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Tolkien e a Igreja Católica de seu tempo

Missa tridentina

Missa tridentina

by Eduardo Stark

O autor de O Senhor dos Anéis fez questão de não mencionar sua religião em nenhum dos seus livros publicados sobre o legendarium. Não há nada que indique sua fé nos prefácios ou em notas de rodapé de seus livros publicados durante sua vida. Isso porque ele não pretendia usar suas obras como forma de propagação religiosa. E nem mesmo pretendia apresentar uma teologia própria, pois se sentia incapaz para tanto, embora indiretamente tenha colocado algo nesse sentido.

Entre aqueles que conhecem a vida e obra de J.R.R. Tolkien não é novidade a informação de que ele foi um católico praticante e se dizia um “católico devoto” ou alguns o chamam de “Católico tradicional”. E pelo fato de ser alguém realmente seguidor de sua religião é que suas obras foram também vinculadas a esses preceitos em vários modos.

O relato de George Sayer, que conheceu pessoalmente Tolkien, traz uma certa noção de como o professor se comportava na sua religião, conforme o seguinte:

“Tolkien gostava de se confessar sempre depois de receber a comunhão. Não penso que fosse por causa dos pecados que ele tinha em sua consciência como algo que as pessoas levariam como algo sério. A verdade é que ele era o que os diretores espirituais chamam de “escrupuloso”, isto é, inclinado em exagerar o mal das indisciplinas e pensamentos errados que estavam na maioria de nós. Mas ele era acima de tudo um católico devoto e muito tradicional, do tipo que pensava ser o primeiro a se confessar. Essa era uma atitude do século passado (século XIX)” (George Sayer, Proceedings of the J. R. R.Tolkien Century Conference 1992).

Evidentemente que Tolkien é bastante querido pelos católicos. O próprio Papa Francisco leu as obras de O Hobbit e O Senhor dos Anéis e as mencionou em um de seus discursos na Argentina. O conhecido Padre Paulo Ricardo se considera um fã e tantos outros clérigos espalhados pelo mundo admiram as obras tolkienianas.

Mas qual sentido de fazer essas afirmações? Isso quer dizer que o autor de O senhor dos Anéis seguia fielmente tudo o que lhe era apresentado sobre a Igreja, sem nenhum questionamento? Ou que ele era um fanático religioso? Isso implica dizer que ele não tinha críticas quanto a Igreja Católica? Qual a visão de Tolkien sobre a Igreja católica e suas mudanças introduzidas com o Concilio Vaticano II? Esses questionamentos devem ser constantes, especialmente entre aqueles que também compartilham da mesma religião e que são fãs desse grande escritor.

Embora seja um católico dos mais fiéis, na verdade Tolkien se mostra um verdadeiro crítico da Igreja de seu tempo. Ele apontava os equívocos dos padres e questionava as mudanças que a Igreja estava sofrendo naquela época. Isso não significa que ele fosse um rebelde ou que fosse contra a Igreja, na verdade o gosto em excesso muitas vezes acaba levando a críticas para que se busquem melhorias. De fato, até mesmo os santos, em alguns momentos passaram por provações frente a própria Igreja de seu tempo.

Tolkien foi batizado na Igreja Anglicana em 1892, até que sua mãe, Mabel Tolkien, se converteu ao catolicismo em 1900, momento em que ele e seu irmão também aderiram. Mais tarde, a criação do autor do Hobbit foi legada ao Padre Francis Morgan, uma vez que Mabel falecera ainda jovem e seu marido já havia falecido anos antes.

Assim, Tolkien foi praticamente criado por um padre jesuíta no Reino Unido. Quando jovem auxiliava o Padre Francis nas missas e fazia muitas amizades com padres e religiosos católicos. A atmosfera da vida de Tolkien ao longo de sua vida foi, portanto, em um âmbito católico, embora tivesse amigos de diversas vertentes religiosas, até mesmo ateus como C.S. Lewis e outros.

Infelizmente muitas cartas de Tolkien ainda não chegaram ao público. Existem cartas que ele tratava apenas de suas ideias e questionamentos sobre a Igreja, muitas delas enviadas ao seu filho mais velho John Tolkien, que se tornara Padre Jesuíta. Talvez essas cartas não tenham sido publicadas por terem um caráter muito pessoal entre pai e filho e, portanto, não considerado pertinente ao grande público pelos editores do livro “As Cartas de J.R.R. Tolkien”.

O presente artigo tem o objetivo de apresentar as ideias de Tolkien sobre a Igreja Católica de seu tempo, mostrar trechos de algumas de suas cartas e ressaltar as questões sobre as mudanças litúrgicas. Certamente isso não está conectado diretamente com a sua obra, sendo uma análise de suas ideias e biografia, mas que pode ser interessante para os fãs entenderem a mentalidade religiosa desse grande escritor do século XX.

Padres desqualificados e a descrença de Tolkien

Aqueles que aderem a Igreja Católica Romana e são ingleses, sobretudo na Inglaterra (onde vivia o professor Tolkien) são considerados uma minoria religiosa. Isso porque prevalece a Igreja Anglicana desde o sua criação com o Rei Henrique VIII, no final do século XVI. Por serem minoria religiosa havia na época de Tolkien uma união mais intensa entre os membros católicos.

Assim, era frequente visitas de padres na casa da família Tolkien.Cartas eram enviadas com bastante assiduidade a sacerdotes que se tornavam amigos do autor de O Hobbit. Contudo, muitas vezes a presença de padres considerados incapacitados o levava a proximidade da descrença. Mas, mesmo diante disso, ele sempre pensava em manter a sua fé e aconselhar o seu filho Michael Tolkien a não abandonar a mesma.

Ao ler em jornais de sua época escândalos relacionados a Igreja, o professor Tolkien apresentava questionamentos sobre a instituição religiosa. Algo natural para qualquer pessoa que com frequência exerce uma autocrítica ou que analisa as circunstâncias. Sobre isso, o Tolkien escreveu o seguinte, em carta para o seu filho Michael Tolkien:

Quanto mais forte a tentação interna, mais fácil e severamente ficaremos “escandalizados” com os outros. Creio que sou tão sensível quanto você (ou qualquer outro cristão) aos “escândalos”, tanto do clero quanto da laicidade. Sofri dolorosamente em minha vida com padres estúpidos, cansados, apagados e até mesmo maus; mas agora sei o suficiente sobre mim para estar ciente de que não devo deixar a Igreja (que para mim significaria abandonar a lealdade ao Nosso Senhor). (Carta 250 Para Michael Tolkien, em 1 de novembro de 1963).

Mesmo diante das falhas humanas, o professor Tolkien ainda sentia que era dever permanecer na Igreja. Isso se deve ao fato de que ao invés de observar apenas os maus exemplos e se descontentar completamente, ele devia ter esperanças naqueles que exerciam o seu ministério de forma concreta. Em outra carta, Tolkien ressalta essa mesma ideia:

Conheci padres desleixados, estúpidos, descompromissados, convencidos, ignorantes, hipócritas, preguiçosos, ébrios, cruéis, cínicos, maus, ávidos, vulgares, esnobes e até mesmo (por palpite) imorais “no decorrer de minhas peregrinações”; porém, para mim, um Pe. Francis vale mais do que todos eles, e ele era um tory hispano-galês de classe alta, e para alguns parecia apenas um displicente velho esnobe e fofoqueiro. Ele era — e não era. Aprendi a caridade e o perdão pela primeira vez com ele; e a luz disso penetrou até mesmo na escuridão “liberal” de onde vim, sabendo mais sobre “Bloody Mary” do que sobre a Mãe de Jesus — que nunca era mencionada exceto como um objeto de adoração pecaminosa pelos romanistas. (Carta 267, para Michael Tolkien – 9-10 de janeiro de 1965).

Como a Inglaterra na época de Tolkien tinha em sua maioria pessoas vinculadas a Igreja Anglicana, que é uma vertente protestante da Igreja Católica, as críticas eram sempre constantes. Ele cita “Bloody Mary” que foi uma rainha inglesa católica que ao subir ao trono realizou perseguições aos anglicanos na tentativa de retomar a religião anterior, o que não se provou um sucesso, pois após a sua morte a Rainha Elisabeth II manteve a Igreja Anglicana.

Em síntese, diante de escândalos ou padres considerados ruins, o Tolkien não mais deixava abalar a sua fé. Ele desejava profundamente que a Igreja melhorasse e se espelhava naqueles sacerdotes e santos que lhe traziam inspiração para continuar na fé.

Padre Francis Morgan

Padre Francis Morgan

As mudanças da Igreja Católica após a Segunda Guerra Mundial

O professor Tolkien viveu um momento na história da humanidade de grandes mudanças. Não apenas em relação às duas grandes guerras mundiais, que ocasionaram a morte de milhões de pessoas, mas também as ideologias novas que surgiram naquela época. Com isso a Igreja Católica passou a ter uma nova tendência de que deveria haver mudanças na instituição.

Foi nessa ideia de renovação e de certo modo, reforma católica, é que em 11 de outubro de 1962, se iniciou o Concílio Vaticano II, convocado pelo o Papa João XXIII, para analisar a Igreja de sua época e apresentar uma resposta.

Tolkien pareceu preocupado com o que acontecia na Igreja. Ao comentar em Carta para o seu filho Michael Tolkien, em 1 de novembro de 1963, ele apresenta um certo desamparo e uma insegurança diante das mudanças:

“Tendências” na Igreja são….sérias, especialmente àqueles acostumados a encontrar consolo e “pax” em épocas de problemas temporais, e não apenas outra arena de conflitos e mudanças. Mas imagine a experiência daqueles nascidos (como eu) entre o Jubileu Dourado e o de Diamante de Vitória. Os sentimentos ou ideias de segurança foram progressivamente tirados de nós. Encontramo-nos agora confrontando nus a vontade de Deus, no que nos diz respeito e à nossa posição no Tempo (Vide Gandalf I 70 e III 1553). “De volta ao normal” — apuros políticos e cristãos —, tal como um professor católico certa vez me disse, quando lamentei o colapso de todo o meu mundo que se iniciou logo após eu completar 21. Bem sei que, para você como para mim, a Igreja, que antigamente parecia um refúgio, agora com frequência parece uma armadilha. Não há nenhum outro lugar para se ir! (Me pergunto se esse sentimento desesperado, o último estágio da lealdade que persiste, não foi, com ainda mais frequência do que de fato é registrado nos Evangelhos, sentido pelos seguidores de Nosso Senhor no período de Sua vida terrena.) Creio que não há nada a se fazer senão rezar, pela Igreja, o Vigário de Cristo, e por nós mesmos; e, enquanto isso, exercer a virtude da lealdade, que realmente só se torna uma virtude quando se está sob pressão para abandoná-la. (Carta 250, Para Michael Tolkien, em 1 de novembro de 1963).

A citação das falas em O Senhor dos Anéis, na figura de Gandalf, são as seguintes: “- Você foi escolhido, e portanto deve usar toda força, coração e esperteza que tiver.” Ou seja, diante de uma situação adversa, os dons que lhe foram dados devem ser utilizados e não escondidos. No sentido da Carta, quer dizer que ele foi escolhido para ser um católico e por isso não deveria negar sua fé diante. Pois, também citando Gandalf ele diz: “- Não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos.”.

O mundo que Tolkien viveu parecia inconstante desde sua juventude com o início da Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, a Segunda Guerra Mundial. Foram tempos de insegurança para todas as pessoas. Mas a Igreja sempre era o seu refugio diante de aflições cotidianas. Em suas confissões e conselhos colhidos dos padres e textos lidos ele adquiria inspiração e conforto.

Tudo mudou tão rápido em meio a guerras, mas a Igreja era a fonte de esperanças. Assim, para o Católico de sua época, o Concílio Vaticano II pareceu ser uma verdadeira ‘revolução’ na Igreja Católica. Iniciando novos pensamentos e atitudes que tradicionalmente não eram postos.

É natural que Tolkien sendo um estudioso do período medieval inglês, e também um apreciador de línguas antigas tivesse uma certa repulsa por mudanças. Ele era alguém muito apegado a tradições e manutenção dos costumes, decorrência de sua criação intensa como católico, pelo Padre Francis Morgan.

Ainda nessa mesma carta para seu filho Michael, o autor de O Hobbit acredita que até aquele momento a maior reforma da Igreja Católica era a realizada pelo Papa Pio X:

“Acredito que a maior reforma de nosso tempo foi aquela executada por S. Pio X; ultrapassando qualquer coisa, por mais necessária que seja, que o Concílio alcançará. Pergunto-me que estado da Igreja agora se não fosse por esta reforma”. (Carta 250, Para Michael Tolkien, em 1 de novembro de 1963).

Possivelmente a reforma mencionada, é uma referência à recomendação de Pio X para a comunhão diária e a comunhão das crianças. Importante ressaltar, que ao dizer isso, o Tolkien ainda não tinha dimensão do que viria a ser o Concílio Vaticano II, pois ele ainda estava em processo de conclusão e o conhecimento sobre ele ainda era vago.

Critica a busca moderna pelo retorno da Igreja Primitiva

Os primeiros quatrocentos anos do Cristianismo geralmente é conhecido como a Igreja Primitiva. Um momento em que a religião cristã parecia estar seguindo as ideias mais próximas dos apóstolos e seus seguidores. Foi nesse período que se estabeleceu as primeiras orações, ritos e a compilação dos manuscritos que formariam o novo testamento.

Havia uma ideia na época do Concilio Vaticano II que a Igreja deveria voltar a simplificar os seus ritos, em especial a missa e isso poderia favorecer na agregação de novos fiéis vindos de igrejas protestantes. Quanto a isso, Tolkien se opõe, comentando sobre o valor do cristianismo primitivo. Em Carta para seu filho Michael, em 11 de outubro de 1968, data de aniversário do Concilio Vaticano II, ele afirma o seguinte:

Há, é claro, vários elementos na atual situação que são confusos, embora na realidade distintos (como de fato no comportamento da juventude moderna, parte da qual é inspirada por motivos admiráveis tais como antiarregimentação e antimonotonia, uma espécie de saudade romântica dos “cavaleiros”, e que não está necessariamente aliada às drogas ou aos cultos de inércia e imundície). A busca “protestante” em direção ao passado pela “simplicidade” e retidão — a qual, é claro, apesar de conter alguns motivos bons ou pelo menos inteligíveis, é equivocada e de fato vã. Porque o “cristianismo primitivo” é agora e, apesar de toda “pesquisa”, sempre permanecerá amplamente desconhecido; pois “primitivismo” não é garantia de valor e é, e foi, em grande parte um reflexo da ignorância. Graves abusos eram um elemento do comportamento “litúrgico” cristão desde o início tanto quanto o são agora. (As críticas severas de S. Paulo sobre o comportamento eucarístico são suficientes para mostrar isso!) (Carta 306, para Michael Tolkien 11, de out 1968).

Tolkien era um estudioso que se aprofundava em questões históricas. Não apenas por ter relação com sua profissão, mas por questões relacionadas a sua crença. É por isso que sua rápida análise do cristianismo primitivo resume um vasto conhecimento sobre aquele período.

A simbologia da árvore para Tolkien sempre foi uma base de seus escritos e modo de pensar a vida. Em seu livro póstumo O Silmarillion, há uma relação dos primórdios do seu mundo imaginário com as duas árvores que transmitem luzes. Há ainda em O Senhor dos Anéis o símbolo da árvore na casa real de Gondor. E em seu livro Árvore e Folha existem várias referências quanto a árvore, sendo analisada de forma metafórica. Foi utilizando uma árvore como exemplo que o Tolkien conseguiu apresentar ideias ao C.S. Lewis, que o converteram do ateísmo para o cristianismo. E assim, Tolkien novamente realiza outro comparativo com a árvore. Dessa vez ele equipara a Igreja Católica como uma árvore:

Ainda mais porque a “minha igreja” não foi pretendida por Nosso Senhor para ser estática ou permanecer em perpétua infância, mas para ser um organismo vivo (semelhante a uma planta), que se desenvolve e muda o exterior pela interação de sua vida e história divinas legadas — as circunstâncias especiais do mundo no qual se encontra. Não há semelhança entre o “grão de mostarda” e a árvore adulta. Para aqueles que vivem nos dias do crescimento de seus galhos, a Árvore é a coisa, pois a história de uma coisa viva é parte de sua vida, e a história de uma coisa divina é sagrada. O sábio pode saber que ela começou com uma semente, mas é inútil tentar desenterrá-la, pois ela não mais existe, e a virtude e os poderes que a semente possuía residem agora na Árvore. Muito bom: mas no cultivo as autoridades, os guardiões da Arvore, devem cuidar dela, de acordo com a sabedoria que possuírem, podá-la, remover feridas, livrá-la de parasitas, e assim por diante. (Com temor, sabendo o quão pequeno é seu conhecimento do crescimento!) Mas eles certamente irão danificá-la caso sejam obcecados com o desejo de retornar à semente ou mesmo à juventude da planta quando esta era (como imaginam) bela e não era afligida por males. O outro motivo (agora tão confundido com o primitivista, mesmo na mente de qualquer um dos reformadores) – aggiornamento: atualizar; este possui seus próprios perigos graves, como tem sido aparente no decorrer da história. Com este também se confundiu o “ecumenismo”. (Carta 306, para Michael Tolkien, 11 de outubro de 1968).

É nesse sentido que ele também encara a Igreja Católica como se fosse um corpo vivo. Seria uma árvore cuja semente foi entregue por Jesus para o apóstolo Pedro e que ao ser plantada coube aos seus sucessores o papel de cuidar da árvore.

Então, Tolkien considera que o retorno a Igreja Primitiva seria como tentar fazer uma árvore frondosa voltar ao seu estágio inicial de semente. Para que esse processo ocorresse acarretaria muitos danos a árvore. Ou seja, a ideia da Igreja Católica pretender voltar a algo similar a Igreja Primitiva, com a simplificação de seus símbolos e ritos, seria algo tremendamente doloroso e até prejudicial ao corpo vivo.

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O fato da Igreja Católica estar mudando para se aproximar mais das Igrejas protestantes, não pareceu ser algo completamente ruim aos olhos de Tolkien, sobretudo o ecumenismo.

Vejo-me simpático àqueles desenvolvimentos que são estritamente “ecumênicos”, isto é, que dizem respeito a outros grupos ou igrejas que chamam a si próprios de (e com frequência o são verdadeiramente) “cristãos”. Temos orado incessantemente pela reunião cristã, mas é difícil ver, caso se reflita, como isso possivelmente poderia começar a acontecer, exceto como o tem sido, com todos os seus inevitáveis absurdos menores. Um aumento na “caridade” é um ganho enorme. Como cristãos, aqueles fiéis ao Vigário de Cristo devem pôr de lado os ressentimentos que sentem como simples humanos – ex: com a “petulância” de nossos novos amigos (esp. a I[greja] da I[nglaterra]). Agora frequentemente se recebe tapinhas nas costas como um representante de uma igreja que viu o erro de seus hábitos, abandonou sua arrogância e presunção e seu separatismo; mas ainda não conheci um “protestante” que mostre ou expresse qualquer realização das razões neste país para nossas atitudes, antigas e modernas: da tortura e expropriação até “Robinson” e tudo aquilo. Já foi mencionado alguma vez que os c[atólicos] r[omanos] ainda sofrem de deficiências sequer aplicáveis aos judeus? Como um homem cuja infância foi obscurecida pela perseguição, considero isso difícil. Mas a caridade deve abranger uma grande quantidade de pecados! Há perigos (é claro), mas um militante da Igreja não pode permitir-se trancar todos os soldados desta em uma fortaleza. Isso teve efeitos similarmente ruins na Linha Maginot. (Carta 306, para Michael Tolkien, 11 de outubro de 1968).

Para Tolkien a Igreja não deveria se fechar e se isolar, como em uma fortaleza sendo sitiada por inimigos. Deveriam haver também soldados disponíveis que pudessem sair de lá e lutar em campo aberto. O ecumenismo seria essa possibilidade de reconciliar e reunir a Igreja Cristã como ele entende que deveria ser. Nesse aspecto, Tolkien utiliza a expressão “militante da Igreja”, aquele que defende as ideias e que visa propagar aquela fé.

A missa em Latim e a reação de J.R.R. Tolkien com a missa nova

Em 14 de julho de 1570, o Papa Pio V publicou a Constituição Apostólica Quo primum tempore (em português: Desde o primeiro momento), como parte de uma reorganização da Igreja Católica para unificar os textos referenciais e procedimentos.Foi nesse documento que foi apresentada a Missa Romana, conhecida Missa Tridentina, que seria aplicada nas Igrejas da época de Tolkien ao longo de toda sua vida até a década de sessenta.

O documento não criou propriamente esse tipo de missa, na verdade ele codificou aquilo que era usual da Igreja Católica em seus procedimentos desde a época da Igreja Primitiva, com acréscimos de papas posteriores no início da Idade Média.

Nesse documento o Papa Pio V ressalta que todas as Igrejas deveriam adotar a missa regulada por ele: “6 – E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas (…).

O documento é bem objetivo e direto, ressaltando que não é permitido realizar outro tipo de missa, ou mesmo revogar aquela apresentada: “14 – Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição.  Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo.

Desde então o rito da chamada “Missa tridentina” foi utilizado na maioria das Igrejas Católicas do Ocidente. Predominava na missa o uso do Latim, o Padre se direcionava ao altar em reverência, e apenas na homilia havia a comunicação em língua da região.

Com o Concílio Vaticano II ocorreu uma mudança em relação ao uso do latim. Em seu documento Sacrosanctum Concilium, há o seguinte:

36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.

§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.

§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.

§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

O Concilio Vaticano II pareceu dar maior abertura a possibilidade de uso da língua local na realização das missas. Foi assim que grande parte dos Bispos passaram a abandonar o uso do latim e isso trouxe a ideia de que a missa antiga estava proibida pela Igreja e que apenas a nova missa, agora com rito codificado pelo Papa Paulo VI, seria a permitida.

A reação de Tolkien quanto a missa em Inglês e não mais em Latim foi relatada por seu neto Simon Tolkien, que acompanhou o professor de  Oxford em missas no final de sua vida:

Eu me recordo vividamente ir à igreja com ele [Tolkien] em Bournemouth. Ele era um católico romano devoto e logo após a Igreja ter mudado a liturgia do latim para o inglês. Meu avô, obviamente, não concordou com isso e fazia todas as respostas muito alto em latim enquanto o restante da congregação respondia em inglês. Eu achei toda a experiência bastante excruciante, mas meu avô era oblivious. Ele simplesmente tinha que fazer o que acreditava estar certo. Ele herdou sua religião de sua mãe, que foi ostracizada por sua família depois de sua conversão e depois morreu na pobreza, quando meu avô tinha apenas 12 anos. Eu sei que ele desempenhou um papel importante na decisão de me enviar para a Downside, uma escola católica romana em Somerset. (Tolkien, Simon (23 de Fevereiro de 2003). “My Grandfather”.The Mail on Sunday).

O fato de Tolkien ser um estudioso das línguas contribuiu para esse repúdio ao uso do Inglês na missa. Mas mesmo tendo uma missa nova, ele ainda frequentava todos os domingos, como um bom católico deve fazer.

Ele apresenta os problemas das missas de sua época e isso certamente o incomodava. Havia uma falta de disciplina entre as pessoas que iam a missa. Presenciava cenas que o desanimava e preocupava. Mas ele chega a aconselhar o seu filho a frequentar essas missas, mesmo diante de adversidades.

Recomendo também isto como um exercício (infelizmente muito fácil de se encontrar a oportunidade para tal): faça sua comunhão em circunstâncias que afrontem seu gosto. Escolha um padre fanho ou gago ou um frade orgulhoso e vulgar; e uma igreja repleta da usual multidão burguesa, com crianças malcomportadas — daquelas que gritam àqueles produtos de escolas católicas que no momento em que o tabernáculo é aberto recostam-se e bocejam —, jovens sem gravata e sujos, mulheres de calças e freqüentemente com o cabelo despenteado e descoberto. Vá à Comunhão com eles (e reze por eles). Será exatamente (ou melhor) como uma missa conduzida por um homem visivelmente santo e compartilhada por algumas pessoas devotas e decorosas. (Não poderia ser pior do que a bagunça da alimentação dos Cinco Mil — após a qual [Nosso] Senhor propôs a alimentação que estava por vir.) (Carta 250, Para Michael Tolkien, 1 de novembro de 1963)

Nesse sentido, um sacrifício de ir a uma missa considerada prejudicada por ele e tentar de certa forma resistir a absurdos expostos é algo que pode ser um exercício de fé. Segundo ele, seria algo semelhante ao momento em que Jesus compartilha o pão com uma grande multidão. Onde se pode ver todo tipo de comportamento em milhares de pessoas reunidas, e mesmo assim, se manter digno de ter a comunhão.

Existe uma resistência as mudanças por parte de Tolkien, mas essa é realizada de forma interna e individual. Mesmo com a discordância do que se realizou, ele ainda se manteve fiel a Igreja Católica.

É interessante ver a opinião de Joseph Campbell, renomado estudioso de mitologias e religiões, que apresenta comentário sobre a mudança no rito da Igreja Católica. Segundo ele, aconteceu uma grande perda das transcendências após a segunda guerra mundial e isso trouxe repercussões negativas para a humanidade. Nesse ponto de critica a mudança na Igreja se assemelha a Tolkien:

Faltando a essa simples orientação, a Igreja Católica Romana, por exemplo, traduziu sua liturgia latina para línguas locais, com isso diluindo ou removendo seu mistério essencial. Quando os católicos assistem à missa em latim, o sacerdote se dirige ao infinito numa língua que não tem associações domésticas; as pessoas que assistem são, assim, elevadas à transcendência.Mas quando a liturgia é recitada na língua local de uma pessoa e a posição do altar é invertida, o sacerdote se assemelha menos a um intermediário do mistério do que a Julia Child, a cozinheira da televisão. A própria possibilidade de experiência transcendente é destruída. Uma pessoa pode experimentar um sentimento agradável e confortável, mas alcançá-lo não é difícil e as pessoas não vão à igreja simplesmente para experimentar esse tipo de sentimento. Os símbolos religiosos foram, portanto, submetidos a um curto circuito por esse processo que as autoridades da Igreja equivocadamente julgaram um progresso. Isto constitui um exemplo do principal problema religioso da atualidade: os símbolos são cronicamente mal interpretados. As metáforas, as estruturas essenciais da linguagem religiosa, como observamos antes e lembraremos mais uma vez, são interpretadas do ponto de vista dos seus referentes concretos, ou denotativos, e o resultado é um povo ser arremessado contra um outro, quando na verdade o sentido íntegro da metáfora é transcender a separação e a dualidade. Quando o clero falha na sua tarefa primeira de entender os símbolos dos quais ele é o guardião, é-se forçado a considerar que só restam os artistas para nos realizar essa exploração espiritual. (Joseph Campbell, Isto és tu redimensionando a metáfora religiosa, Landy editora, 2002)

Joseph Campbell foi contemporâneo de Tolkien, muito embora os autores não tenham se influenciado mutuamente, parecem ter uma ideia semelhante quanto a perca da simbologia cristã com a nova missa. Contudo, Campbell teve uma formação católica, mas boa parte de sua vida não seguia os preceitos dessa Igreja.

As repercussões do Concilio Vaticano II e a nova missa foram causa para divisão na Igreja. Alguns católicos se separaram da comunhão com a Igreja, pois não acreditavam na validade desse concílio e não aceitaram a nova missa. Segundo os separatistas, a missa antiga sempre foi realizada na Igreja e não poderia ser abandonada ou relativizada, observando as palavras do papa Pio V que aquela missa deveria ser feita para sempre.

concilio vaticano IIFoi diante dessa nova divisão da Igreja Católica entre os apoiadores do concilio e aqueles que não apoiavam, que o Papa Paulo VI comentou uma certa preocupação quanto as consequências. Parece haver um certo arrependimento do Papa Paulo VI, que foi um principal articulador da nova missa:

Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz […] Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso? Confiamo-vos um Nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo” (Papa Paulo VI. Discurso em 29 de Junho de 1972). (Link fonte AQUI)

Após o Concilio Vaticano II, a missa tridentina passou a ser quase uma raridade entre os próprios católicos, mesmo não tendo sido proibida expressamente. Aqueles padres que realizavam essa liturgia eram considerados como retrógrados ou que pretendiam se separar da Igreja.

Diante disso, o então cardeal Joseph Ratzinger, que posteriormente se tornou o papa Bento XVI, mesmo tendo sido um dos principais articuladores do Concilio Vaticano II, assim como o próprio Papa Paulo VI, se mostra preocupado com a manutenção da missa antiga e a decadência com a missa nova. Assim, afirmou em um de seus livros o seguinte:

“Para promover uma verdadeira consciência em matérias litúrgicas, é também muito importante que a proibição contra a forma da liturgia em uso válido até 1970 (a antiga Missa em Latim) seja levantada. Qualquer pessoa que hoje em dia defenda a existência contínua desta liturgia ou que participe nela é tratada como um leproso; toda a tolerância acaba aqui. Nunca houve nada como isto na história; ao fazer isto estamos a desprezar e a proibir o passado inteiro da Igreja. Como é que uma pessoa pode confiar nela no presente se as coisas são assim?” (Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia, 2000)

A nova missa trouxe mais preocupações para a cúpula da Igreja. Os padres passaram a cometer abusos litúrgicos, vendo a liberdade que a nova missa trazia a quem celebrasse. Aconteciam (e acontecem ainda) missas em que o padre, por exemplo se fantasia de forma não apropriada (com roupa de palhaço, roupa de fantasia, com maquiagem feminina etc) e entrega a comunhão nessa condição, ou missas com figuras estranhas ao cristianismo (a figura do Buda no lugar de cristo no altar, por exemplo) e intervenções que não são apropriadas ao rito.

O canto gregoriano, que elevava e edificava a Igreja a uma ideia de divindade, fora substituída por jovens com instrumentos de rock (bateria, guitarra e eletrônicos). O silêncio na missa, que evocava a santidade e o comando do próprio Jesus pelo silêncio em orações, passou a ter uma forma mais ativa e levantamento de vozes entre os católicos a semelhança dos protestantes.

Diante disso, em 2007, o cardeal Joseph Ratzinger, agora já Papa Bento XVI regulamentou a possibilidade do uso da liturgia tridentina no motu proprio Summorum Pontificum. Passou a ser reafirmado que as missas antes da reforma poderiam ser livremente realizadas em missas privadas celebradas sem o povo, e os padres da Igreja latina podem usar livremente a liturgia tridentina na forma que tinha em 1962. E a principal mudança foi a possibilidade de também poder ser usada publicamente em paróquias, se houver um grupo estável de fiéis que a assista.

Após a edição desse documento do Papa Bento XVI ocorreu uma verdadeira explosão silenciosa de católicos que procuraram participar das missas tridentinas. Especialmente nos Estados Unidos da América, quase dois mil padres celebram missas tridentinas e mantém um público fiel e o número cresce a cada momento. A maioria dos católicos que vão a esse tipo de missa antiga são jovens que buscam se aprofundar mais nas tradições e que buscam um sentimento de maior segurança na Igreja.

No Brasil o fenômeno parece ser mais lento, porém ainda é considerado crescente por todo o país. Quase todos os Estados possuem alguma cidade com a missa nesse rito antigo (veja as cidades listadas AQUI).

Com a abdicação do Papa Bento XVI e a chegada do Papa Francisco, muito se perguntou se a missa tridentina seria proibida ou se seria reduzido o seu valor. Contudo, Francisco a manteve e não revogou o documento que permite essa missa.

No oratório de Birmingham, onde Tolkien passou boa parte de sua juventude auxiliando o Padre Francis nas missas ocorrem atualmente as missas tridentinas, como pode ser assistido na integra AQUI.

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3 comentários

  1. Gustavo /

    Excelente artigo. Deus o recompense.

  2. Diego Klautau /

    Excelente artigo. Obrigado pelos textos sempre feitos com muito cuidado e esmero, acompanho sempre.

    • Eduardo Stark /

      Obrigado meu caro. Estamos sempre fazendo análises tolkienianas. Abraço.

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