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100 anos de Terra-média – por John Garth

 John garth

John Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

A Terra média de Tolkien começou em 1914. Isso pode ser uma surpresa, considerando que O Senhor dos Anéis foi publicado em 1954-5 e até O Hobbit não existia antes de 1937. Mas o fato é que antes e durante esses dois livros já existia uma base sólida de trabalho criativo: o vastamente ambicioso círculo de histórias que se tornaria O Silmarillion, bem como os anais, descrições cosmológicas, poesia, ilustrações, mapas e, claro, muitas línguas inventadas e sistemas de escritas.

O primeiro fragmento identificável da Terra média emergiu em 24 de Setembro de 1914, quando Tolkien (imagino que em Junho) era um convidado de sua tia na fazenda de Nottinghamshire. A guerra havia começado na Europa, o mundo todo parecia estar agitado, e Tolkien deu o primeiro passo no caminho que ele seguiria para o resto de sua vida. Mas vamos chegar a isso no devido tempo.

Hoje, em 26 de Janeiro de 2014, no 100º (centésimo) aniversário da primeira leitura pública conhecida da prosa épica de Tolkien. Não é o que você poderia esperar: não há ataques de cavalaria aqui, nem monstros mitológicos, nem lutas de espadas. Esses são minutos oficiais de uma reunião universitária – uma sessão da Stapeldon Society, o corpo discente que frequenta a Exeter College, Oxford.

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É difícil imaginar um tópico menos propenso para agitar a imaginação, e de outro modo teria, sem dúvida, sido levemente divertido na melhor das hipóteses ou na pior uma utilidade ofuscada. Contudo, Tolkien foi o encarregado de escrever tudo.

Ele tinha sido o secretário da Stapeldon para o ato, e este era seu dever naquela função. Além do mais, foi nessa reunião que ele foi eleito presidente para o mandato seguinte. Então, pode-se imaginar a cena em 26 de Janeiro de 1914, Tolkien com seus 22 anos naquela cadeira pela primeira vez, e seu sucessor como secretário – seu amigo Colin Cullis – lendo em voz alta e vívida a ata da qual retiramos estes trechos:

Na 791ª reunião da Stapeldon Society realizada no dia primeiro de dezembro de 1913 uma das grandes batalhas do mundo entre democracia e autocracia foi travada e vencida, e como é habitual em tais conflitos as armas da democracia foram o vandalismo e tumulto …

Muito antes dos policiais sequer passarem a cortina os sons ameaçadores de uma casa gigantesca sedenta de sangue podiam ser ouvidos. Mesmo no átrio um murmúrio estrondoso maçante como a baía do Bloodhound em “Red Axe” chegou aos ouvidos das botas, que prontamente incharam a multidão, entrando quando a porta rangia pela abertura das janelas…

[O presidente que se afasta, RH Gordon, tinha trazido uma garrafa de porto, e outros estudantes seguiram o exemplo, então a reunião declinou em insobriedade. A decisão presidencial questionável levou a uma erupção generalizada de descontentamento.]

A Câmara – especialmente tipificada pelo Sr. H.S. Price – estava passada em seu rosto e com as veias de raiva pulsando em suas cabeças – protestaram contra esta decisão com um extraordinário alvoroço, os quais nunca haviam sido ouvidos nesta sala antes. Homem após homem se levantava para falar corados com o vinho da ira, e homem após homem foram anulados, esmagados e triturados no esquecimento com a magia da Regra 9 seção (b); até que a Câmara começou a ressentir-se da regra 9 (b) como inimiga pessoal, e se insurgiram com um antagonismo incontrolável em cada menção a ela.

A única forma, em que os membros nos cantos ulteriores poderiam falar sobre o andamento dos negócios, foi pelas mudanças de cor no rosto presidencial, que variou de um rico violeta para um creme sem graça…

Quando o Sr. Trevor Oliphant surgiu com o rosto branco de amarga determinação, exigiu que a Câmara voltasse ao Negócio Privado para a discussão da questão constitucional arquivada, todos os limites, toda a ordem, e tudo o mais foi esquecido, em um longo motim de algazarra estridente. Dos gritos roucos garrafas brandiam sendo jogadas pela arquibancada, floresceram vestes descontroladamente, copos quebrados, e as luzes apagadas, a Câmara declarou a sua determinação em cumprir sua vontade e revogar a Constituição. No meio deste tumulto um Red Devil de Fu-ji-ya [a marca do jogo] saltou no peito do Sr. Palmer e acertou o secretário [o próprio Tolkien] bem no nariz.

Por precisamente uma hora marcada a Câmara batalhou contra o barulho e manifestações dos desejos.  Estava a tal ponto de se dissolver e tornar-se outra sociedade, alguém foi vociferando para a Regra 40, outro para a Regra 10, outro para nenhuma Regra a todos, ou pela a cabeça do Presidente, ou suas vestes inferiores.*

Imitação épica ao invés de precisamente épico, sim. Mas aqui vislumbramos Tolkien, 100 anos atrás, engatando-se para o trabalho que faria da Terra-média um nome familiar no mundo inteiro.

Você poderá ler mais sobre o Tolkien universitário e as origens da Terra-média em meu próximo livro a ser publicado pela Exeter College.

* As Citações da minuta da Stapeldon Society foram reproduzidas com permissão do Reitor e Professores da Exeter College.

© John Garth e Exeter College.

Artigo publicado originalmente 26 de Janeiro de 2013 em (http://johngarth.wordpress.com/2014/01/25/100-years-of-middle-earth/). A publicação e tradução foi autorizada pelo reitor da Exeter College e pelo autor do artigo John Garth.

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