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Uma visão tolkieniana sobre a destruição do Museu Nacional

by Eduardo Stark

Em 2 de setembro de 2018 muitas pessoas lembraram que nesse dia se completou 45 anos do falecimento de J.R.R. Tolkien. Mas também algo terrível aconteceu. A nação brasileira foi surpreendida com um dos piores atentados de todos os seus quase 200 anos de existência. O museu nacional foi destruído por um incêndio de grande proporção.

Considerado o mais antigo patrimônio de conservação de nossa história, o Museu Nacional foi construído em 1808 por ordem de Dom João VI e mantinha um acervo de valor inestimável. Eram guardados mais de 20 milhões de itens e o prédio foi moradia da família real e sede da primeira Assembleia Constituinte do Brasil.

Mas a destruição do Museu Nacional parece ter sido apenas o resultado de um descaso com a cultura que, infelizmente, passa de geração em geração. Em seu livro “1808” o escritor Laurentino Gomes descreve a situação do museu há quase dez anos atrás, e ao que tudo indica a situação apenas se agravou nos últimos anos:

“Situado na Quinta da Boa Vista, a algumas centenas de metros do Estádio do Maracanã, com vista para o morro da Mangueira, este é um dos museus mais estranhos do Brasil. Seu acervo reúne, além do meteorito, aves e animais empalhados e vestimentas de tribos indígenas abrigadas em caixas de vidro que lembram vitrinas de lojas das cidades do interior. As peças estão distribuídas ao acaso, sem critério de organização ou identificação. O Museu Nacional é ainda mais esquisito pelo que esconde do que pelo que exibe. O prédio que o abriga, o Palácio de São Cristóvão, foi o cenário de um dos eventos mais extraordinários da história brasileira. Ali viveu e reinou o único soberano europeu a colocar os pés em terras americanas em mais de quatro séculos. Ali, D. João VI, rei do Brasil e de Portugal, recebeu seus súditos, ministros, diplomatas e visitantes estrangeiros durante mais de uma década. Ali, aconteceu a transformação do Brasil colônia num país independente. Apesar de sua importância histórica, quase nada no Palácio São Cristóvão lembra a corte de Portugal no Rio de Janeiro. A construção retangular de três andares, que D. João ganhou de presente de um grande traficante de escravos ao chegar ao Brasil, em 1808, é hoje um prédio descuidado e sem memória. Nenhuma placa indica onde eram os dormitórios, a cozinha, as cavalariças e as demais dependências usadas pela família real. É como se nesse local a História tivesse sido apagada de propósito.” (GOMES, Laurentino. 1808, Ed. Planeta, 2007, p.16)

Está demonstrado que é constante o descaso, a negligência com o patrimônio histórico do Brasil. Mas essa “mentalidade” de esquecer de se preservar o passado é algo tão antigo que se perde no tempo. Em vários momentos da história da humanidade ocorreram destruições de museus, grandes monumentos e bibliotecas. O caso mais lembrado foi a destruição da biblioteca de Alexandria.

Mas afinal o que isso tem a ver com J.R.R. Tolkien ?

Começamos pelo fato de que ele era um professor dedicado ao estudo de línguas antigas (Anglo-saxão, Inglês Médio e outras). Além disso, Tolkien era considerado um dos maiores medievalistas de seu tempo. Tudo isso relacionado com sua função de filólogo. As características em suas obras refletem muito de seu conhecimento histórico e da cultura regional inglesa.

Grande parte das histórias do Legendarium estão relacionadas a uma batalha entre duas forças. Entre os que resistem em viver com um modo de vida e outro que quer destruí-lo por completo.

O livro do Tolkien, com edição de seu filho, recentemente lançado pela HarperCollins Brasil, “A Queda de Gondolin”, trata também de um grande monumento em forma de cidade, que abrigava elfos escondidos do mal da Terra-média, e que lá preservavam toda sua erudição, conhecimentos acumulados por séculos. Ao ser destruída a cidade branca, se perdeu não apenas um lugar e seus objetos ou mesmo elfos, foi perdido um modo de vida e tudo o que aquilo significava naquele momento histórico. Tudo o que restou da cidade foram as vagas lembranças dos que sobreviveram ao massacre e puderam relatar.

“A glória habitava naquela cidade de Gondolin dos Sete Nomes e sua ruína foi a mais horrenda de todos os saques de cidades na face da Terra. Nem Bablon, nem Ninwi, nem as torres de Trui, nem todas as muitas capturas de Rûm, que é a maior entre os Homens, viram tal terror como o que caiu aquele dia sobre o Amon Gwareth da gente dos Gnomos, e consideram que essa foi a pior obra que Melko até hoje planejou no mundo”. (A Queda de Gondolin, p. 108).

Nesse trecho o Tolkien lembra de grandes destruições de povos que ocorreram na Idade Antiga, como Babilônia (Bablon),  Nineve (Ninwi), Trui (Tróia), Roma (Rüm). Embora tenham sido catástrofes grandiosas na história da Terra, a ficção de Tolkien se coloca como sendo o momento mais terrível de todos.

Na segunda era, o fato ocorreu novamente, porém em uma proporção ainda maior, quando uma civilização inteira sofreu as consequências de terem desafiado Eru e os Valar. A ilha dos numenorianos foi destruída por completo e novamente sobraram apenas uns poucos relatos de sobreviventes. Agora, em O Senhor dos Anéis é a batalha entre aqueles poucos que ainda cultivam a boa cultura (vinda dos elfos) e aqueles que querem deturpá-la ou até mesmo destruí-la por completo. O que se vê é a luta para que a destruição e a barbárie não domine a Terra-média.

Um povo que perde sua história perde também sua própria identidade. O que se perdeu ali na destruição do Museu Nacional não foi apenas material antigo, mas sim o que eles significavam e o que poderia nos ensinar. O valor de um documento assinado em um momento crucial da nossa história e que mudou a vida de milhões de pessoas, o livro que transformou vidas e mudanças reais, a obra de arte que encantou os corações daqueles que buscavam a sua beleza, o material arqueológico que pode gerar respostas para questionamentos fundamentais… Esse vasto complexo de riquezas está agora perdido no Brasil.

Imagem da queda de Gondolin por Alan Lee

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Um comentário

  1. Jean Isidorio /

    Muito pertinente a comparação, dada a amplitude da nossa perda. Aqueles duzentos anos de história e ciência perdidos, com certeza eram apenas a introdução de um passado vasto e muito muito mais antigo, e por isso remete-nos uma grandeza ancestral que foi perdida.
    Triste.

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