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Leitores de Tolkien nos anos 60: o Arqueólogo Madersbacher e o maestro Eleazar de Carvalho

by Eduardo Stark

Muito embora o Senhor dos Anéis tivesse sido publicado em 1954 e 1955, o sucesso literário não chegou no Brasil na mesma época. Contudo, poucas pessoas que tinham um contato com outros países, sobretudo os Estados Unidos e a Inglaterra,acabavam por descobrir as obras de Tolkien. Com isso, pode-se dizer que no Brasil um número reduzido de pessoas teve acesso a obra, que ficou vinculada a jornalistas e intelectuais.

Em nossa pesquisa com mais de 170 jornais publicados no Brasil existem poucas referências a Tolkien entre 1959 e 1969. As referências estão relacionadas a dois homens Fred Madersbacher e Eleazar de Carvalho. Obviamente que mais pessoas devem ter tido contato com a obra de Tolkien nessa época, porém esses são os nomes que temos em jornais da época.

Fred Madersbacher e o ensaio “Beowulf: The Monster and the Critics” de Tolkien

Fred Madersbacher, jornalista e arqueólogo, nascido em 6 de novembro de 1925, de nacionalidade originária austríaca, imigrou para o Brasil em Março de 1948, se instalando no Rio de Janeiro. Em Março de 1963, o Madersbacher viajou para o Egito e lá colheu várias informações sobre arqueologia que compartilhou em diversos artigos para o jornal Correio da Manhã e começou a escrever seus primeiros livros sobre o tema. Retornando ao Brasil continuou suas atividades como jornalista. O fato de ser europeu possibilitou a ele conhecer muitas obras que normalmente os brasileiros não tinham conhecimento, dentre os quais a obra de Tolkien sobre Beowulf.

Fred Madersbacher1

Dentre elas está o ensaio “Beowulf: The Monster and the Critics” de J.R.R. Tolkien, que foi publicado em 1936 e constantemente reimpresso até a 1959. Provavelmente Madersbacher deva ter acesso a uma dessas cópias mais recentes publicadas após O Senhor dos Anéis. Esse ensaio do Tolkien trouxe aos estudiosos de Beowulf uma nova visão sobre esse material, que até então era estudado com mais enfoque histórico do que literário.

No artigo “A Canção de Beowulf”, publicado em 28 de junho de 1959 no Jornal do Commercio, Madersbacher coloca o nome “Tolkien” como referência para suas fontes acerca do tema, ao lado de Bonjour, Bradley, Heyne-Schucking, Leaths, Lawrence, Thorkellin, Whitelock e Wright. O artigo apresenta informações básicas sobre a história do herói Beowulf e contém trechos do épico, sendo talvez a primeira tradução de versos do Beowulf publicada no Brasil.

Jornal Correio da Manha com artigo sobre Beowulf

Em 15 de Novembro de 1964, no jornal Correio da Manhã (Rio de Janeiro), Madersbacher novamente trata sobre o épico anglo-saxão Beowulf, com o artigo intitulado “Canção de um Herói”. Nesse artigo é feita várias referências a Tolkien e suas ideias sobre Beowulf. O artigo está conectado ao anteriormente publicado em 1959 no Jornal do Commercio. Segundo Madersbacher:

“Hoje, vemos tudo em outra luz: Como a forma da aliteração dos seus versos, também o conteúdo não é subordinado a um relato continuo, mas num balanço de teses e antíteses, como Tolkien foi o primeiro a mostrar”.

E mais adiante no mesmo artigo ele novamente se refere a Tolkien:

“Beowulf” é um poema cristão com herói pagão. Beowulf é um homem, mesmo se com forças sobrenaturais. “É homem, e isso para ele e para muitos outros é tragédia suficiente” (Tolkien).

A citação é colhida diretamente do trecho de “Beowulf: The Monster and the Critics” de J.R.R. Tolkien: “Beowulf não é precisamente, o herói de uma balada heroica. Ele não tem laços de lealdade, nem amor infeliz. Ele é um homem, e isso para ele e muitos é tragédia suficiente”(Beowulf is not, then, the hero of an heroic lay, precisely. He has no enmeshed loyalties, nor hapless love. He is a man, and that for him and many is sufficient tragedy).

Ensaio Beowulf The Monster and the critics de Tolkien publicado em 1936 e reimpresso nos anos seguintes

Madersbacher continuou suas atividades de jornalista e passou a escrever livros e foi responsável pela editora Palmares a partir de 1969. No entanto, não parece ter passado por ele a ideia de publicar alguma obra de Tolkien.

O maestro Elieazar de Carvalho e O Senhor dos Anéis

Outro intelectual brasileiro que também conhecia as obras de Tolkien é o Elieazar de Carvalho (1912-1996) foi um importante músico e regente brasileiro, professor de regência da universidade Yale nos Estados Unidos, que em duas oportunidades citou Tolkien em seus artigos, quando ainda morava nos Estados Unidos.

Eleazar de Carvalho

Em notícia escrita por Eleazar de Carvalho, com o título “3º Concerto da 85ª Temporada da St. Louis Symphony Orchestra”, publicada em 12 de novembro de 1964, no jornal Diário de Notícias (Rio de Janeiro), há uma pequena referência a Tolkien da cópia de uma declaração de Cecil Gray (1895-1951), critica musical escocês e biógrafo de Jean Sibellius. Na ocasião o repórter brasileiro enviava notícias da St. Louis Symphony Orchestra que realizava temporada tocando Sibellius nos Estados Unidos, em que publicou a afirmação de Cecil Gray:

“o concerto para violino, em questão, além de ser “um exemplo de brilhantismo e virtuosidade, representa o tipo de obra de criação artística do começo do século. Para mim, no entanto, que penso com Tolkien no sentido de que Arte, em todos os tempos, foi o reflexo do pensamento e do sentimento da época e que deve definir uma situação histórica, o concerto não reflete o pensamento nem o sentimento da época em que foi escrito e nem define nenhuma situação histórica”.

Continuando a comentar as atividades musicais, Eleazar de Carvalho enviar novamente notícias agora do 7º Concerto da 85ª Temporada da St. Louis Symphony Orchestra, com o inicio do Festival de Tchaikowsky. No texto publicado em 6 de dezembro de 1964 no jornal Diário de Notícias (Rio de Janeiro), o autor desabafa sobre a falta de uma orquestra semelhante e o mesmo nível no Brasil:

“Quando a vida musical ai, no nosso Brasil, terá uma organização semelhante? Resta-nos a frase de HEIDEGGER “a perda de todas as esperanças não priva a realidade humana de suas possibilidades”; é, simplesmente, uma atitude em direcção a essas possibilidades”, ou melhor, a frase de TOLKIEN, quando afirma: “nós não necessitamos de esperanças enquanto o desespero puder ser adiado”. Até quando teremos forças para adiar o desespero?”

Mais tarde o próprio Eleazar tenta responder a essa indagação. Em vídeo exibido na Tv Cultura na década de 70 ele diz:

“As escolas de músicas, principalmente as de instrumentos, não satisfizeram até agora as exigências de um país como o nosso.O que devemos fazer? Fileiras em torno de nós mesmos. Não dividirmos as nossas forças. Juntarmos as nossas forças a fim de que o Brasil possua mais escolas. E possuindo mais escolas, possua mais orquestras. E isso é um cartão de visita. È o meio de aferir a cultura de um povo, a civilização de um povo. É através de seus concertos. Da quantidade das suas orquestras sinfônicas e seus museus das casas onde realizam atividades culturais. Meus amigos! Mais escolas!Mais escolas para mais orquestras!”

Elieazar de Carvalho, ainda em vida foi considerado um dos nomes mais importantes da música brasileira e atualmente possui diversas homenagens de sua vida e obra.

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