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A vida de Priscilla Tolkien – Parte 1

by Eduardo Stark

Priscilla Tolkien (Photo thetimes.co.uk)

Priscilla Tolkien (Photo thetimes.co.uk)

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Quando se trata dos descendentes de Tolkien a atenção é sempre voltada para o Christopher Tolkien, por ser o herdeiro literário de seu pai, por editar as obras póstumas e comentar a maioria delas. Mas muitas vezes é negligenciada a existência da filha de Tolkien, que também desempenha papel importante em trabalhos sociais e a propagação das obras de seu pai.

Priscilla Tolkien viveu ao lado de seu pai por muitos anos e isso deve ter implicado em uma série de auxílios na produção das obras. Sabe-se que seus filhos foram importantes para a inspiração inicial de suas primeiras histórias infantis que culminaram com a publicação do Hobbit. Assim, conhecer um pouco sobre a de Priscilla implica também em entender mais sobre o professor Tolkien.

Na semana anterior Priscilla Tolkien, em 18 de Junho de 2014, completou seu 85º aniversário. Esse artigo tem a finalidade de prestar uma singela homenagem e mostrar aos leitores um pouco sobre a vida da querida filha do professor J.R.R. Tolkien.

É importante ressaltar que não se trata de uma biografia completa, já que foi escrita apenas com base em informações comuns e já publicadas previamente em livros, sites, jornais e outras fontes de informações. A intenção é dar uma perspectiva da vida de Priscilla Tolkien da melhor forma e dentro de uma certa completude possível.

Para o melhor aproveitamento do artigo é interessante que o leitor tenha um razoável conhecimento da vida do professor Tolkien, já que a vida de Priscilla esteve intimamente relacionada a vida de seu pai entre os anos de 1929 e 1973. Deve-se encarar o texto como um certo complemento a biografia de Tolkien.

 

O nascimento e batismo (1929)

Priscilla Mary Anne Reuel Tolkien nasceu em 18 de junho de 1929, filha de J.R.R. Tolkien e Edith Mary Tolkien. Como era comum na época, Priscilla nasceu com parto normal em casa na 22 Northmoor Road, em Oxford.

O nascimento de Priscilla foi muito bem vindo por seus pais, especialmente por sua mãe que esperava ter uma filha para ser companheira e auxiliar nas atividades domésticas.

A família Tolkien buscava preservar as tradições e a religião católica, em um ambiente onde a grande maioria era protestante Anglicana. Assim, pouco tempo após o nascimento, Priscilla foi levada ao batismo na Igreja Católica próxima de sua casa.

O professor Tolkien e sua filha Priscilla

O professor Tolkien e sua filha Priscilla

Os padrinhos de batismo foram o Sr. Francis de Zulueta (1878 -1958), Professor Regius de Civil Law em Oxford, e a Srª Helen Buckhurst (1894–1963), professora e tutora de língua Inglesa na St Hugh’s College, Oxford.

Tolkien conheceu Francis de Zulueta através da The Newman Society, a mais antiga sociedade católica em Oxford (fundada em 1878) com o propósito social e religioso de reafirmar o catolicismo na Inglaterra. A sociedade foi criada em homenagem ao Cardeal Newman, que foi expoente do “movimento Oxford”. The Newman Society era então um ponto comum de encontro entre os acadêmicos católicos de Oxford, que eram uma minoria no campus.

Embora os documentos daquela época estejam perdidos, é bem provável que Tolkien fosse um membro da The Newman Society, já que em 1928 o professor Tolkien leu o artigo “The Chill Barbarians of the North” em um dos encontros da sociedade. 

Zulueta estava relacionado ao comitê da Newman Society e ocupou esse cargo por vários anos. Além disso, Zulueta era um importante representante católico em Oxford, sendo o primeiro professor Regius católico desde a reforma religiosa na Inglaterra, ocupando o cargo entre os anos de 1919 a 1948.

O relacionamento de Tolkien com Francis de Zulueta passou do campo da amizade para o de respeito profundo. Havia intensas conversas sobre vários assuntos, sobretudo sobre as concepções do que seria o bem e o mal, não necessariamente em uma visão religiosa, mas filosófica e acadêmica. Como decorrência dessa amizade o professor Tolkien escolheu Zulueta para ser o padrinho de batismo de Priscilla.

Francis de Zulueta 1945 (by Walter Stoneman) © National Portrait Gallery London

Francis de Zulueta 1945 (by Walter Stoneman)
© National Portrait Gallery London

A madrinha de batismo de Priscilla foi Helen Therese McMillan Buckhurst. Helen tinha uma tendência em estudar a cultura, literatua e língua Islandesa, tendo viajado para Islândia em 1919. Publicou alguns estudos sobre o Inglês antigo e o Islândes que chegaram as mãos de Tolkien.

Em 1927 Buckhurst publicou um artigo “Icelandic Folklore” para a Viking Society de Londres e nesse texto apresenta as características dos Trolls, dentre elas sua fraqueza e transformação em pedra com a chegada da luz, que mais tarde Tolkien iria incluir na história de O Hobbit.

Os Trolls islandeses, como descrito tanto nas Sagas e em contos mais recentes, são enormes, criaturas deformadas, tendo certa semelhança com a forma humana, mas horrivelmente feia sempre. Eles constroem suas casas entre as montanhas, vivendo geralmente em cavernas entre as rochas ou na lava. Quase sempre tem uma disposição maligna em seus atos e muitas vezes descem à noite até as fazendas mais distantes,com o fim de levar consigo ovelhas, cavalos, crianças, ou homens e mulheres mesmo crescidos, para devorar em suas casas de montanha”.(In. Icelandic Folklore. Helen Buckhurst pp. 222)

Buckhurst acrescenta ainda:

Alguns tipos de trolls não têm nenhum poder, exceto durante as horas de escuridão. Durante o dia, eles precisam ficar em suas cavernas, pois os raios do sol pode transforma-los em pedra“.

De 1926 a 1930, Helen Buckhurst se tornou professora e tutora de língua inglesa na St Hugh’s College, Oxford. Em 1927 ela começou a fazer um curso avançado (pós graduação) e seu orientador foi o professor Tolkien, defendendo a tese “The Historical Grammar of Old Icelandic”.

Nesse tempo em que foi orientada pelo professor Tolkien, Helen acabou se tornando amiga intima de sua família e foi então escolhida para ser a madrinha de Priscilla. Helen manteve seu relacionamento com a família Tolkien pelos próximos anos, realizando visitas ou escrevendo cartas.

A importância de Helen Buckhurst como amiga da família é evidenciada no ato em que o professor Tolkien enviou um exemplar de O Hobbit logo que publicado em 1937.

 

A infância de Priscilla

 

O fato de ser a única menina dentre os quatro filhos de Tolkien e Edith implicou em maior atenção dos seus pais e um cuidado especial também por ser a mais nova. Talvez por isso ao longo de sua vida Priscilla foi muito apegada aos seus pais.

Além disso, o fato de Priscilla parecer fisicamente frágil preocupava seus pais. Em 1934, por volta de 23 de fevereiro, Priscilla ficou doente repentinamente e permaneceu cinco semanas seguidas em sua cama. Naquela época os médicos não conseguiram diagnosticar precisamente a causa da doença, mas felizmente a menina se recuperou após esse tempo.

Na época que Priscilla nasceu Tolkien trabalhava como professor de Anglo-Saxão na Pembroke College e já tinha o costume de escrever historinhas para seus filhos. Foi antes do nascimento de Priscilla que o professor desenvolveu para seus filhos histórias como Roverandom, O Hobbit e outras.

20 Northmoor Road, Oxford. Residência dos Tolkiens em 1930 a 1947.

20 Northmoor Road, Oxford. Residência dos Tolkiens em 1930 a 1947. (Amrerican Tolkien Society photo)

Era uma época cheia de criatividade de um pai alegre com todos os filhos ainda crianças. John Tolkien, que era o mais velho, tinha onze anos. Michael tinha oito anos e Christopher quatro.

Era comum o professor Tolkien passear com sua filha e ir em festas que aconteciam nas casas dos vizinhos em Oxford, especialmente aniversários e eventos em datas especiais.

A infância de Priscilla foi cheia de brinquedos, especialmente ursinhos de pelúcia e bonecas. Muitos desses presentes foram enviados junto com as Cartas de Papai Noel, escritas pelo Professor Tolkien no fim do ano. Era constante as brincadeiras com seus irmãos. Tinha um contato mais especial com o Christopher Tolkien, pois ele era o menino mais novo dos Tolkiens.

 

Na escola Rye St Antony (1935 – 1939)

 

Quando completou seis anos, o professor Tolkien e suas esposa Edith entenderam que Priscilla precisava ir a escola. Mas era necessário um cuidado especial para sua filha, já que queriam uma boa formação e preferencialmente católica. Foi então que optaram por matricular a menina na então recente escola Rye St Antony, que era gerenciada por duas senhoras católicas.

Rye St Antony foi fundada em 1930 por Elizabeth Rendall e Ivy King, duas professoras católicas de Oxford, que se inspiraram na igreja Rye em Sussex dedicada a Santo Antonio de Pádua para formar uma escola para jovens meninas e meninos. Foi a primeira escola católica para crianças que não tinha direção de clérigos da Igreja.

Inicialmente a escola teve apenas oito alunos, mas com o crescimento e aumento da demanda já no primeiro ano, as professoras decidiram sair da casa em Hamilton Road e passar para a 84 Woodstock Road, que poderia acomodar melhor os novos alunos. Mas com o início da Segunda Guerra Mundial, por decisão do comitê da cidade tiveram que se mudar rapidamente em Setembro de 1939 para a Pullen’s Lane, onde permanece até hoje.

Rye St Antony School

Rye St Antony School

A escola Rye St Antony é feita preferencialmente para meninas, embora tenha uma parte separada para meninos. Muitas jovens tiveram uma boa formação ali, dentre elas é conhecida a atriz Emilia Clarke que interpreta a personagem Daenerys Targaryen no seriado Game of Thrones da HBO.

As atividades na escola eram diversificadas. Aprendia-se história, geografia, gramática, matemática e atividades relativas a vida doméstica (costura, culinária etc). Havia um ensino religioso focado nos preceitos católicos. De um modo geral era uma escola conservadora e que buscava manter as tradições de uma educação para meninas da época.

Priscilla Tolkien estudou na Rye St Antony entre os anos de 1935 a 1939, uma época complicada não apenas para a família Tolkien, mas para todos os ingleses que na época viviam com o temor de ataques aéreos vindos da Alemanha, em razão da segunda guerra mundial.

Quando a escola ficava na 84 Woodstock Road, estava bem próxima a casa dos Tolkien, bastava virar em algumas ruas e chegariam ao destino em apenas quatro minutos de bicicleta ou quinze minutos a pé. Essa localização também era cômoda para Tolkien pois a rua dava logo em seguida na St Giles, onde o professor tinha o costume de encontrar com seus amigos no bar Bird and Baby (mais conhecido Eagle and Child). Mas quando a escola se mudou para a Pullen’s Lane a distância foi ampliada, demorando cerca de cinquenta minutos a pé e quinze de bicicleta.

A distância da escola em relação a sua casa, aliada ao fato de que havia a guerra, fora fatores que contribuíram para retirar Priscilla da escola Rye St Anthony em 1939. A partir de então ela passaria a aprender lições com uma governanta, que era sua antiga professora de piano. Priscilla só voltou a estudar em um colégio novamente em 1942 quando foi matriculada na Oxford High School for girls (Escola de ensino médio para garotas Oxford).

 

As Cartas de Papai Noel

 

O professor Tolkien desde 1920 tinha o costume de escrever cartas fingindo ser o Papai Noel e entregá-las aos filhos ainda crianças, juntamente com presentes de Natal. Eram momentos de intensa alegria na família.

A primeira referencia a Priscilla nas cartas veio no mesmo ano em que tinha nascido (1929), em que o Papai Noel pela primeira vez endereça a “J. M. C. e P. Tolkien” que são as iniciais de John, Michael, Christopher e Priscilla. No início dessa carta de Natal também está escrito “Queridos meninos e menina”.

Mas conforme seus filhos cresciam, ao completarem quatorze anos, o Papai Noel escrevia apenas aos menores. Foi assim que, a partir de 1938 Tolkien percebe que Christopher já estava grande demais para receber as Cartas do Papai Noel e no ano seguinte passa a escrever apenas para Priscilla, que ainda tinha nove anos.

Carta do Papai Noel para Priscilla Tolkien

Carta do Papai Noel para Priscilla Tolkien

As cartas não se desviam dos acontecimentos do mundo a cada ano. O Papai Noel sentia as dificuldades dos anos tristes da Segunda Guerra Mundial.

Na carta de 24 de dezembro de 1939, Papai Noel escreve em sua carta a Priscilla Tolkien:

Estou muito ocupado, e este ano as coisas estão muito difíceis por causa dessa guerra horrível. Muitos dos meus mensageiros jamais voltaram”. Na carta do ano seguinte, diz estar enfrentando dificuldades por causa da grande guerra: “Este ano estamos com muitas dificuldades. Essa guerra horrível está reduzindo todos os nossos estoques, e há muitos países em que as crianças estão morando longe das suas casas”.

PARA LER A SEGUNDA PARTE CLIQUE AQUI.

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