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J. R. R. Tolkien e o Apartheid na África do Sul

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Eduardo Stark

Pelo simples fato de ser uma pessoa branca e ter nascido na região que é atualmente a África do Sul algumas pessoas que analisam superficialmente as obras de Tolkien ou agindo de má-fé acusam-no de racismo, sem ao menos se preocupar em investigar sua vida e suas declarações a respeito do tema.

O presente artigo visa apresentar um panorama geral dos acontecimentos da vida de Tolkien relacionados ao racismo e alguns de seus pronunciamentos. 

Já é sabido que Tolkien foi um forte opositor ao regime nazista de Hitler a sua ideologia racial (veja os artigos sobre isso AQUI e AQUI). Mas agora o foco é justamente a relação de Tolkien com o Apartheid. Algo que atingiu justamente a terra onde nasceu o professor.

A situação na época do nascimento de Tolkien

Em 3 de Janeiro de 1892 , J. R. R. Tolkien nasceu em Bloemfontein no Estado Livre de Orange, atual África do Sul. Seus pais tinham se mudado a pouco tempo, vindos da Inglaterra.

Era um período conturbado, pois haviam constantes disputas territoriais entre os holandeses, britânicos e africanos locais. Tudo isso gerou um forte racismo e uma segregação total entre brancos e pretos.

A região foi dominada pelo Império Britânico e em decorrência do Slavery Abolition Act 1833, mais de 40.000 pessoas foram libertas e desde então não havia mais escravidão ao sul da África. Apesar disso, o racismo e os atos de segregação permaneceram em muitas das colônias britânicas.

O próprio Estado Livre de Orange, onde o Tolkien nasceu, estabelecia em sua Constituição de 1854 que só poderiam ser considerados como cidadãos aqueles que fossem brancos nascidos naquele país.

Estado Livre de Orange

Estado Livre de Orange

A lei favorecia especialmente o pequeno grupo de holandeses que haviam ganhado a guerra na região. De modo que o Estado Livre de Orange tinha em sua maioria de cidadãos originários da Holanda. Assim, desde o berço os pretos, que eram em sua maioria os nativos da região, não tinham nenhum direito em relação ao Estado.

Esse conjunto de leis e atividades Estatais que visavam reduzir direitos e separar as pessoas por critérios raciais ficou conhecido como Apartheid. E ele foi se agravando com o passar do tempo, até atingir o auge entre os anos de 1948 a 1994, quando o Partido Nacional da África do Sul editou diversas normas de segregação, que foram combatidas com veemência por Nelson Mandela.

O jovem “Isaak Mister Tolkien Victor”

 

Na época em que Tolkien nasceu o racismo estava impregnado em boa parte dos europeus que viviam no sul da África. E isso implicava em grandes diferenças sociais.

Enquanto a minoria dos europeus vivia nos centros das cidades e em boas casas, a maioria da população dos negros viviam em condições muito precárias, pois eles viviam nos chamados Kraal (curral).

Os kraal eram conjuntos de casas feitas de madeira ou lugares fechados com cercas e construções de poucas bases e higiene. Geralmente ficavam longe das cidades construídas com prédios e casas de tijolos.

Muitos homens saiam de seus Kraals e trabalhavam em algum emprego no centro da cidade e depois retornavam para seu lar. Era o caso do jovem Isaak, que trabalhava como ajudante na casa bancária (cedida pelo banco aos funcionários), onde residia naquela época à família Tolkien: Arthur, Mabel e seu pequeno filho Ronald.

Poucos meses após o nascimento de Tolkien, Arthur e Mabel decidiram tirar uma foto e enviar para seus familiares na Inglaterra. Resolveram aproveitar o jardim da casa e convidaram o fotografo para vir tirar a foto em 15 de novembro de 1892.

Na manhã daquele dia, ao se reunirem para tirar a foto, Mabel fez questão de convidar também a empregada, a babá e o ajudante da casa chamado Isaak. Todos ficaram surpresos, pois era incomum as pessoas brancas tirarem fotos com pessoas negras.

Mabel Tolkien não suportava o racismo que os holandeses insistentemente pregavam naquela região. Sua atitude cortês, ao estilo típico britânico, fazia parte de sua boa educação e esclarecimento sobre os males de qualquer forma de discriminação.

A foto foi logo enviada aos familiares e amigos como uma espécie de cartão postal na época do Natal. Ao lado esquerdo está Arthur Tolkien vestido de branco, sentada em uma cadeira está Mabel Tolkien. Em pé estão a empregada da casa e a babá que segura o pequeno Ronald no colo. E logo atrás está Isaak, o ajudante da casa.

1892 – tolkien family

Pouco tempo depois desse episódio da foto. O Isaak decidiu pegar o bebe Tolkien sem falar nada com os pais. E por algumas horas Mabel e Arthur ficaram preocupados sem saber onde estava seu pequeno filho. Arthur já estava preocupado o suficiente a ponto de já planejar comunicar a polícia local.

Foi quando o Isaak retornou com o bebe sem nenhuma lesão. Ele havia levado a criança para que seus amigos e parentes pudessem ver um  recém nascido branco, algo que não era comum para eles.

Certamente se estivesse trabalhando para outra família naquela região, Isaak seria punido severamente. Além de perder o emprego teria algum tipo de castigo físico. Bastaria uma palavra da Mabel sobre o ocorrido e as penas cairiam duramente sobre ele.

Mas nada disso aconteceu. Ao invés disso, os Tolkiens perdoaram o rapaz e pediram apenas que não fizesse isso novamente. Isaak ficou muito emocionado com o perdão deles.  

Seu agradecimento foi tamanho que ele batizou seu primeiro filho com o nome “Isaak Mister Tolkien Victor”. Sendo “Mister Tolkien” uma referência ao Arthur Tolkien e “Victor” ao período em que viviam da Rainha Vitória da Inglaterra.

Alguns anos mais tarde, Mabel teve que partir com seus filhos para a Inglaterra e de lá ficaram sabendo que Arthur Tolkien havia falecido. A vida passou a ser mais complicada para os Tolkiens, agora sem o chefe da família.

A precariedade se ampliou quando a pouca ajuda financeira que tinham foi cortada. Isso por que Mabel Tolkien havia se convertido ao catolicismo e sua família era protestante e tinha um grande preconceito religioso. O resultado disso foi o esforço e a saúde debilitada de Mabel que levou a sua morte com apenas vinte e quatro anos.

Durante o tempo que esteve com seus filhos, Mabel sempre falava a respeito da situação do Estado Livre de Orange e como o racismo era algo inaceitável. Tolkien guardou esses ensinamentos desde então, a ponto de dizer que tinha “ódio ao apartheid em seus ossos”.

A posição de Tolkien sobre o Apartheid na África do Sul

 

Muitos anos depois, com a explosão da Segunda Guerra Mundial, em 1944 Christopher Tolkien, o terceiro filho do professor, se alistou como soldado e viajou para a África do Sul a fim de realizar treinamentos como piloto da aeronáutica.

Naquele país o filho do professor presenciou atos de racismo e de apartheid e ficou surpreso como isso ainda existia no sul da áfrica de forma tão intensa. Em resposta a isso Tolkien respondeu em uma carta o seguinte:

Quanto ao que você diz ou dá a entender das condições “locais”: eu sabia delas. Não creio que elas tenham mudado muito (mesmo que para pior). Eu costumava ouvi-las sendo discutidas pela minha mãe e, desde então, sempre tive um interesse especial nessa parte do mundo. O tratamento de cor quase sempre horroriza qualquer um saído da Grã-Bretanha, e não apenas na África do Sul. Infel[izmente] não são muitos que mantêm esse sentimento generoso por muito tempo. (Carta 61, 18 de abril de 1944).

Em várias manifestações e conversas com alunos, amigos e familiares ele demonstrava seu descontentamento com relação ao racismo. Especialmente quando acompanhava as noticias sobre a África do Sul ao ler os jornais pela manhã.

Em 5 de junho de 1959, Tolkien estava se aposentando do cargo de professor em Oxford. Em um momento extremamente solene, onde todos estavam escutando suas palavras, ele fez questão de mencionar seu repúdio ao que acontecia na África do Sul em seu discurso:

Há, naturalmente, outras terras abaixo do Cruzeiro do Sul. Eu nasci em uma, embora eu não pretende ser o mais erudito dos que vieram para cá do extremo do continente negro. Mas eu tenho o ódio do apartheid nos meus ossos; e acima de tudo eu detesto a segregação ou separação de Língua e Literatura. Eu não me importo qual deles você acha Branco. (Valedictory Address to the University of Oxford, 5 de junho de 1959)

Tolkien não se envolvia em política. Até por que tinha suas pretensões muito mais no campo acadêmico em Oxford e se preocupava em sustentar sua família e nas horas de folga escrever suas belas histórias. Apesar disso, ele acompanhou os acontecimentos na África do Sul com lamento.

Em várias momentos desejou retornar a região onde nasceu, até mesmo para visitar o túmulo de seu pai, que acreditava estar perdido e ignorado. E realmente por muitos anos não se sabia ao certo o paradeiro do túmulo do pai de Tolkien. Até que os registros locais identificaram e colocaram uma nova lápide.

A África do Sul e Tolkien atualmente

 

Em 1992, em razão da comemoração do centenário de Tolkien, sua a filha Priscilla Tolkien, viajou para a África do Sul e visitou o túmulo de seu avô Arthur Tolkien. Nessa mesma época estava ativa a sociedade Tolkien na África do Sul, chamada de “Sociedade Haradrim” que permaneceu ativa até o ano de 2000.

Existe uma placa comemorativa do nascimento de Tolkien, no lugar onde possivelmente ele nasceu. O texto da placa é o seguinte:

Local de Nascimento de J. R. R. Tolkien. John Ronald Reuel Tolkien, autor de “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”  nasceu nesse local em 3 de janeiro de 1892. Conselho do Museu Nacional”.

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Placa do nascimento de J.R.R. Tolkien colocada para exposição na cidade de Bloenfontein, África do Sul.

No Museu da literatura Afrikaans em Bloemfontein existiu o projeto de se fazer um busto de Tolkien, junto com outros escritores que nasceram naquele território. Porém, como os furtos de bustos de bronze foram constantes no museu, o projeto foi abandonado.

Atualmente é possível  fazer um turismo especial em Bloemfontein visitando os principais pontos relacionados ao Tolkien (veja mais AQUI)

Para saber mais sobre a nacionalidade de Tolkien (se ele era Sul africano ou Inglês) acesse AQUI.

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