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O Hobbit segundo C.S. Lewis

O Hobbit primeira edição

O Hobbit primeira edição

by Eduardo Stark

Já é de conhecimento dos leitores desse site que J.R.R. Tolkien não gostou de As Crônicas de Nárnia escritas por C.S. Lewis (Veja o artigo completo AQUI). A mesma crítica negativa parece não ocorrer por parte de C.S. Lewis quanto ao livro O Hobbit. Nesse artigo é feita uma breve exposição da opinião do autor de Nárnia sobre o clássico infantil sobre hobbits.

Quando J.R.R. Tolkien era professor de Anglo-Saxão na Pembroke College, no final da segunda década do século XX, ele atuava corrigindo exames de escola. Pego de surpresa com uma folha em branco ele escreveu as seguintes palavras “Numa toca no chão vivia um hobbit”. Ele não prosseguiu na escrita até a metade da década trinta.

Os manuscritos foram então fornecidos para leitura para algumas poucas pessoas que Tolkien tinha contato, em especial Elaine Griffiths, a Revenda Madre St. Teresa Gale (a madre superiora em Cherwell Edge, um convento da Ordem da Divina Criança Jesus) e uma menina de doze anos Aileen Jennings, irmã mais velha da poeta Elizabeth Jennings, cuja família era próxima dos Tolkiens.

Além desses leitores, destaca-se também C.S. Lewis, que ao terminar de ler os manuscritos ficou admirado com a história.  Lewis havia conhecido Tolkien brevemente em 1926 e manteve contato desde então e a amizade foi ampliando ao ponto de Tolkien lhe confiar o manuscrito de O Hobbit. A empolgação dele foi tão grande que ele encaminhou carta a seu melhor amigo para relatar suas impressões. Em 4 de Fevereiro de 1933, C.S. Lewis escreveu a seguinte carta para Arthur Greeves:

Desde que o termo[1] começou passei um tempo delicioso lendo uma história para crianças que Tolkien acabou de escrever. Eu já lhe falei dele antes: o único homem absolutamente adequado, se o destino permitiu, a ser um terço da nossa amizade nos velhos tempos, pois ele também cresceu com W. Morris e George Macdonald. Ler seu conto de fadas foi estranho – é exatamente como o que nós [Lewis e Greeves] poderíamos ansiar em escrever (ou ler) em 1916: um jeito que sinto que ele não está inventando aquilo, mas apenas descrevendo o mesmo mundo em que nós três já entramos. Se realmente é bom (acho que é até o fim), obviamente, é outra questão: ainda mais, se ele terá sucesso com as crianças modernas. (They Stand Together: The Letters of C. S. Lewis to Arthur Greeves, ed. Walter Hooper, p. 449).

A leitura de O Hobbit foi para C.S. Lewis uma sensação de nostalgia de sua juventude que estava envolta com a leitura de livros de George Macdonalds e William Morris. Em uma certa previsão, Lewis demonstra que o laço de amizade com Tolkien poderia vir a ser muito forte.

Até antes da leitura de O Hobbit não havia passado pela mente de C.S. Lewis alguma história como viria a escrever nas Crônicas de Nárnia. Mas o entusiamo com a leitura do manuscrito de Tolkien parece demonstrar que uma chama havia nascido naquele momento.

Logo, o Hobbit foi publicado em 1937 e teve uma boa aceitação pelo público. Contudo, havia ainda uma certa critica por parte dos acadêmicos de Oxford em relação a atitude de Tolkien em publicar um livro para crianças.

Foi dentro desse ambiente, aparentemente hostil, aos escritores de fantasia que eram acadêmicos em Oxford, é que C.S. Lewis se levantou em defesa de Tolkien com duas resenhas em impressos de notável circulação.

Tolkien e C. S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

A primeira resenha publicada teve o título “Um mundo para as crianças: J.R.R. Tolkien, The Hobbit: There and Back Again”. Publicado em 2 de outubro de 1937 na The Time Literary Suplement.

Nessa resenha C.S. Lewis ressalta as qualidades de O Hobbit como sendo algo jamais visto e que poderia se tornar um clássico por sua originalidade. O texto completo está a seguir exposto:

Os editores dizem que “O Hobbit”, apesar de bem diferente de “Alice”, parece ser a obra de um professor brincando. O mais importante é que ambos pertencem a uma classe restrita de livros que não possuem nada em comum, salvo que cada um de nós admite um mundo próprio – um mundo que parece ter sido gerado muito antes de nós tropeçarmos nele, mas que, uma vez encontrado pelo leitor certo, torna-se indispensável para ele. Seu lugar é com “Alice”[2], “Planolânida”[3], “Phantastes”[4], “O Vento nos Salgueiros.”[5] 

Definir o mundo de “O Hobbit” é, obviamente, impossível, porque é algo novo. Você não pode antecipá-lo antes de estar lá, e uma vez que está, nunca mais consegue esquecê-lo. As admiráveis ilustrações do autor e mapas da Floresta das Trevas, Goblin e Esgaroth deixam o leitor suspeito – assim como os nomes dos anões e do dragão que saltam aos olhos assim que começamos a virar as páginas.

Mas existem anões e anões, e nenhuma história para crianças oferece criaturas tão enraizadas em suas próprias origens e histórias do que essas criadas pelo professor Tolkien – que obviamente conhece muito mais do que seria necessário para a criação desse conto. E a receita comum da criação de histórias não nos prepara para as mudanças curiosas e feitas tão casualmente no tom do começo do livro (“Hobbits são pessoas pequenas, menores do que anões – e não possuem barbas – mas muito maiores do que Lilliputianos”)[6]  para as proporções épicas dos capítulos vistos mais para o final (“Está em minha mente questionar qual parte da nossa herança você teria dado aos de nossa raça caso encontrasse o tesouro sem guardião e nós mortos”)[7]. Você deve ler com seus próprios olhos para descobrir como a mudança na escrita é inevitável e como ela se mantém lado a lado na jornada do herói. Apesar de tudo ser maravilhoso, nada é arbitrário: todos os habitantes das Terras Ermas parecem possuir o direito inquestionável de existência do que aqueles do nosso mundo, mesmo que a criança sortuda que os conhecer não possuía noção alguma – assim como seus pais – das fontes profundas em nosso sangue e tradição que dão vida a eles.

Deve ser entendido que esse é um livro para crianças somente no sentido de que ele pode ser lido desde a mais nova infância. Alice é lido de forma grave por crianças e como algo engraçado por adultos; O Hobbit, por outro lado, será mais engraçado para os leitores jovens e, apenas anos mais tarde, na décima ou décima primeira leitura, será possível perceber a profunda reflexão e estudos vigorosos que foram utilizados para que tudo fosse tão maduro e tão amigável, e de sua própria maneira, tão verdadeiro. Previsões são perigosas: mas O Hobbit pode muito bem se tornar um clássico.”

Interessante destacar na resenha, é que C.S. Lewis não considerava a obra de Tolkien apenas como mais um livro para crianças e que seria logo afastado pelos adultos. Ele invoca os adultos a lerem e perceberem as sutilezas do conto. Essa percepção da profundidade da obra só é possível com uma releitura critica e reflexiva. Então, ele faz uma previsão que se provou realizada “O Hobbit pode muito bem se tornar um clássico”.

Em 8 de outubro de 1937, C.S. Lewis publicou novamente outra resenha sobre o Hobbit intitulada “Professor Tolkien’s Hobbit” (O Hobbit do Professor Tolkien) no jornal The Times. Contudo, o texto foi publicado sem o nome do autor e apenas um tempo depois foi descoberto a autoria de C.S. Lewis.

Todos os que amam esse tipo de livro infantil, que pode ser lido e relido por adultos, devem tomar nota de que uma nova estrela apareceu nesta constelação. Se você gosta das aventuras de Ratty e Mole[8] você vai gostar de HOBBIT, por J. R. R. Tolkien (Allen e Unwin, 7s. 6d.). Se, nessas aventuras, você aprecia a solidez do contexto social e geográfico em que seus pequenos amigos circulam, você vai gostar de “O Hobbit” ainda mais. O próprio hobbit, Sr. Bilbo Bolseiro, é tão prosaico quanto Mole, mas o destino o coloca vagando entre anões e elfos, sobre montanhas de goblins, em busca do ouro guardado por dragões. Cada um que ele encontra pode ser apreciado no berçário. Mas para o olho treinado alguns personagens parecerão quase mitopoeica – notadamente o lúgubre gollum o peixe-homem, e o ferozmente benevolente Beorn, meio homem, meio urso, em seu jardim zumbindo com abelhas.

A verdade é que neste livro uma série de coisas boas, nunca antes unidas, se juntaram: Um fundo de humor, uma compreensão das crianças, e uma feliz fusão do erudito com a compreensão poética da mitologia. Na borda de um vale, um dos personagens do professor Tolkien pode fazer uma pausa e dizer: “Cheira a elfos”. Pode haver anos antes de produzir outro autor com tal nariz para um elfo. O professor tem o ar de não inventar nada. Ele estudou trolls e dragões de primeira mão e descreve-os com essa fidelidade que vale oceanos de loquaz “originalidade”. Os mapas (com runas) são excelentes e serão encontrados completamente seguros por jovens viajantes na mesma região.

Certamente o professor Tolkien deu um exemplar autografado e dedicatória ao C.S. Lewis para que ele fizesse sua primeira leitura. Talvez esse seja um dos livros mais caros relacionado a esse autor. Provavelmente deve estar guardado na biblioteca particular de Christopher Tolkien, filho do autor do hobbit.

As análises positivas de C.S. Lewis em relação ao Hobbit serviram para alavancar ainda mais o sucesso do livro. E com o bom número de venda das primeiras tiragens o editor requereu a Tolkien que escrevesse outro livro contando mais histórias sobre Hobbits. E foi assim que o professor Tolkien começou a escrever O Senhor dos Anéis, que viria a ser a sua obra máxima.

[1]  “term” é uma espécie de período letivo da Univerdade de Oxford.
[2] “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carrol.
[3] “Flatland: A Romance of Many Dimensions” de  Edwin Abbott, publicado em 1884. No Brasil foi traduzido por Leila de Souza Mendes (Editora Conrad, 2002) com o título “Planolândia: Um Romance de Muitas Dimensões.”  
[4] “Phantastes” de George Macdonald, publicado em 1858. No Brasil foi traduzido por Letícia Campopiano (Editora Dracaena, 2015) com título de “Phantastes, Na Terra das Fadas”.
[5] “The Wind in the Willows” de Kenneth Grahame, publicado em 1908. No Brasil foi traduzido por Ivan Angelo (Editora Moderna, 1998) com o título “O Vento nos Salgueiros”.
[6] Citação do primeiro capítulo de O Hobbit. Liliputianos são seres minúsculos que viviam na illha de Liliput nas histórias de As Aventuras de Guilliver de Jonathan Swift.
[7] Citação do capítulo 15 de O Hobbit.
[8] Referência a dois personagens do livro “O Vento nos Salgueiros” de Kenneth Grahame.

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