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A Fantasia de Tolkien nasceu nas trincheiras

John garthJohn Garth, é autor do livro Tolkien and the Great War, vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site:  http://www.johngarth.co.uk

Ele esteve em combate duas vezes: no início da campanha, em um ataque noturno a uma aldeia em ruínas, e novamente quando uma trincheira alemã foi apreendida em um dia frio de outono.

Nesse tempo, tinha se tornado oficial de sinalização do batalhão e passou longas semanas nas trincheiras, onde testemunhou todos os horrores da morte mecanizada. Mas pouco antes que seus companheiros fossem transferidos para outra atividade em Ypres, Tolkien ficou doente e foi enviado para casa com a cabeça cheia de imagens poderosas que iriam re-emergir mais duas décadas depois em sua obra prima, O Senhor dos Anéis.

Deitado no hospital em Birmingham, Tolkien escreveu em um caderno o assombroso épico de Gondolin, uma cidade de cultura elevada que foi destruída em uma martelada por um exército do pesadelo.

O pior e o melhor do que ele tinha visto na militarista Somme foi incorporado nos ataques brutais dos goblins e a defesa dos elfos, valentes em uma incalculável falta de esperança.Entre os dragões e demônios no assalto estão bizarras e monstruosas máquinas que lançam fogo ou de onde as tropas desembocam: a prosa arcaica poderia estar descrevendo um tanque – então recém implantado na área de Tolkien na Frente Ocidental – como seria visto por olhos medievais.

A história de Gondolin foi logo acompanhada por um ciclo inteiro de “Contos Perdidos”, incluindo um mito da criação, em que o mundo é formado por música, mas é irreversivelmente marcado por um anjo rebelde e sua chocante discórdia repetitiva.

A história do satânico Morgoth tentando conquistar, perverter e destruir o mundo é como uma poderosa acusação do uso indevido da criatividade.

soldados da primeira guerra

Tolkien perdeu dois de seus melhores amigos durante  Somme, e a Grande Guerra custou a vida de cerca de um em cada quatro do seu círculo de amizades mais amplo – jovens educados na escola pública e de Oxbridge que normalmente acabaram sendo oficiais subalternos na mordaz final. Tolkien reformulou sua mitologia  várias e várias vezes, mas nunca a concluiu. Ela foi publicada postumamente, como O Silmarillion. Nesse meio tempo, em 1937, ele começou uma sequência para sua bem sucedida história de fantasia para crianças, O Hobbit. O Senhor dos Anéis reflete os tempos escuros e foi criado no mesmo mundo de O Silmarillion, mas ganha vida, pois descreve a Terra-média – o nosso mundo em uma era pré-histórica – através dos olhos dos hobbits. Eles representam pessoas comuns, mais especificamente os tecelões e trabalhadores que formaram a espinha dorsal do batalhão de Tolkien na Grande Guerra, os Fuzileiros de Lancashire 11.

Ao contrário dos memorialistas célebres e poetas de 1914-1918, Tolkien escreveu muito pouco sobre o que ele viu nas trincheiras, mas as imagens estão lá nos rostos bonitos e putrefos que olham fixamente para fora dos lagos dos Pântanos dos Mortos; e no hobbit Merry rastejando na lama como um animal atordoado para plantar uma faca na parte de trás do joelho do seu inimigo; em Frodo e Sam, o oficial e seu batman, sentado em um buraco maldito em que o mundo entra em erupção em torno deles, perguntando se o seu fim chegou.

Esta é a Grande Guerra  que não é uma farsa trágica, mas um amargo esforço pessoal.

Robert Graves, ansioso para declarar Goodbye To All That – ao império e deferência e patriotismo cego – esqueceu-se que o soldado na frente ocidental não poderia fazer nada a não ser morrer penosamente ou ir para casa ferido.

O mito de Tolkien diz outra verdade sobre a guerra: os soldados  naquele horror eram muito mais do que vítimas passivas. Eles eram pessoas reais, resilientes, covardemente, brutal e por vezes heróica.

Se em dois anos, em seu terceiro e último filme do Senhor dos Anéis, o diretor Peter Jackson passar perto o suficiente da narrativa de Tolkien, veremos a cidade de Minas Tirith em apuros ser salva pela intervenção, como se estivesse saindo de lendas antigas, de um grande número de mortos: as pessoas que abandonaram seus aliados 3.000 anos antes, e vieram finalmente resgatar seu juramento e lutar.

Testemunhas da guerra: Siefried Sasson e J.R.R.Tolkien

É, um cenário fantástico, surpreendente e moralmente impressionante: os fantasmas se juntando à guerra contra o mal. No entanto, como lembra Memoirs Of An Infantry Officer, no qual Siegfried Sassoon descreve uma divisão de infantaria exausta voltando de Somme: “Foi tudo em um dia de trabalho … mas para mim foi como se eu tivesse visto um exército de fantasmas. Era como se eu tivesse visto a Guerra como seria imaginada pela mente de algum poeta épico daqui a cem anos “.

© London Evening Standard. Reproduzido no site Tolkien Brasil com permissão.

Este artigo foi publicado originalmente em 13 de Dezembro de 2001 e pode ser encontrado em inglês AQUI. O autor do texto autorizou sua tradução e publicação expressamente.

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