Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

J.R.R.Tolkien foi um espião do governo Britânico na Segunda Guerra Mundial?

By Eduardo Stark

 

Atualmente teorias de conspiração, atos secretos e espionagem parecem ser coisas de uma época muito antiga entre guerras mundiais ou algo relacionado a filmes e produções para o entretenimento.

O ato de buscar informações confidências para uso de um governo, por meio do uso de algum sistema, quebra de códigos ou coleta de dados pode ser definido como espionagem, sem o rigor técnico da definição dos dicionários.

Ocorre que a espionagem é algo ‘normal’ entre os governos, pois diz respeito diretamente a segurança do país e até do mundo. Os vários Estados possuem seus órgãos de inteligência (no caso do Brasil é a ABIN) responsáveis por buscar informações privilegiadas ou investigar casos de urgência com dados precisos.

Em 01 de setembro de 2013, o Brasil foi surpreendido com a notícia de que os E.U.A (em tese nosso aliado) estava espionando e monitorando informações da presidente Dilma Roussef.(Ver 01) Edward Snowden, ex agente da NSA apresentou documentos a um jornalista, que por sua vez revelou a rede Globo em matéria especial do Fantástico.

O professor J.R.R.Tolkien viveu em uma época muito conturbada, passando pela devastadora primeira guerra mundial, em seguida com a segunda guerra mundial e após isso a Guerra Fria. Foram momentos na história da humanidade que a informação rápida era algo vital para determinar o início ou o fim de uma guerra.

O próprio Tolkien lutou em uma das três citadas guerras. Durante sua juventude perdeu muitos amigos na primeira Guerra Mundial, na terrível batalha de Somme, onde mais de um milhão de soldados morreram.

Para acalmar a ansiedade de sua jovem esposa Edith, mandava-lhe cartas informando sobre suas condições na Guerra. Contudo, Tolkien desenvolveu um código secreto em suas cartas, contornando a censura postal do Exército Britânico. Nesses códigos ele informava a Edith onde se movimentaria em um mapa da Frente Ocidental.

TOLKIEN

A primeira guerra mundial foi algo decisivo na vida de Tolkien, de modo que isso influenciou o resto de sua vida e até mesmo na criação do seu famoso mundo secundário.

Como parte desse mundo o professor criou diversas línguas  (com todos os detalhes que uma língua real deve ter) e alfabetos para essas línguas. Além de ser um criador de línguas fictícias por divertimento pessoal, Tolkien também escrevia em seus diários com alfabetos criados, outra forma de proteger as informações pessoais ali contidas.

O professor Tolkien se notabilizou também como acadêmico e especialista em filologia na Universidade de Oxford. Sabia falar aproximadamente 30 idiomas (incluindo línguas antigas como o médio inglês, o velho inglês, Latim, Grego, Gótico, etc), foi também autor de um dicionário de Médio Inglês (A Middle English Vocabulary, Clarendon Press, 1922) e trabalhou como lexicógrafo no dicionário de Oxford.

Em 1937, ainda em período da aparente paz mundial, Tolkien publicou o seu livro de maior sucesso em vendas até então: O Hobbit. E devido ao sucesso nas vendas foi o editor lhe pediu uma ‘continuação’, que quase duas décadas depois seria publicada com o nome de “O Senhor dos Anéis”.

Nesse período, a situação mundial já não parecia tão estável. Uma figura autoritária havia surgido na Alemanha. Adolf Hitler, um soldado da primeira guerra mundial que lutou na mesma batalha que Tolkien (mas do lado dos alemães), havia ascendido ao poder na Alemanha, e da mesma forma Mussolini na Itália havia iniciado um período autoritário naquele país. Todos sabiam que uma nova guerra não tardaria e esse era o temor geral.

Diante de uma possível Segunda Guerra Mundial, o Governo Britânico deveria estar atento e colher todo tipo de informação, especialmente sobre os movimentos da Alemanha na Europa.Para essa tarefa o governo precisaria de pessoas com técnica suficiente para quebrar códigos, entender idiomas, e até traduzir expressões ou textos decodificados. Um dos quinze nomes da lista para essa tarefa estava o professor J.R.R.Tolkien.

Tolkien estudando criptografia no órgão Britânico de inteligência

 

Em Janeiro de 1939, o governo britânico convocou o professor Tolkien para realizar um curso de criptografia, no órgão de serviço de inteligência Government Code and Cypher School (GCCS ou GC&CS), o professor aceitou o convite e declarou estar a disposição do governo nesse sentido.

Pouco antes do início da segunda guerra Mundial, em 02 de fevereiro de 1939, Tolkien escreveu ao representante da editora Allen & Unwin que deveria conseguir um tempo livre para se dedicar ao Senhor dos Anéis:

Talvez eu consiga um período livre nas férias de Páscoa. Mas não todas as férias: devo ter alguns documentos para organizar e a preparação de algum trabalho para uma possível “Emergência Nacional”(que levará uma semana). Tenho de ir à Escócia em março ou abril” (As Cartas de J.R.R.Tolkien,  Carta 35,p. 45).

O Uso da expressão “Emergência Nacional” chama a atenção até mesmo para o leitor menos atento por seu destaque em aspas. Em nota a essa passagem, o biografo Humphrey Carpenter escreveu que

Em Janeiro de 1939, foi perguntado a Tolkien se no caso de uma emergência nacional (i.e. guerra) ele estaria preparado para trabalhar no departamento criptográfico do Ministério de Relações Exteriores. Ele concordou, e aparentemente frequentou um curso de instrução de quatro dias no Ministério de Relações Exteriores, com início em 27 de março. Mas, em outubro de 1939, ele foi informado que seus serviços não seriam necessários no momento e, em consequência disso, ele nunca trabalhou como criptógrafo.”

A nota de Humphrey Carpenter parece não mostrar muita segurança quanto a esse período da vida de Tolkien. Isso se torna claro, pois como biografo teria pouco acesso as informações sobre a segunda guerra mundial, pois a maioria (especialmente nesse caso) ainda permanecia em regime de segredo pelo governo Britânico. Deve-se notar que Humphrey Carpenter escreveu a biografia de Tolkien em uma época conhecida pela Guerra Fria, onde havia diversas espionagens e busca de informações secretas entre as potências mundiais da época.

É interessante notar que no livro As Cartas de J.R.R.Tolkien, com organização de Humphrey Carpenter e assistência de Christopher Tolkien, há apenas três cartas do ano de 1939, sendo duas datadas de 02 e 10 de fevereiro e uma última em 19 de dezembro. Além disso, na lista de cartas não publicadas não há nenhuma do ano de 1939. O que demonstra haver uma certa ausência de informações desse período, embora possa ser encontrados outros documentos que relatam o que ele teria feito nesse tempo.

Mas, o ano realmente foi conturbado e contornado com alguns acontecimentos incomuns, não apenas por ter estudado criptografia no GCCS, mas pelo fato de que pouco tempo depois Tolkien sofreu um acidente (aproximadamente em agosto), e sua esposa Edith estava gravemente doente, com uma suspeita de câncer. Talvez esses sejam alguns dos motivos que poderiam ter sido ditos por Tolkien para declinar do trabalho como criptógrafo, e que poderia ter sido a base da argumentação de Humphrey Carpenter na nota citada.

De todo modo, Tolkien se declarava contra a Guerra Mundial, e como bom cidadão tentava auxiliar outras pessoas nesse período. Ele costumava abrigar pessoas que tinham suas casas destruídas por ataques aéreos dos nazistas. Dois de seus filhos serviram no exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Michael Tolkien foi voluntário das forças armadas logo depois de iniciada a Guerra em setembro de 1939, e o Christopher Tolkien, em Julho de 1943 se juntou a força aérea britânica e foi realizar treinos como piloto na África do Sul, o que tornou a escrita do Senhor dos Anéis ainda mais demorada, pois seu filho o auxiliava nas revisões e comentários aos capítulos.

 

Sobre o Government Code and Cypher School (GCCS) 

 

Por muitos anos pouco se sabia sobre esse período da vida do professor Tolkien. O fato dele ter frequentado um curso de criptografia no Government Code and Cypher School (GCCS ou GC&CS) para atender aos fins do governo na época da segunda guerra é algo interessante. Mas, o comentário de Humphrey Carpenter parece querer fulminar qualquer possibilidade do Tolkien ter realizado algo nesse campo.

O GCCS é o nome do antigo serviço de inteligência Britânico, que foi criado em 1919. Durante a Segunda Guerra Mundial o GCCS atuou como órgão de informações e quebra de códigos criptografados do exército Nazista. O seu foco era especialmente decifrar os códigos da máquina Enigma, e também proteger os dados do exército britânico.

Durante o período em que Tolkien aprendeu sobre criptografia na GCCS, o diretor desse órgão era Alexander Guthrie (Alastair) Denniston, importante decodificador do governo britânico.

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1946 o GCCS mudou algumas de suas características e passou a ser chamada de Government Communications Headquarters (GCHQ), atual agência de inteligência britânica.

 

A notícia do The Daily Telegraph

 

Os estudiosos de Tolkien, Wayne Hammond e Christina Scull, escreveram um livro que apresenta a vida do professor Tolkien de forma cronológica, dia após dia, de acordo com os documentos e relatos obtidos sobre ele. Nessa obra primorosa, o casal apresenta no ano de 1939 alguns acontecimentos na vida do professor Tolkien.

Sobre a data em que Tolkien realizou o curso no GCCS foi escrito apenas o seguinte (ver fonte 05):

Janeiro de 1939 – Convidado a fazê-lo, Tolkien concorda em trabalhar no departamento de criptografia do Ministério das Relações Exteriores, em caso de guerra. (Original: January 1939 – Invited to do so, Tolkien agrees to work in the cryptography department of the Foreign Office in the event of War).

27 de Março de 1939 – Tolkien começa um curso de quatro dias para treinamento em criptografia no Ministério das Relações Exteriores. (Original: “27 March 1939 – Tolkien Begins a four-day training course in cryptography at the Foreign Office”).

Outubro de 1939 –  Tolkien é informado que não será requisitado para trabalhar como criptógrafo no momento (no caso, ele nunca foi chamado a fazê-lo). (October 1939 – Tolkien is informed that he will not be required to work as a cryptographer for the present (in the event, he is never called upon to do so).

Tais informações parecem terem sido retiradas da nota de Humphrey Carpenter, mencionada acima, e por isso não apresentam um aprofundamento sobre o assunto e nem informações adicionais.

Mas em 16 de Setembro de 2009, o jornal The Daily Telegraph publicou uma notícia com o título: “J.R.R.Tolkien treinado como um espião britânico: O novelista J.R.RTolkiien treinou secretamente como um espião do governo pouco antes da Segunda Guerra mundial, novos documentos foram divulgados” (Original: “JRR Tolkien trained as British spy: The novelist JRR Tolkien secretly trained as a Government spy in the run up to the Second World War, new documents have disclosed”).

A notícia surgiu em razão da exibição de documentos em um museu da GCHQ (antiga GCCS), nessa oportunidade um historiador que não se identificou por razões de segurança disse que “”JRR Tolkien é conhecido no mundo por seus livros, mas seu envolvimento com auxílio na guerra pode pegar algumas pessoas de surpresa”.

Na notícia é dito que Tolkien foi considerado apto e que passou nos exames do curso, podendo ser logo depois chamado para servir ao governo. Quem fosse aprovado no curso teria direito a receber um valor de £500 (equivalente  a cerca de £50,000,  em reais seria em torno de 180 a 200 mil reais) por ano.

Mas segundo o historiador da GCHQ Tolkien não chegou a aceitar essa oferta. Segundo ele “Porque [Tolkien] declinou em aceitar permanece um mistério. Não há nenhum documento sugerindo um motivo, então só podemos assumir que ele queria se concentrar na sua carreira de escritor” e o historiador brinca dizendo “Talvez porque nós declaramos guerra contra a Alemanha e não Mordor”.

Tendo em vista a notícia o casal Wayne Hammond e Christina Scull, apresentou em seu site (onde atualizam os dados dos seus livros) novas adições sobre as datas citadas acima. Para o dia 27 de março de 1939, dentre outras informações eles acrescentaram que:

“O evento foi, presumivelmente, um tipo de teste de aptidão. Ele seguiu com o combinado em trabalhar em criptografia para o Ministério das Relações Exteriores, no caso de Guerra (ver o tópico para Janeiro de 1939). Passado alguns meses depois disso, ele assumiu que poderia ser chamado para o serviço a qualquer momento, uma condição que ele mencionou a Philip Unwin em sua carta de 15 de Setembro de 1939 – uma observação, para essa data, que inexplicavelmente passou despercebida em nosso livro Chronology. Original: “The event was, presumably, an aptitude test of some sort. It followed his agreement to work in cryptography for the Foreign Office in the event of war (see entry for January 1939). For some months after this, he assumed that he could be called into service at any time, a condition he mentioned to Philip Unwin in his letter of 15 September 1939 – a remark we unaccountably passed over in our Chronology entry for that date”. (ver fonte 03).

Em seguida o casal continua argumentando que Tolkien não teria servido ao governo na época em razão de sua saúde e da sua esposa (como dito acima). Mas o ponto importante de se notar é que em 15 de Setembro de 1939, poucos dias após o início da Segunda Guerra Mundial, Tolkien declarou que poderia ser chamado pelo governo para trabalhar no GCCS, ou seja, ele teria aceitado a oferta do governo, mas estava esperando uma convocação, o que contraria a afirmação do historiador da GCHQ acima.

Também chama a atenção o fato de que essa informação “inexplicavelmente passou despercebida” no livro de Christina Scull e Wayne Hammond. Talvez possa ter sido realmente um lapso em meio a tantos documentos relativos a vida do professor Tolkien, ou mesmo que na época os autores não tenham visto que essa informação seria relevante. Fato é que a carta de 15 de Setembro de 1939 endereçada a Philip Unwin não foi publicada no livro As Cartas de J.R.R.Tolkien e sua integra ainda não é conhecida do grande público.

O único documento após Outubro de 1939 (mês que Humphrey Carpenter afirmou ser a dispensa de Tolkien dos serviços como Criptógrafo) é a carta de 19 de dezembro de 1939. Refutando alguns termos usados na notícia do The Daily Telegraph, Christina Scull e Wayne Hammond afirmam que as palavras de Tolkien:

“não dão indicação que ele tinha recebido um cargo e o rejeitado, nem que ele foi treinado como um ‘espião’ ou estava ‘destinado a quebrar códigos dos nazistas’ (além de analistas de criptogramas, o governo também contratou linguistas).“His words give no indication that he was offered a position and turned it down, nor that he was trained as a ‘spy’ or ‘earmarked to crack Nazi codes’ (besides cipher analysts, the government also hired experts on languages)”.

Enfim, está posta essa possibilidade de que talvez, digo TALVEZ, Tolkien possa ter sido contratado não como um criptógrafo, mas como um linguista e nisso teria auxiliado o governo, obviamente de forma secreta. No momento não temos documentos suficientes, pois o museu GCHQ permanece com acesso apenas para seus membros e pessoas estritamente escolhidas.

Além disso, muitos documentos dessa organização permanecem e podem permanecer ocultos durante muito mais tempo que possamos imaginar. Então, não podemos dizer com certeza que Tolkien foi um ‘agente’ do governo britânico, mas também não podemos dizer o contrário. Permanece o segredo…

 

FONTES:

 

  1. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/09/documentos-revelam-esquema-de-agencia-dos-eua-para-espionar-dilma-rousseff.html
  2. http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/6197169/JRR-Tolkien-trained-as-British-spy.html
  3. http://www.hammondandscull.com/addenda/chronology_by_date.html
  4. As Cartas de J.R.R.Tolkien, org. Humphrey Carpenter, Assist. Christopher Tolkien, Arte e Letra, Curitiba, 2006.
  5. HAMMOND, Wayne, SCULL, Christina. J.R.R.Tolkien Companion and Guide: Chronology, Harpercollins, 2006. p. 227-229.
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