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Tolkien e sua oposição ao Nazismo de Adolf Hitler – Parte 2

Adolf Hitler e tolkien

Essa é a segunda parte de uma série sobre a oposição de Tolkien ao Nazismo de Adolf Hitler. A primeira parte pode ser lida clicando AQUI.

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Os Filhos de Húrin e o “absurdo nórdico”

Tornou-se remota, por exemplo, a publicação de suas histórias de Os Filhos de Húrin. A saga do herói Túrin Turambar, que luta contra o dragão Glaurung, que muito pode ser considerada semelhante a história de Beowulf  ou mesmo Sigurd (Siegfried).

Tolkien havia escrito a história de Os Filhos de Húrin muito tempo antes da ascensão de Hitler. Ele lembra que em sua juventude tinha um fascínio pela cultura germânica e nórdica, e que estudou a fundo o assunto e por isso sabia mais do que ninguém, como professor em Oxford dos absurdos que se faziam utilizando como pretexto essa cultura antiga:

Há muito mais força (e verdade) do que as pessoas ignorantes possam imaginar no ideal “germânico”. Fiquei muito atraído por ele quando era um estudante universitário (quando Hitler estava, creio eu, dedicando-se diletantemente à pintura e não tinha ouvido falar de tal coisa), em reação contra os “clássicos”. Você tem de compreender o bem nas coisas para detectar o verdadeiro mal. Mas ninguém nunca me chama para uma “transmissão” de rádio ou para fazer um pós-escrito! Mesmo assim, suponho que sei melhor do que a maioria das pessoas qual é a verdade sobre esse absurdo “nórdico”. (Carta 45, para Michael Tolkien 9 de junho de 1941).

Os primeiros textos sobre Os Filhos de Húrin remontam a um tempo anterior a década de 20 do século XX. Mas Tolkien temia a associação de sua obra por parte de jornalistas mal informados ou que agissem de má-fé e abandonou qualquer pretensão de publicação. Escreveu um pequeno resumo para que fosse então incorporado no seu livro O Silmarillion.

Imagem do Ragnarok, o fim do mumdo das lendas nórdicas

Imagem do Ragnarok, o fim do mumdo das lendas nórdicas

Somente após a morte de Tolkien é que esses manuscritos foram editados por seu filho e publicados em 1981 em Contos Inacabados e em 2007 como livro próprio chamado de Os Filhos de Húrin.

Sempre que alguém se referia a suas histórias como sendo influenciadas pela “Mitologia Nórdica” ele fazia questão de corrigir. Ele não gostava da palavra “Nórdica” para determinar a cultura da região noroeste da Europa, pois esta palavra estava associada a teorias racistas, das quais não desejava nenhum contato. Acreditava terem manchado a imagem da cultura europeia, especialmente com a ascensão de Adolf Hitler.

Nórdica não, por favor! Uma palavra pela qual pessoalmente tenho aversão; está associada, apesar de ser de origem francesa, com teorias racistas. Geograficamente Setentrional em geral é melhor. (Carta 294, para Charlotte e Denis Plimmer, 8 de fevereiro de 1967)

Fica demonstrado que até mesmo em uso das palavras Tolkien se preocupava por estarem associadas as teorias racistas e queria evitar qualquer associação de sua obra a isso.

De qualquer modo, tenho nesta Guerra um ardente ressentimento particular — que provavelmente faria de mim um soldado melhor aos 49 do que eu fui aos 22 — contra aquele maldito tampinha ignorante chamado Adolf Hitler (pois a coisa estranha sobre inspiração e ímpeto demoníacos é que eles de modo algum aumentam a estatura puramente intelectual: afetam mormente a simples vontade), que está arruinando, pervertendo, fazendo mau uso e tornando para sempre amaldiçoado aquele nobre espírito setentrional, uma contribuição suprema para a Europa, que eu sempre amei e tentei apresentar sob sua verdadeira luz. (Carta 45, para Michael Tolkien 9 de junho de 1941)

O que Hitler estava fazendo com a cultura (além de outras atrocidades) era algo imperdoável aos olhos de Tolkien. Pois as consequências poderiam manchar ou amaldiçoar para sempre aquele “nobre espírito setentrional”. Ou seja, toda vez que se pensasse em Nazismo, haveria uma associação aos mitos nórdicos e assim um certo afastamento ou má impressão.

A Sabedoria de Gandalf

Distante de seus filhos durante a Segunda Guerra Mundial. Tolkien enviava cartas para eles narrando os acontecimentos e tentando dar esperanças aos filhos que lutavam, em especial Christopher Tolkien, que estava ajudando seu pai no processo de escrita de o Senhor dos Anéis.

Em suas cartas Tolkien sempre se referia a Hitler com uma total repugnância. E se sentia incomodado com atitudes “hitleristas” feitas até mesmo entre pessoas de seu próprio país.

O Mago gandalf

O Mago gandalf

Quando a guerra já parecia estar chegando ao fim, um jornalista local escreveu um artigo demonstrando que a solução para a Segunda Guerra Mundial seria a eliminação total do povo Alemão. E aí vem a grande lição de Tolkien:

Mas é angustiante ver a imprensa se rebaixando a um nível tão baixo quanto o de Goebbels no seu auge, gritando que qualquer comandante alemão que se mantém firme em uma situação desesperadora (quando as necessidades militares de seu lado também beneficiam) é um beberrão e um fanático apatetado. Não consigo ver muita distinção entre nosso tom popular e os “idiotas militares” celebrados. Sabíamos que Hitler era um cafajestinho vulgar e ignorante, além de quaisquer outros defeitos (e das origens deles); mas parece haver muitos cafajestinhos v. e i. que não falam alemão e que, dada a mesma oportunidade, apresentariam a maioria das outras características hitlerianas. Houve um artigo no jornal local defendendo seriamente o extermínio sistemático de toda a nação alemã como o único curso apropriado após a vitória militar: porque, com sua licença, eles são cascavéis e não sabem a diferença entre o bem e o mal! (O que dizer do escritor?) Os alemães têm tanto direito de declarar os poloneses e judeus vermes sub-humanos extermináveis quanto nós temos de selecionar os alemães: em outras palavras, nenhum direito, seja lá o que tenham feito. (Carta 81, para Christopher Tolkien, 23-25 de setembro de 1944)

Nessa mesma Carta, vem um comentário interessante do Tolkien relacionando com sua obra O Senhor dos Anéis, que ainda estava sendo escrita:

Você não pode enfrentar o Inimigo com o Anel dele sem se tornar um inimigo; mas, infelizmente, a sabedoria de Gandalf parece ter passado com ele há muito tempo para o Verdadeiro Oeste. (Carta 81, para Christopher Tolkien, 23-25 de setembro de 1944).

Essa “sabedoria de Gandalf” mencionada provavelmente deve estar ligada ao trecho em que ele explica ao Frodo sobre o Bilbo ter poupado a vida de Gollum: “Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados”. (O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel).

Infelizmente, os Aliados não pareciam estar cientes dessa consciência moral de Tolkien. E no ano seguinte os E. U. A. detonou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki matando milhares de cidadãos japoneses e pondo um fim definitivo a Segunda Guerra Mundial.

Ao saber da notícia Tolkien ficou horrorizado com a capacidade da humanidade de fazer tal atrocidade:

A notícia hoje sobre “bombas atômicas” é tão aterradora que é de se atordoar. A estupidez absoluta desses físicos lunáticos de consentirem em realizar tal trabalho com propósitos de guerra, planejando calmamente a destruição do mundo! Tais explosivos nas mãos dos homens, na medida em que seu status moral e intelectual está declinando, é quase tão útil quanto dar armas de fogo para todos os internos de uma cadeia e então dizer que você espera que “isso garanta a paz”. (Carta 102, para Christopher Tolkien, 9 de agosto de 1945

O uso da Bomba Atômica é como se utilizasse o Um anel para lutar contra as forças de Sauron na mitologia de Tolkien. No sentido de que não se pode utilizar uma arma maligna para tentar atingir fins que talvez pudessem ser bons.

Ao longo de toda sua vida várias pessoas faziam justamente essa associação e acreditavam que Tolkien fazia uma alegoria da Segunda Guerra Mundial em suas histórias, em especial O Senhor dos Anéis. Essa comparação irritava muito a Tolkien, pois ele havia iniciado seus trabalhos muito antes do anuncio da guerra e em uma época que não existia a tal bomba.

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