Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

“Canção Marítima de um Tempo Antigo” de J.R.R. Tolkien

Kynance Cove on the Lizard Peninsula Cornwall England UK

by Eduardo Stark

Para entender melhor esse artigo é interessante ler esse AQUI.

—————————————————————–

Entre os anos de 1914 e 1916 o então jovem J.R.R. Tolkien começou a desenvolver o seu grandioso legendarium. Inicialmente ele parecia não ter ideia do que iria fazer. Descobriu as palavras de Cynewulf em anglo-saxão e decidiu escrever poemas sobre o herói Earendel. Estava fazendo algumas anotações em folhas soltas e buscando esquematizar o que seriam suas primeiras histórias de um marinheiro em direção ao norte.

Nesse período Tolkien escreveu muitos poemas. Porém, um deles em especial, que já havia sido iniciado com um rascunho em 1912, passou agora por um processo de revisão para se adequar as histórias que estavam sendo desenvolvidas. Trata-se do poema “Sea-Chant of an Elder Day”, que traduzido para o português é “Cântico Marítimo de um Tempo Antigo” [1], em sua última versão é chamado de “The Horns of Ylmir” ou “The Horns of Ulmo” (As Trombetas de Ulmo).

Esse poema passou por diversas revisões, mudando a quantidade de versos e até mesmo títulos. Como pode ser visto na lista abaixo com os títulos originais, tradução para o Português e datas de composição:

· The Grimness of the Sea, “A Violência do Mar”[2] (1912)

· The Tides, “As Marés” (4 de dezembro de 1914)

· Sea-Chant of an Elder Day “Cântico Marítimo de um Tempo Antigo” (janeiro de 1915)

· Sea-Song of an Elder Day “Canção Marítima de um Tempo Antigo” (março de 1915)

· The Horns of Ylmir ”As Trombetas de Ylmir” [3] (Setembro 1917)

Infelizmente o material com os rascunhos não foram publicados integralmente. Apenas alguns versos e a versão final de “The Horns of Ylmir” foram publicados no livro The Shapping of Middle-earth, o quarto volume da série História da Terra-média. (ver p.213-218).

Inicialmente o poema não era parte do Legendarium, pelo fato de que em 1912 a ideia de criar uma mitologia ainda não estava completamente sedimentada na mente de Tolkien. Em uma de suas visitas a sua tia, em St. Andrews, ele escreveu um poema curto intitulado “The Grimness of the Sea” (A Violência do Mar). Posteriormente ele anotou nas margens “núcleo original de “Canção Marítima de um Tempo Antigo” (1912) (St. Andrews)”.[4] Até o momento esse poema ainda não foi publicado.

Tolkien tinha uma relação sentimental muito forte com o Mar. Em vários momentos ele passava férias em praias e eram momentos de grande felicidade e descontração, onde ele podia estar com pessoas queridas e presenciar a beleza da natureza. Desde essa época pode-se ver que o mar era uma fonte de inspiração para Tolkien.

Em agosto de 1914, a convite do Padre Vincent Reade, Tolkien passou as férias na região da Cornualha, onde realizou expedições pelo local e visitou o mar. O tempo que passou no local trouxe forte influência na vida do Tolkien. Diversas conexões com as lendas locais e relações com viagens marítimas, terras estranhas desaparecidas, fadas e elfos, foram uma mistura de curiosidades colhidas que mais tarde formariam seu legendarium.

No mês seguinte, em 24 de setembro de 1914, Tolkien escreveu seu primeiro poema relacionado ao legendarium e a partir de então começou a escrever sobre o legendarium. As pesquisas sobre viagens marítimas e relações com lendas antigas foram se intensificando para formar as primeiras histórias.

Lembrando de sua viagem para a Cornualha em agosto daquele ano, em 4 de dezembro de 1914, Tolkien continuou a trabalhar no poema “The Grimness of the Sea” (A Violência do Mar), agora dando um novo título “The Tides” (As Máres) e escrevendo no manuscrito “Sobre as Costas da Cornualha”. Assim, o poema foi transformado com ideias que teve ao contemplar o mar das praias da Cornualha.

O poema continuou a ser desenvolvido no ano seguinte. Em janeiro de 1915 Tolkien revisou o poema “The Tides” (As Máres) e colocou um novo título “Sea-Chant of an Elder Day” (Cântico Marítimo de um Tempo Antigo), que em inglês antigo chamou “Fyrndaga Saéléop”. Sobre esse poema, Humphrey Carpenter expressou que ele seria “baseado nas lembranças das férias de Tolkien na Cornualha alguns meses antes”. Então poema teria ainda forte influência daquela viagem.

A diferença fundamental entre o poema “The Tides” e o “Sea-Chant of an Elder Day” está na quantidade de versos, enquanto o primeiro tem 40 o segundo tem 50 versos, e em algumas mudanças pontuais.

Na biografia escrita por Humphrey Carpenter é possível ler os versos 13 aos 18 do poema de um total de 50 linhas, encontradas em um manuscrito. A tradução brasileira feita por Ronald Kyrmse, que não observou as rimas originais provavelmente para dar enfase às informações do poema, traz o seguinte o seguinte texto:

Numa obscura, perigosa região, por cujos grandes caminhos tempestuosos

Não ouvi o som de vozes humanas; naqueles mais antigos dos dias,

Sentei-me na arruinada margem do ecoante mar de voz profunda,

Cuja música de rugidos e espuma arrebentava em infinda cadência

Na terra, sitiada para sempre em uma eternidade de assaltos,

E rompida em torres e píncaros e cavernas de grandes abóbadas.[5]

 

Tolkien acreditou que o poema estava bom o suficiente para ser apresentado a um grupo de amigos. Foi assim que em março de 1915 ele leu sua versão revisada do poema em um encontro do Exeter College Essay Club.  Continuando a desenvolver o poema, Tolkien alterou novamente o título para “Sea-Song of an Elder Day” (Canção Marítima de um Tempo Antigo) e enviou uma cópia para apreciação de seu amigo G.B. Smith.

As críticas quanto ao poema não pareciam ser positivas. Ao receber o poema e outros já escritos, G.B. Smith apresentou os versos aos seu amigo H.T. Wade-Gery, um poeta de Oxford, que achou o poema “Sea-Song of an Elder Day” um pouco exagerado em algumas partes, embora bom em algumas outras.

Segundo Humphrey Carpenter, o outro amigo de Tolkien também membro da T.C.B.S teve suas críticas ao poema. Tolkien mostrou o poema a Christopher Wiseman que disse que “lhe lembravam a crítica de Symons a Meredith, “quando comparou M. a uma senhora que gostava de usar todas as suas joias após o desjejum”. E da mesma forma que H.T. Wade-Gery,  Wiseman também aconselhou: “Não exagere.”

No entanto, nem todas as críticas ao poema foram negativas Em fevereiro de 1916, Dona Owen ao ter contato com esse e outros poemas de Tolkien teceu elogios e perguntou se achava interessante publicar os poemas.

Ao que parece as críticas tiveram um peso sobre a atuação de Tolkien nesse poema. Ele praticamente abandonou as revisões. Além disso, teve que iniciar os treinamentos militares para a Primeira Guerra Mundial, o que o distanciou ainda mais desse poema.

Tolkien começou a estruturar seu legendarium criando uma língua própria que chamou de Qenya. E depois foi formulando preceitos básicos do legendarium e as histórias dos elfos e dos deuses de sua mitologia.

Ao escrever “A Queda de Gondolin” no final de 1916 e início de 1917, Tolkien já tinha desenvolvido boa parte de suas ideias sobre o legendarium, porém teria que desenvolver as temáticas e a própria língua criada, além de revisar alguns de seus antigos poemas que poderiam fazer parte desse conjunto de histórias.

Foi assim que entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 1917, Tolkien novamente reescreveu seu poema “Canção Marítima de um Tempo Antigo”, agora aumentando a quantidade de versos para 70. Além de mudar o título para “The Horns of Ylmir” ou “The Horns of Ulmo” (As Trombetas de Ulmo). No manuscrito ele escreveu “31 Agosto 2 de Setembro 1917, Hopital Hull”.

Com essa nova versão do poema, agora fazendo parte de seu legendarium, Tolkien acrescentou personagens e elementos nos versos, para formar assim um texto coerente com o que já havia escrito em “A Queda de Gondolin”.

Assim, o título do poema passou a ser “The Horns of Ylmir from The Fall of Gondolin” (As Trombetas de Ylmir de A Queda de Gondolin). E logo abaixo do título um cabeçalho explicando a origem interna do poema: “Tuor recorda uma música cantada para seu filho Eärendel, as visões que as conchas de Ylmir outrora clamavam diante dele no crepúsculo na Terra dos Salgueiros”.[6]

O poema “A Trombeta de Ulmo” parece ter sido considerado como canônico por Christopher Tolkien, tendo em vista que ao editar a versão conhecida de O Silmarillion, permaneceu o seguinte parágrafo que menciona a música feita por Tuor para Eärendil:

muitos foram os versos que cantaram à sombra dos salgueiros de Nan-tathren. Ali, Tuor compôs para Eärendil, seu filho, uma canção que falava da vinda de Ulmo, o Senhor das Águas, às praias de Nevrast, num passado remoto. E o anseio pelo Mar despertou em seu coração, e também no de seu filho. (Capítulo XXII, De Tuor e da queda de Gondolin)

É interessante observar a origem do anseio pelo Mar de Tuor e Eärendil.Algo parecido com o que o próprio autor sentia em relação ao Mar e que se ampliou com a viagem para a Cornualha em agosto de 1914.

O poema “The Horns of Ylmir” foi publicado na integra no livro The Shapping of Middle-earth, o quarto volume da série História da Terra-média. (ver p.215-217).

Tuor e Ulmo

 

——————————————————-

NOTAS:

[1]  Na versão brasileira da biografia de Tolkien escrita por Humphrey Carpenter, publicada em 1992 pela editora Martins Fontes, o tradutor Ronald Kyrmse optou pelo título “Cântico do Mar de Dias Antigos”. Na edição em espanhol da mesma biografia a tradução ficou “Canto Marino de un Día Mayor”. Enquanto que na edição espanhola do livro The Shaping of Middle-earth o título foi traduzido como “Canto Marino de un Día Antiguo”. Há várias possibilidades de tradução para o português: “Canto/Cântico/Canção”, “do Mar/Marinho/Marítimo”, “de Dias Antigos/de um Tempo Antigo/de um Velho Dia”. Nesse texto optou-se por traduzir o título como “Cântico Marítimo de um Tempo Antigo”
[2] A palavra “Grimenss” pode ser traduzida de diversas formas como “Severidade”, “Fúria”, “Ferocidade”, ”Braveza”.
[3] Los Cuernos de Ylmir
[4]‘original nucleus of ‘The Sea-song of an Elder Day’ (1912) (St Andrews)’. He will date another manuscript to ‘1912 (sometime)’.
[5] In a dim and perilous region, down whose great tempestuous ways /I heard no sound of men’s voices; in those eldest of the days, /I sat on the ruined margin of the deep voiced echoing sea /Whose roaring foaming music crashed in endless cadency /On the land besieged for ever in an aeon of assaults / And torn in towers and pinnacles and caverned in great vaults.
[6]“Tuor recalleth in a song sung to his son Eärendel the visions that Ylmir’s conches once called before him in the twilight in the Land of Willows”.

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather

Deixar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: