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Artigo: O Épico Inacabado de Tolkien: A Queda de Artur – John Garth


John garth
John Garth, é autor do livro Tolkien and the Great War, (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site:  http://www.johngarth.co.uk

 

Recentemente o livro A Queda de Artur de J.R.R.Tolkien foi publicado pela editora Wmf Martins Fontes, saiba mais AQUI.

O Épico Inacabado de Tolkien: A Queda de Artur 

Um dos projetos abandonados de Tolkien foi um poema épico sobre a lenda do Rei Artur. Posto de lado durante décadas, A Queda de Artur foi finalmente publicado. O biógrafo de Tolkien, John Garth, trata como este abriu o caminho para O Senhor dos Anéis.

No início de A Queda de Artur, muito aguardado pelos fãs de J. R. R. Tolkien e agora editado para publicação pelo seu filho Christopher, um exército cavalga para Mirkwood onde eles vêem numa tempestade acima deles, assemelhando-se a um Espectros do Anel:

cavaleiros pálidos    selvagens em nuvens ventosas
cinzentos e monstrousos    sombriamente cavalgando
pela sombra dirigidos para a guerra,    formas desastrosas.

Mas isto não é a Terra Média: é a Europa à beira da Idade das Trevas, e o exército é liderado por Artur e Gawain. Mirkwood é simplesmente o nome antigo para as florestas do leste da Alemanha, das quais Tolkien pediu emprestado para a história de crianças que estava a escrever no mesmo período no início de 1930, O Hobbit.

Tolkien foi um escritor de histórias intermináveis​​. E como a maioria delas, A Queda de Artur é literalmente sem final: inacabada. Estava entre o seu vasto legado de papéis, quase desconhecida senão por um parágrafo na biografia de Humphrey Carpenter de 1976 e uma única referência nas cartas publicadas de Tolkien. A publicação segue a do mais difícil A Lenda de Sigurd e Gudrún em 2009, a qual Christopher Tolkien provavelmente elegeu para publicar primeiro porque estava completa. Como Sigurd e Gudrún, A Queda de Artur está em verso aliterativo, uma forma de última moda no século 14. Isso equivale a umas meras 40 páginas, e talvez tenha sido abandonado por causa de pressões profissionais e familiares, ou de modo a completar O Hobbit. Mas se puder suportar a frustração de saber que é um fragmento, vale a pena ler. Ninguém fez mais do que Tolkien para reacender a chama medieval para a era moderna; e essa é a sua única contribuição criativa para a básica tradição Arturiana. Convincente em ritmo, assombrada pela perda, ela faz jus às expectativas.

Artur é visualizado como um rei fiel a Roma, cujas legiões deixaram a Grã-Bretanha. É a época das grandes migrações para o oeste dos povos germânicos que acabariam por ocupar a Europa, levando os celtas até à beira do Atlântico. Numa altura em que a Grã-Bretanha era em si só recentemente convertida para a “gentil cristandade”, Artur faz uma guerra esmagadora contra os invasores germânicos e os seus “velhos deuses”. Mas o seu é “um mundo caindo” assolado “pelas marés do tempo”: sabemos ele não vai ganhar contra a traição em casa.

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Paisagem e clima, como sempre, são aliados de Tolkien em elevar ou liberar a tensão. Tempestade no céu e no mar corresponde a paixões humanas e conflitos; ondas moem pedregulhos “com raiva de ogre.” Os vôos narrativos de grandes cenas militares para close-ups pessoais, depois surgindo rapidamente de volta. Não há naturalmente leviandade hobbit. Os principais jogadores são personificações rígidas de princípio, ou da sua falta.

Gawain é menos uma personalidade do que um pedaço de granito, um homem “cuja glória aumentou/ por vezes obscureceu.” Lancelot tem um impulsivo, feliz otimismo fora de sintonia com os tempos. O seu amor por Guinevere é deslocado: ela é um “ganancioso coração” colecionador de ouro ou de amor, cujos sentimentos se adequarão ao carácter de serviço público da Távola Redonda, honra e cavalheirismo: uma “mulher cruel/formosa como as mulheres-fada e cruel de espírito/no mundo caminhando para o infortúnio dos homens”. Mordred é um escravo do seu desejo pela Rainha, sem encontrar saída para as suas energias frustradas exceto em ações conspiratórias.

No momento em que ele começou A Queda de Artur, Tolkien já era mestre do modo aliterativo, em que as duas ou três palavras mais importantes em cada linha começam com o mesmo som, e no qual cada linha contém uma pausa a meio do caminho – uma “cesura” representada pelo espaçamento extra. Ninguém se deve surpreender ao encontrar inversões de ordem de palavras e arcaísmos: escudos, brasões, frentes, galés à vela e bordados tudo no espaço de uma dúzia de linhas. No seu generoso e esclarecedor comentário, Christopher Tolkien cita uma carta de 1934 de um amigo do seu pai que, lendo Artur num comboio, “se aproveitou de um compartimento vazio, para declamá-lo como ele merece”. Em voz alta é certamente melhor; num comboio é estritamente opcional.

Os leitores de O Senhor dos Anéis estarão familiarizados com o estilo. “Nós ouvimos o toque das cornetas nas colinas” – era como os poetas de Rohan evocavam o toque de trombeta para a ação. Em A Queda de Artur quase a mesma linha aparece, com uma diferença pessimista: o exército de Artur em Mirkwood “ouviu uma corneta nas montanhas tremendo”. É a trombeta de um mensageiro da Grã-Bretanha com pressa para dizer ao rei que ele foi traído por Mordred, deixado para trás como seu mordomo.

O primeiro pensamento de Artur é convocar Lancelot de sua casa na França. Mas – como aprendemos em flashback – Lancelot foi banido após o seu adultério com Guinevere, e Gawain afirma erroneamente que ele não pode ser de confiança. Uma névoa de mal-entendidos entre os inimigos de Mordred deixa-os fatalmente vulneráveis.

O poema rompe na mais frustrante das conjunturas, assim que Artur e Gawain contemplam um ataque ao estilo Gallipoli via falésias brancas da Grã-Bretanha. Argumentando contra o ataque desigual, Artur é o modelo do sábio e justo líder militar, como Aragorn em O Senhor dos Anéis mas muito ao contrário dos generais que a geração de Tolkien tinha conhecido na Primeira Guerra Mundial, que desperdiçaram a vida de dezenas de milhares em fúteis e mal concebidos assaltos. Mas o ataque vai em frente, com consequências terríveis.

A Queda de Artur trata quase exclusivamente com manobras pessoais e militares. No entanto este é um mundo à beira da fantasia, em que Gawain carrega uma espada encantada com runas e fala em convocar a ajuda do povo das “fadas” da Ilha de Avalon. E é em Avalon que, de uma forma curiosa e tentadora, A Queda de Artur se encaixa com a mitologia da Terra Média de Tolkien.

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A misteriosa Avalon para a qual Artur é levado para morrer muitas vezes é considerada pelos cronistas Arturianos como sendo Glastonbury, um lugar muito real no oeste da Inglaterra. Mas Tolkien não tem nada disso. Como os leitores atentos sabem, a Terra Média nunca foi concebida para ser outro mundo, mas o nosso próprio numa época anterior. Em 1916, muito antes de ele imaginar O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Tolkien começou a escrever os “Contos Perdidos” (protótipos de O Silmarillion), que ele imaginou serem contados para um marinheiro mortal que atingiu a Ilha Solitária dos Elfos no extremo oeste. Em A Queda de Artur, quando Tolkien escreve sobre Avalon, ele quer dizer essa mesma ilha élfica.

Mais tentadoramente de tudo, notas para o final não escrito têm Lancelot navegando para Avalon na esteira de Artur. Isto não é enfaticamente o que acontece com Lancelot nas fontes medievais: como Christopher Tolkien explica, o Le Morte d’Arthur de Sir Thomas Malory do século 15 tem-no como vivendo em austeridade na Grã-Bretanha, a definhar finalmente depois da morte de Guinevere. Foi decisão de Tolkien de enviar Lancelot para Avalon, reconfigurada como a ilha dos Altos Elfos, simples auto-indulgência de um autor cujos escritos foram muitas vezes atraídos para a órbita da Terra Média – algo não mais significativo do que quando uma baleia leva o cão herói Roverandom da história dos seus filhos dentro da vista da Baía das Fadas e de novo para longe? Ou Tolkien realmente planeou usar A Queda de Artur para introduzir os leitores às suas histórias Silmarillion, fazendo de Lancelot o marinheiro que iria aprender esses contos perdidos dos Elfos de Avalon? Ele estava a trabalhar nessas histórias há quase duas décadas, e certamente na década de 1930 ele estava a lançar-se sobre maneiras de tê-las publicadas. Mas nunca saberemos se ele  de fato  viu Artur desta forma. Logo após o poema ser abandonado, O Hobbit encontrou o seu caminho para as editoras, e essa história muito mais populista provou ser a porta através da qual Tolkien poderia começar a contrabandear a sua visão mais velha, épica do domínio dos elfos.

© John Garth; reproduzido com a permissão do The Daily Beast

 

Artigo publicado originalmente 23 de Maio de 2013 no the daily beast ( http://www.thedailybeast.com/articles/2013/05/23/tolkien-s-unfinished-epic-the-fall-of-arthur.html ) foi autorizada sua publicação pelo the daily beast e pelo autor John Garth.

Tradução para o português por Lia Margarida Silva.

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