Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

A opinião de J.R.R. Tolkien sobre adaptações de seus livros

 

by Eduardo Stark

Desde o sucesso dos filmes do Senhor dos Anéis dirigidos por Peter Jackson, muitas pessoas se perguntam sobre o que Tolkien teria pensado sobre as adaptações de suas obras para o cinema. Com o lançamento dos três filmes do Hobbit essa pergunta voltou a ser realizada entre os fãs.

Evidente que Tolkien não está vivo e não pode dar sua opinião a respeito. O professor faleceu em 2 de Setembro de 1973, deixando o seu legado literário aos cuidados de seu filho Christopher Tolkien.

Mas talvez a opinião de alguém que viveu mais próximo do professor possa ser uma indicação do que ele poderia pensar. O filho do professor, o Christopher Tolkien, se opõe com veemência a qualquer forma de adaptação das obras de seu pai. Claro que a opinião do filho não seria a mesma que a do pai, por serem pessoas diferentes. Mas Christopher Tolkien conviveu o suficiente com o seu pai para entender o que ele pensava sobre adaptações de suas obras.

Christopher Tolkien é considerado o maior especialista sobre as obras de Tolkien. Não apenas por ter editado e publicado vários livros do seu pai (em especial os 12 livros da série História da Terra Média, O Silmarillion, Contos Inacabados, Os Filhos de Húrin etc), mas também por ter feito parte do processo de elaboração das principais obras. Christopher Tolkien atuou como revisor em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, sendo peça chave na formação dessas obras como conhecemos atualmente.

Logo que os primeiros rumores sobre a produção dos filmes de O Senhor dos Anéis surgiram, os filhos de Tolkien foram procurados para que participassem de alguma forma, mas recusaram aos vários pedidos. A família Tolkien não desejava ter nenhuma participação com a produção dos filmes.

Em 2001, na época do lançamento do primeiro filme do Senhor dos Anéis, Christopher Tolkien declarou: “Minhas opinião é que O Senhor dos Anéis é peculiarmente insuscetível de transformação em uma forma visual dramática”.

Especificamente sobre os filmes de Jackson, em entrevista dada ao Le Monde em 2012, Christopher Tolkien diz que “A comercialização reduziu a estética e o impacto filosófico da criação a nada”. E ainda que “Eles evisceraram o livro transformando-o em um filme de ação para jovens de 15 a 25 anos”.

Sustentando essa posição é que Christopher Tolkien, como representante da Tolkien Estate, não pretende vender os direitos para realização de outras adaptações dos livros de Tolkien, em especial o tão cobiçado O Silmarillion.

Christopher Tolkien, herdeiro literário de J.R.R. Tolkien

Christopher Tolkien, herdeiro literário de J.R.R. Tolkien

Mas, então o professor Tolkien teria essa mesma posição em relação aos filmes de Peter Jackson? Isso é impossível saber já que ele não está mais vivo. Mas pode-se pelo menos analisar o que o professor pensava em relação a adaptações de suas obras de um modo geral, o que por extensão enquadraria também os filmes de Peter Jackson.

Logo após a publicação do Senhor dos Anéis em 1954-55, os primeiros produtores e diretores procuraram Tolkien com a finalidade de adquirir direitos para realizar adaptações de suas obras para o teatro, radio e cinema. Assim, existe uma grande quantidade de registros das opiniões de Tolkien a respeito dessas adaptações e do próprio ato de adaptar suas obras para várias mídias.

Para apresentar a opinião de Tolkien a respeito de adaptações fizemos uma pesquisa intensa em várias de suas cartas, entrevistas, livros e documentos relacionados. Isso tornou o artigo um pouco longo, porém com detalhes suficientes para não deixar muitas lacunas sobre o assunto. As citações do Tolkien sobre o tema estão em ordem cronológica, o que facilita verificar como Tolkien mudou de opinião em alguns pontos e manteve em outros ao longo do tempo.

 

O Drama e a fantasia

 

Antes mesmo de ter um sucesso considerável com os livros do Hobbit e O Senhor dos Anéis, Tolkien tinha uma opinião formada sobre a relação da literatura e drama. Em seu ensaio “Sobre Contos de Fadas” (On Fairy-Stories), apresentado como palestra pela primeira vez em 1938, o professor Tolkien apresenta argumentos de que a fantasia deve ser legada a literatura e que o Drama seria diferente da literatura. Tolkien demonstra que o Drama tem uma natureza hostil à Fantasia.

Durante o ensaio são apresentados os argumentos completos sobre o tema, destacamos apenas alguns trechos que mostram a opinião de Tolkien:

Na arte humana a Fantasia é algo que é melhor incumbir às palavras, à verdadeira literatura. Na pintura, por exemplo, a apresentação visível da imagem fantástica é tecnicamente fácil demais; a mão tende a suplantar a mente, até mesmo a derrubá-la. Frequentemente o resultado é tolo ou mórbido. É um infortúnio que o Drama, uma arte fundamentalmente diversa da Literatura, seja tão comumente considerado junto com ela, ou como ramo dela. Entre esses infortúnios podemos contar a depreciação da Fantasia. Pois essa depreciação, pelo menos em parte, deve-se ao desejo natural dos críticos de exaltar as formas de literatura ou “imaginação” que eles próprios preferem, de modo inato ou por treinamento. E a crítica, num país que produziu tão importante Drama e tem as obras de William Shakespeare, tende a ser demasiado dramática. Mas o Drama é naturalmente hostil à Fantasia. A Fantasia, mesmo do tipo mais simples, dificilmente tem êxito no Drama, quando ele é apresentado como deve ser, atuado de modo visível e audível. As formas fantásticas não podem ser simuladas. Homens vestidos de animais falantes podem redundar em bufonaria ou arremedo, mas não alcançam a Fantasia. Penso que isso é bem ilustrado pelo fracasso da forma bastarda, a pantomima.

 

No mesmo ensaio, Tolkien afirma que se tomar como base o Drama à literatura para se realizar uma análise, o interprete estará sujeito a compreender mal a “pura criação de histórias”:

o Drama, apesar de usar material semelhante (palavras, versos, enredo), é uma arte fundamentalmente diferente da arte narrativa. Assim, se preferirmos o Drama à Literatura (como claramente preferem muitos críticos literários), ou formarmos nossas teorias críticas primordialmente a partir de críticas de teatro, ou mesmo a partir do Drama, estaremos sujeitos a compreender mal a pura criação de histórias e a restringi-la às limitações das peças de teatro. Por exemplo, provavelmente preferiremos os personagens, mesmo os mais ordinários e obtusos, aos objetos. Muito pouca coisa a respeito de árvores como árvores pode ser introduzida numa peça.

O professor não tratava evidentemente sobre filmes, até por que naquela época ele não imaginava o tremendo sucesso que O Senhor dos Anéis iria causar. Porém, sua análise sobre a relação do Drama e a literatura fantástica se adéqua perfeitamente a filmes e outras formas de adaptação de suas obras.

Ao longo de toda sua vida Tolkien manteve essa mesma posição. De que o Drama não corresponde a arte narrativa e que uma adaptação jamais conseguiria transmitir o real sentido da fantasia.

return of the king

 

A primeira adaptação do Senhor dos Anéis na Radio BBC

 

 

Em Janeiro de 1955, um ano após a publicação de O Retorno do Rei, o produtor Terence Tiller entrou em contato com Tolkien para pedir permissão para uma adaptação na Radio BBC.

Tolkien inicialmente não aceitou a proposta, porém gostaria de ter mais detalhes do que o produtor pretendia e se possível copias do roteiro. Terence Tiller prometeu a Tolkien que os diálogos originais seriam mantidos, com uma narração entre elas para interliga-las, porém não haveria espaço para colocar as músicas.

Nesses termos Tolkien aceitou a proposta, não por que desejava por completo essa adaptação, mas por que a editora Allen & Unwin acreditava que essa adaptação seria interessante para vender mais os livros, seria uma forma de publicidade.

O produtor enviou cópia de alguns episódios para Tolkien, que apresentou seus comentários, especialmente sobre as pronuncias, sotaques e formas de falar dos personagens.

Tolkien a respeito desse roteiro disse “o que muito me interessou lendo seu roteiro foi o fato de que a inevitável redução da história de fundo e dos detalhes reduziu a coisa toda, tornando muito mais um ‘conto de fadas’ em um sentido ordinário”.

Apesar do esforço para corrigir aquilo que não lhe agradava no roteiro, algumas coisas passaram despercebidas e foram lançadas na radio. Tolkien achou a voz do Bilbo velha e chata e ficou insatisfeito com o fato de que Goldberry (Frutad’ouro) foi colocada como a filha de Tom Bombadil e que o Salgueiro foi colocado como um aliado de Mordor.Em carta para Molly Waldron, em 30 de Novembro de 1955, Tolkien apresentou claramente sua opinião a respeito da adaptação da BBC:

Acho que o livro é bastante inapropriado para “dramatização”, e não gostei das transmissões — apesar de terem melhorado. Achei Tom Bombadil terrível — mas ainda piores foram as observações preliminares do locutor de que Fruta d’Ouro era filha dele (!) e de que o Salgueiro-homem era um aliado de Mordor (!!). As pessoas não conseguem imaginar coisas que sejam hostis a homens e hobbits que caem sobre eles sem estarem aliadas com o Diabo! (Carta 175)

Foi com a experiência da adaptação da Radio BBC que Tolkien começou a se posicionar de forma contrária a adaptação de sua obra. Vendo o quanto era complicado ter que reduzir para uma mídia mais simples algo que era naturalmente complexo.

A adaptação teve uma relativa repercussão e foi discutida no programa “The Critics” da Radio BBC. Porém, os críticos desse programa admitiram não ter lido O Senhor dos Anéis e tomaram como base o que escutaram na adaptação como sendo a obra de Tolkien, para a tristeza do próprio professor que percebia o quanto a adaptação era diferente do livro.

Até então, apenas A Sociedade do Anel tinha sido adaptada na Radio BBC. Terence Tiller decidiu colocar As Duas Torres e O Retorno do Rei em conjunto por falta de tempo e enviou o roteiro para análise de Tolkien. Em resposta Tolkien disse que talvez fosse melhor recusar se não tiver espaço suficiente:

Aqui está um livro muito inadequado para uma representação dramática ou semidramática. Se for tentado necessitará de mais espaço, muito espaço. É completamente impossível encaixar os dois livros no tempo designado — quer seja o objetivo proporcionar algo em si mesmo interessante na mídia, quer para indicar a natureza do original (ou ambos). Por que não então recusá-lo como inadequado, se não há mais espaço disponível? (Carta 194)

De fato, Tolkien até sugere que certas partes dos livros poderiam ser lidas no programa, como uma forma de agradar os ouvintes e até ele mesmo. Demonstrando o quanto o autor era apegado aos seus escritos:

Não posso deixar de pensar que passagens reais mais longas lidas, como um colar sobre uma linha de narração (na qual o narrador poderia ocasionalmente arriscar uma interpretação de mais do que meros eventos de enredo) provar-se-iam, ou poderiam provar-se, tanto mais interessantes aos ouvintes como mais justas ao autor. (Carta 194)

E por último Tolkien deixa claro que sua história não foi feita para dramatização. E lança a pergunta final para o Terence Tiller:

Pergunta final: pode uma história não-concebida dramaticamente mas sim epicamente (por falta de um termo mais preciso) ser dramatizada — a não ser que ao dramatizador sejam dadas ou que tome liberdades como uma pessoa independente? Tenho a sensação de que o senhor tem uma tarefa muito difícil. (Carta 194)

Em resumo, Tolkien acreditava que sua obra não foi criada para ser dramatizada, pois foi escrita em estilo do épico. Além do fato de que se resumida demais poderia comprometer a natureza do original. Ele se preocupava com a fidelidade do roteiro em relação ao livro, chegando até mesmo a sugerir que partes do livro fossem lidas no programa da radio. Além disso, para ele deveria existir muito espaço na mídia para que fosse narrada toda a história de uma forma mais adequada.

Tolkien em 1958

Tolkien em 1958

A vulgarização da obra e a idiotização

Mesmo mantendo uma posição contrária a adaptação que pudesse alterar muito a história, Tolkien ainda parecia aberto a sua realização. Em 1957, um cineasta norte americano havia enviado uma carta questionando se seria possível fazer um filme animado de O Senhor dos Anéis. Tolkien respondeu o seguinte:

No que me diz respeito pessoalmente, poderia considerar bem vinda a ideia de um filme animado, com todo o risco de vulgarização; e isso independente do brilho do dinheiro, embora à beira da aposentadoria essa não seja uma possibilidade desagradável. Penso que poderia achar a vulgarização menos dolorosa do que a idiotização alcançada pela B.B.C. (Carta 198).

Então, basicamente as duas palavras utilizadas “vulgarização” e “idiotização”, trazem o entendimento de que ele não se importaria se O Senhor dos Anéis fosse simplificado para que um grande público pudesse entender melhor a história em um filme. Até por que isso seria um processo natural para a adaptação. Porém, alterar a obra a ponto de torna-la tão simplificada e pobre demais em seu enredo seria algo condenável. Por isso, simplificar a obra para um filme seria “menos doloroso” do que alterar a obra no conteúdo tal como fez o programa da radio BBC.

A política do “Dinheiro ou Glória”

Em Setembro de 1957 Tolkien recebeu a visita de produtores de uma empresa que estavam interessados em fazer uma versão animada do Senhor dos Anéis. Eles entregaram uma cópia do resumo do roteiro para Tolkien, que posteriormente encaminhou carta ao seu editor com o seguinte comentário:

Um resumo por seleção com algum trabalho de imagens seria agradável e talvez merecedor de uma boa publicidade; mas o presente roteiro é mais uma condensação com aglomeração e confusão resultantes, indistinção de clímax e degradação geral: um recuo em direção aos “contos de fadas” mais convencionais. Pessoas montam em Águias a menor provocação; Lórien torna-se um castelo de fadas com “delicados minaretes” e todo esse tipo de coisa. Porém, estou bem preparado para cooperar, se eles estiverem abertos a conselhos — e se você decidir que a coisa é genuína e que vale a pena. (Carta 201).

Tolkien dá novamente atenção as mudanças de roteiro que não fazem sentido para a obra. Mas ele se demonstra disponível para aconselhar o roteirista a mudar certas partes.

Outros produtores procuraram Tolkien para pedir autorização para adaptar o Senhor dos Anéis em versão animada. Assim, entrando em acordo com Stanley Unwin, foi decidido que teriam que buscar a vantagem financeira e a publicidade que os filmes poderiam gerar, porém deveria ficar ressalvado o direito do autor vetar qualquer grande alteração que fosse absurda. O próprio Tolkien chamou esse acordo de ‘política da Arte ou Dinheiro’.

Sobre esse momento da vida do professor Tolkien, Humphrey Carpenter escreveu na biografia oficial:

A esta altura estava claro que O Senhor dos Anéis era uma espécie de “domínio quente” internacional. Stanley Unwin alertou Tolkien para o fato de que logo chegariam ofertas pelos direitos de filmagem, e os dois concordaram na seguinte política: aceitariam um “tratamento” respeitável do livro, ou então muito dinheiro. Como Sir Stanley o expressou, era uma escolha entre “dinheiro ou glória. (J.R.R. Tolkien uma biografia, Humphrey Carpenter)

Era uma necessidade da editora ter essa publicidade que poderia gerar a venda de mais livros e o próprio Stanley Unwin tratou de convencer Tolkien de que seria uma boa ideia negociar os direitos. Naquela época Tolkien ainda não tinha se aposentado e precisava de dinheiro certamente.

O roteiro de Zimmerman

As negociações para a produção de uma versão animada estavam se adiantando, e Tolkien havia recebido o roteiro escrito por Morton Grady Zimmerrnan. Em 8 de abril de 1958, Tolkien escreveu para Rayner Unwin a respeito do roteiro.

Devo dizer que Zimmerman, o construtor dessa trama, é deveras incapaz de extrair ou adaptar as “palavras faladas” do livro. Ele é apressado, insensível e impertinente.

Ele não lê livros. Parece-me evidente que ele folheou o S. A. apressadamente e então construiu sua trama a partir de lembranças parcialmente confusas e com o mínimo de referências ao original. Desse modo, ele erra na forma da maioria dos nomes — não ocasionalmente por um erro casual, mas de maneira fixa (sempre Borimor ao invés de Boromir); ou aplica-os erroneamente: Radagast torna-se uma Águia. A introdução dos personagens e as indicações do que devem dizer possuem pouca ou nenhuma referência ao livro. Bombadil surge com “uma risada suave”!…. Não estou nem um pouco feliz com a tolice e incompetência extremas de Z e sua completa falta de respeito pelo original (parece estar deliberadamente errado sem quaisquer razões técnicas discerníveis em quase todos os pontos). (Carta 207).

Nessa mesma carta, mesmo estando furioso com o roteiro, Tolkien demonstra a necessidade de dinheiro e isso faz com que tenha que suportar a raiva de um roteiro tão mal elaborado. Como ele mesmo escreve no final da carta:

Porém necessito, e em breve realmente necessitarei muito, de dinheiro, e estou ciente de seus direitos e interesses; de maneira que me empenharei em me conter e em evitar qualquer ofensa evitável. (Carta 207).

Assim, mesmo não gostando do roteiro, Tolkien pretendia colaborar para a realização da adaptação por precisar de dinheiro na época. Ele então sugeriu que tivesse uma “revisão do roteiro, com o objetivo de remover as divergências em relação ao livro que fossem mais irresponsáveis”.

Em mais uma de suas cartas, em 1958 Tolkien escreve novamente sobre o roteiro de Zimmerman, que parecia insistir em fazer o filme, embora com muitos erros apontados pelo autor:

Caso Z e/ou outros o façam, eles podem ficar irritados ou magoados com o tom de muitas de minhas críticas. Se assim o for, lamento (embora não me surpreenda). Porém, eu lhes pediria que fizessem um esforço de imaginação suficiente para compreender a irritação (e de vez em quando o ressentimento) de um autor que descobre, progressivamente conforme prossegue, sua obra tratada descuidadamente no geral, em certos lugares imprudentemente e sem quaisquer sinais evidentes de qualquer apreciação sobre do que ela se trata….. (Carta 210)

Tolkien demonstra que mesmo sendo feito o filme, ele iria manter sua posição contrária e seria um critico severo. Evidentemente que a posição de um escritor sobre a adaptação de seu livro tem um certo peso e isso poderia no mínimo irritar os produtores, mas Tolkien pede que eles compreendam sua situação de escritor vendo sua obra ser descuidada. Nessa mesma carta, Tolkien sintetiza bem o seu pensamento:

Os cânones da arte narrativa em qualquer mídia não podem ser completamente diferentes; e o fracasso de filmes ruins com frequência está precisamente no exagero e na intrusão de material injustificado que se deve a não-percepção de onde o núcleo do original se situa. (Carta 210)

Assim, Tolkien entende que a história contada em qualquer adaptação não pode ser totalmente diferente do que está nos livros. Ele toma como base a própria experiência e gosto pessoal dele com relação a outros filmes que considera ruins por não respeitarem o centro das histórias originais.

O Hobbit dirigido por Peter Jackson

O Hobbit dirigido por Peter Jackson

As respostas de cartas de fãs

Em 1960, um fanzine de fãs chamado TRIODE, publicou um artigo sobre a possibilidade de O Senhor dos Anéis se tornar um filme. O editor do periódico enviou exemplares para Tolkien, que em retribuição enviou uma carta com sua opinião a respeito do tema:

Estão sendo feitas sérias negociações a respeito disso, mas minha experiência com roteiros e enredos tem me alertado que somente uma recompensa financeira irresistível poderia possivelmente compensar um escritor pelos horrores da conversão de seu conto em filme. Mesmo quando a parte pictórica ficar muito boa. Felizmente, meus editores e eu possuímos a proteção legal nesse assunto e nada pode ser feito sem nossa aprovação em detalhes (Triode nº 18).

Novamente Tolkien expressa que não tem apresso por uma dramatização de sua obra. Em carta para Carole Ward,datada em 10 de agosto de 1964, Tolkien escreveu o seguinte:

Estou muito contente de saber do seu grande gosto por meu livro. Quanto à televisão, no entanto, sou pessoalmente avesso a dramatizações da minha obra, especialmente O Senhor dos Anéis, que é muito longo para reprodução sem graves cortes e edição; na minha opinião destrutivos, ou na melhor das hipóteses gravemente prejudiciais para uma história complicada, mas estreitamente tecida. Mas em tais assuntos devem ser considerados os interesses dos meus editores. Eles são em todos os casos primeiramente preocupados em todas as questões de reprodução por qualquer processo (vide aviso de direitos autorais).  (The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: I. Chronology, p. 621)

Em 9 de Dezembro de 1965, Tolkien respondeu a uma carta de Miss Jaworski dizendo que não estava interessado em drama e não queria que seu trabalho fosse dramatizado.E no mesmo dia respondeu a carta de Jane Dizon de Ohio, e assumiu que nem ele e nem seus editores tinham qualquer intenção de permitir que Walt Disney fizesse um filme de suas obras.

Na entrevista dada por Tolkien ao The Daily Telegraph Magazine, o jornalista descreve o momento e como Tolkien era assediado constantemente a respeito dos direitos para adaptações. Mas interessante é que muitos fãs daquela época não gostariam de ver o livro adaptado, da mesma forma que o autor:

Tolkien recebe inúmeras ofertas por direitos de filmes, comédias musicais, TV e apresentação de fantoches. Uma empresa de quebra-cabeça pediu permissão para produzir um quebra-cabeça dos Anéis, um fazedor de esculturas em sabão dos personagens. Os adoradores de Tolkien estão indignados com essas abordagens crassas. “Por favor”, escreveu uma menina de 17 anos de idade “não deixem fazer um filme sobre os Anéis. Seria como colocar a Disneylandia no Grand Canyon.” (The Daily Telegraph Magazine 1966).

De forma clara e enfática o artigo mostra a oposição do professor contra adaptações de sua obra:

De forma intensa ele sente que o Anel não deve ser filmado: “Não se pode restringir a narrativa em uma forma dramática. Seria mais fácil filmar A Odisséia. Ocorre muito menos nela. Apenas algumas tempestades.”. (The Daily Telegraph Magazine 1966)

Embora mantivesse sua opinião sobre a incapacidade da narrativa ser colocada em forma dramática, a negociação dos filmes estava sendo feita pela editora. Alguns contratos temporários já haviam sido assinados, porém nenhum filme completo havia sido lançado. Salvo um pequeno desenho animado de 12 minutos sobre o Hobbit, que na época não teve repercussão nenhuma, sendo praticamente um filme privado.

O contrato com a United Artist

Por quase dois anos Rayner Unwin havia realizado negociações com os interessados em adquirir os direitos para adaptações do Senhor dos Anéis e o Hobbit. O acordo chegou a um resultado escrito em um contrato de mais de cinquenta páginas e centenas de clausulas (que felizmente temos uma cópia nos arquivos do Tolkien Brasil).

Em Junho de 1969, o editor Rayner Unwin enviou um representante até a casa de Tolkien para explicar o contrato e pedir a assinatura. Mesmo tendo relutado por quase quinze anos, o professor decidiu que esse seria o momento para vender os direitos autorias em razão de várias necessidades financeiras que tinha na época.

Nessa negociação Tolkien recebeu o valor de £104,602 (104 mil libras esterlinas), o que equivale atualmente a £1,926 (um milhão e novecentos vinte seis libras esterlinas) em dólar seria $2.972 (dois milhões e novecentos e setenta e dois dólares), o que equivale a cerca de R$8.321.600,00 (oito milhões, trezentos e vinte um mil e seiscentos reais, com dollar cotado a cerca de R$2,80 atualmente).

Além dessa quantia, o professor Tolkien tinha (e sua família atualmente ainda tem) direito a receber %7,5 (sete e meio por cento) dos lucros dos filmes.

Em 2001 foi noticiado pela Financial Times, que Tolkien teria sido coagido a vender os direitos naquela época por estar precisando do dinheiro para pagar diversos impostos que estariam acumulando. Mas não há nenhum dado concreto que confirme essa hipótese.

Pouco antes de assinar o contrato nessa época, Tolkien deixou claro sua opinião a respeito de adaptação dos seus livros, sendo a última oportunidade conhecida em que ele escreveu algo sobre o assunto:

Nenhum filme, nem qualquer ‘versão’ em outra mídia poderia parecer satisfatória para qualquer leitor devoto e atento. De outro modo, algumas das maiores cenas pictóricas e dramáticas poderiam, com os recursos modernos, serem uma experiência emocionante. Todas as precauções devem ser tomadas para que a história pudesse ser apresentada sem sérias mutilações e sem alteração ou alterações. (The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: I. Chronology, p. 743)

O professor desde a primeira apresentação das ideias de filmes se manteve em uma posição bastante conservadora. Sempre ressaltando a importância de se manter na história os originais ou pelo menos a tentativa de se preservar a fidelidade da história.

Durante toda sua vida Tolkien não chegou a ver nenhuma adaptação de sua obra em forma de filme. A única adaptação que presenciou foi uma peça teatral infantil apresentada no New College School em 1967, na época com roteiro e Humphrey Carpenter e música de Paul Drayton. Tolkien esteve presente no último dia da apresentação e gostou da peça, especialmente por manter os diálogos como estavam no livro, embora não fosse uma adaptação completa de sua obra.

Somente em 1977 o primeiro desenho animado do Hobbit foi lançado.

 

Os Biógrafos de Tolkien

 

É complicado saber o que Tolkien poderia pensar a respeito dos filmes de Peter Jackson. Seus filhos como visto não gostaram. Mas e quanto aos biógrafos do professor? Pelo menos dois dos principais estudiosos da vida do professor afirmam também que ele não gostaria dos filmes.

Humphrey Carpenter foi autor da biografia oficial J.R.R. Tolkien uma biografia, e em entrevista concedida na Radio New Zealand em 14 de agosto de 2000 disse que Tolkien não gostaria dos filmes, pois ele tinha uma visão muito conservadora a respeito de adaptações e sua obra. Segundo Humphrey Carpenter Tolkien não achava possível que sua obra fosse dramatizada de forma satisfatória. Em seu livro Carpenter escreve sobre a relação de Tolkien e seu editor sobre os filmes, que foi citado acima, e uma expressão deu nome aquele capítulo “Dinheiro ou Glória”.

No mesmo pensamento Michael White, autor de J.R.R. Tolkien Senhor da Fantasia, disse em entrevista ao ew.com, em 2001, que Tolkien teria odiado os filmes em princípios “Ele odiava qualquer coisa do estilo Hollywood”.

Em entrevista para a radio BBC em 2013, o neto do professor, Simon Tolkien (filho de Christopher Tolkien) apresentou também a mesma opinião que os biógrafos e seus familiares, de que o autor não gostaria de assistir adaptações de suas obras.

Em 26 de junho de 2015, em visita a Exeter College, em Oxford, Peter Jackson respondeu se achava que Tolkien iria gostar de seus filmes: “Bem, Eu adoraria mostrar a ele nossos filmes. Eu ficaria apavorado. Estou certo que haveriam muitas coisas lá que ele não gostaria…. Mas gostaria que algo que fizemos pudesse o encantar e surpreendê-lo”. [‘Well, I’d love to show him our movies. I’d be terrified. I’m sure there would be lots in them he’d not like at all. . . . But hopefully some of what we did would delight and surprise him.’].

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  • Victor Mendes

    A forma que os filmes do Senhor dos Anéis e o Hobbit são feitas é bem diferente de filmes medievais que tem por ai…eles tem um tom característico e original…então são adaptações que n servem pra qualquer um fazer e pra mim P.J. acertou…
    Então, se Tolkien fosse vivo acredito que ele daria uma chance, até pq n são filmes e sim espetáculos….pode ter coisas diferente do livro como a morte de Saruman, entre outras coisas, mas se analisar de modo geral, as adaptações são bem trabalhadas…

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  • Feanissil Twillena

    Não sei sei. Acho que não sairia do jeito que ele acharia perfeito, mas acho que a trilogia LOTR surpreenderia ele, com base nas coisas que ele mesmo falou. Acho que os filmes se parecem muito mais com um épico do que com um conto de fadas, coisa que ele reclamava das adaptações da época dele. Acho que ele queria que fosse algo que tivesse cara de sério, e os filmes tem essa cara. Acho que ele não ia achar que os filmes de LOTR se aproximariam da obra original, mas acho que ele se surpreenderia por esperar algo muito pior do que estes filmes são. Sobre The Hobbit, eh melhor ele nem ver, pq inventaram tudo.

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  • Yuri Katayama

    E concordo perfeitamente com ele. E francamente, espero que O Silmarillion NUNCA saia do livro.

  • joy

    nao ha nada q o dinheiro nao compra infelizmente ou felizmente

    • http://tolkienbrasil.com/ Tolkien Brasil

      Não é tão simples assim.

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  • Ronald Kyrmse

    Matéria muito bem pesquisada. Contenho-me para não dizer “Viu só, não falei?”. Agora já disse. Ronald