para “lã-de-algodão” (cottonwool), nomeado em homenagem à Sampson Gamgee que inventou uma variedade cirúrgica para o objeto). Tolkien também diz que havia ouvido recentemente de um Sam Gamgee; mas tal anedota aparece em outro local nas Cartas (assim como sua resposta ao Sr. Gamgee de Tooting). Outro segmento que presumidamente apareceu no rascunho já havia sido bem aproveitada na Biografia de Carpenter, onde Tolkien brinca que “Por algum tempo eu vivi com medo de receber uma carta assinada ‘S. Gollum’.” Mas esse comentário na carta enviada à Minchin é esplendidamente irônico e sarcástico, e não foi visto antes: “De qualquer forma, eu pareço ter despertado os Gamgees, e sou ameaçado agora com anotações genealógicas pelo menos tão complicadas com as fictícias.”

É possível ler a transcrição completa da carta de Tolkien para Minchin aqui.

[No que condiz 26 de Fevereiro de 2014, eu removi o link para o leilão, o qual foi tirado do ar – presumidamente porque o mesmo está terminado.]

*”Frodo and the Great War”, em O Senhor dos Anéis, 1954-2004: Scholarship in Honor of Richard E. Blackwelder, ed. Wayne G. Hammond and Christina Scull (Milwaukee: Marquette University Press, 2006).

 © John Garth

Artigo publicado originalmente 13 de Fevereiro de 2014 em (http://johngarth.wordpress.com/2014/02/13/sam-gamgee-and-tolkiens-batmen/). A publicação e tradução foi autorizada pelo autor do artigo John Garth. Tradução de Felipe Almeida.

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