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Escala dos dragões: Por que é impossível medir a Terra-média de Tolkien

John garth

John Garth é vencedor do Mythopoeic Society Award Scholarship 2004, estudou Inglês na Universidade de Oxford e, desde então, trabalha como jornalista em Londres. Autor do livro Tolkien and the Great War (2003) e de diversos artigos e documentários sobre J. R. R. Tolkien. Site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com

Tradução: Sérgio Ramos

Nota do Editor – Tolkien Brasil: este artigo (cuja tradução em português para o site Tolkien Brasil foi devidamente autorizada pelo autor) trata do polêmico gráfico que flutua na internet que mostraria uma suposta escala dos tamanhos dos dragões da Terra-média.

 

Uma peça de arte de fã ilustrando o tamanho relativo dos dragões de Tolkien levanta uma questão bem mais interessante do que quão grandes eram Smaug, Glaurung ou Ancalagon, o Negro. É uma questão que deveríamos parar para pensar no intuito de tratar o Legendarium de Tolkien como uma parte da história, e especialmente uma tentativa de descrevê-la visualmente – seja em ilustrações ou filmes.

Créditos da imagem: Hæddre

Créditos da imagem: Hæddre

A artista arrumou os dragões da Terra-média em ordem de tamanho, desde Smaug (meramente grande) até Ancalagon (verdadeiramente gigantesco, mesmo para os padrões de Godzilla). A justificativa para tal escala é dada aqui (http://contemporaryelfinchild.tumblr.com/post/84953327509/since-that-dragon-chart-has-quickly-become-my-most) – os tamanhos descritos são inferidos das descrições de Tolkien e de sua arte.

            Os pontos chave são o tamanho de Glaurung (ou Glorund como Tolkien o chamou no começo) relativamente ao plano de Nargothrond na ilustração “Glorund sets forth to seek Túrin” (“Glorund se apresenta para perseguir Túrin”) (Wayne Hammond e Christina Scull, J.R.R. Tolkien: Artist and Illustrator, p. 59); o tamanho de Smaug relativamente a Bilbo em “Conversation with Smaug” (“Conversa com Smaug”) (O Hobbit); e esta passagem em O Silmarillion: “Antes que nascesse o Sol, Eärendil matou Ancalagon, o Negro, o mais poderoso do exército de dragões, e o lançou das alturas. O dragão caiu sobre as torres das Thangorodrim, que foram destruídas com sua queda.” O tamanho das Thangorodrim, a montanha acima da fortaleza do senhor do escuro original Morgoth, é baseada no desenho de Tolkien “The Vale of Sirion” (“O Vale de Sirion”) (Artist and Illustrator, p. 59) e a observação de Karen Wyn Fonstad em seu Atlas da Terra-média (Houghton Mifflin, p. 22 na edição de 1991) que sugere uma montanha de 35.000 pés de altura. Logo, Ancalagon teria que ser muito, muito grande para “quebrar” Thangorodrim.

            A arte é invocativa e impressionante, e eu certamente não pretendo diminuir as habilidades visuais de sua criadora, que se denomina Hæddre – muito menos impugnar a paixão dela pelo assunto. E está claro que muitos e muitos fãs de Tolkien têm uma sede por “fatos” sobre a Terra-média e ilustrações convincentes de criaturas múltiplas, lugares e coisas. Isto está claro justamente na própria postagem de Hæddre que acompanha seu gráfico de dragões, o qual foi curtido, compartilhado ou comentado mais de 116.000 vezes enquanto eu escrevo.

            Contudo, há uma grande falha nas suposições por trás do gráfico de dragões. As ilustrações de Tolkien não podem ser tomadas como evidências empíricas. Elas são altamente estilizadas, como convém a uma estória medieval ou com conotações lendárias/de contos de fadas. Então, frequentemente, assim são seus escritos sobre a Terra-média.

            Tolkien admitiu que seu Bilbo em “Conversa com Smaug” não está retratado em escala. “O hobbit na gravura do tesouro de ouro, Capítulo XII, sem dúvida (apesar de estar gordo nos lugares errados) está demasiadamente grande. Mas (como meus filhos compreendem, de qualquer forma) ele na verdade está em uma imagem ou ´plano´ separado, estando invisível ao dragão.” (As Cartas de J. R. R. Tolkien, nº 27, março/abril 1938, a Houghton Mifflin, os editores americanos de O Hobbit).

            Está claro que a ilustração “Glorund sets forth to seek Túrin” (“Glorund se apresenta para perseguir Túrin”) é

Reconstrução do templo de Jerusalém (de William de Tiro, “Histoire d´Outremer”)

Reconstrução do templo de Jerusalém (de William de Tiro, “Histoire d´Outremer”)

menos propensa ainda a representar proporções verdadeiras: ela é explicitamente medieval em estilo, enquanto “Conversa com Smaug” tem mais em comum com o tipo de ilustração conhecido em livros infantis clássicos do final do Séc. XIX e início do Séc. XX – Arthur Rackham, Edmund Dulac, e por aí vai. Se fôssemos pegar gravuras medievais reais como evidência para a vida na Idade Média, nós poderíamos pressupor que as pessoas eram gigantes naqueles tempos.

Em uma conversa sobre isso na página do Facebook da Tolkien Society, Deborah Sabo pega a linha sobre Ancalagon “quebrando” Thangorodrim, e corretamente aponta que devemos ter cuidado para não minar a prosa (e poesia) fictícia de Tolkien no intuito de encontrar evidência empírica. Poderia ser “dicção poética em um estilo mítico”, ela observa, e a frase pode simplesmente significar “quebrar os lados da montanha”.

Tolkien era mestre em misturar o moderno com o medieval. Em certos pontos (particularmente em muitas das descrições de paisagens percorridas em O Senhor dos Anéis), ele está usando realismo dos tempos modernos para criar um ar de verossimilhança. É isto que permite a tantos de nós sentirmos como se estivéssemos lendo algo que realmente aconteceu, ou que nós mesmos estamos fazendo a jornada. Mas, em outros pontos, Tolkien utiliza linguagem profundamente figurativa – particularmente quando descreve eventos distantes do passado semi-lendário. É bem certo que a queda de Ancalagon deve ser contada desta forma.

A mistura dos estilos medieval e moderno se coaduna com o fato de que seus hobbits são muito parecidos com pessoas do passado recente (o passado da infância rural inglesa de Tolkien) ainda a se aventurar em um mundo mais velho de lenda e da saga. É um dos elementos que ajuda a criar o tremendo senso de perspectivas profundas no legendarium de Tolkien, como um panorama no qual o primeiro plano é cristalino, mas as distâncias estão borradas em névoa.

Em certo sentido, portanto, exercícios como este gráfico de tamanhos de dragões são errados. E assim o são os segmentos do Atlas de Fonstad dedicados às Primeira e Segunda Eras, onde a evidência é quase que totalmente no modo de crônica medieval. É um problema que também atormenta a representação da Terra-média nas adaptações para as telas de Peter Jackson. É com uma economia maravilhosa que a escrita de Tolkien transmite uma sensação de grandeza e escala, mas a fim de conseguir um efeito similar, os filmes de Jackson, trancados em um modo foto realista, só recorre a fazer as coisas muito, muito grandes. Barad-dûr é um excelente exemplo: impossivelmente alta.

Enquanto eu admiro a arte de Alan Lee e John Howe, que sustentam os filmes, e enquanto eu também admiro a arte de Ted Nasmith e outros que pintam ou desenham em um modo similarmente realista, não me convenço sempre que esta é a melhor maneira possível de ilustrar os elementos mais míticos da Terra-média. Em contraste, a Barad-dûr de Pauline Baynes pode ser impossivelmente massiva, mas tudo no desenho dela de Mordor (usado na capa de várias edições de O Senhor dos Anéis dos anos 60 e 70) não é realístico, e maravilhoso. Do mesmo modo, o Smaug de Tómas Hijo não pode ser interpretado como um guia para o tamanho “real” do dragão, não mais do que as pessoas de Hijo o podem; ele está desenhando com a liberdade e fanfarronada de um artista medieval.

Por outro lado, é inevitável que queiramos ver mais claramente através das distâncias nevoentas – de fato, este é exatamente o sentido de anseio que Tolkien teve como objetivo incutir. Ele escreveu a seu filho Christopher (Cartas, nº 96, 30 de janeiro de 1945): “Acho que você ficou comovido com Celebrimbor porque ele transmite uma sensação de infinitas histórias não-contadas: montanhas vistas ao longe, para nunca serem escaladas, árvores distantes (como a de Migalha) para nunca serem abordadas – ou, caso seja possível, apenas para se tornarem ‘árvores próximas’ (a não ser no Paraíso e na Paróquia de N.).” Isto era uma emoção, ele disse, “que me move supremamente e encontro pequena dificuldade em evocar: a sensação que tortura o coração do passado que desapareceu.”

© John Garth

Artigo publicado originalmente 18 de Janeiro de 2015 AQUI . A publicação e tradução foi autorizada pelo autor do artigo John Garth. Tradução de Sérgio Ramos.

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  • Luca Farias

    Um ótimo artigo, parabéns à Tolkien Brasil por mais um espetacular artigo!

  • Lucas
    • matheus wiver mota baiaa

      Acho que o Smaug esta muito grande se comparado ao Ancalagon

      O Dragão Negro é muitas vezes maior que o “Rei sobre a Montanha”

      • Lucas

        se tu for ver bem, só a asa do ancalagon fechada ja é maior que o smaug…eu considero um tamanho considerável, se tratatando da maioridade de ancalagon…pois nas ilustrações do post eu achei meio forçado

      • Jhoni Driesch

        sob*

  • Cesar Augusto Machado

    Irretocavel.