Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

A Técnica da Narrativa em Abismo nas obras de J.R.R. Tolkien

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by Eduardo Stark

Antes de ler esse artigo é recomendável ler o artigo “A Terra-média é o passado mitológico do nosso mundo”.

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O presente texto não tem a pretensão de ser um estudo aprofundado sobre as técnicas que o professor J. R. R. Tolkien utilizou em seus textos, tem apenas o objetivo de apresentar os conceitos básicos e uma explicação geral de alguns dos vários métodos utilizados nos livros de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Assim, não se pretende utilizar os métodos de análises literárias com uma tecnicidade acadêmica.

Dentre complexas técnicas e formas de escrita, Tolkien apresenta uma multiplicidade de autores de sua obra. Existe para ele o Autor Interno (que são personagens do próprio mundo imaginário) e o Autor Externo (o próprio Tolkien da vida real).

Em um ponto de vista interno, dentro do próprio mundo imaginário, as histórias narradas em O Hobbit e O Senhor dos Anéis são registros feitos a partir da memória dos personagens que viveram as aventuras descritas. Assim, Bilbo e Frodo Bolseiro e outros Hobbits registraram seus feitos e compilaram em tomos chamados de o Livro Vermelho do Marco Ocidental.

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Frontispício de O Senhor dos Anéis

Tendo em vista que Tolkien considerava as histórias da Terra-média como sendo um passado mitológico do nosso próprio mundo, o autor se inclui dentro da linha do tempo desse mundo secundário. Ele não é apenas o autor das histórias em nossa realidade (Autor Externo), mas é também um personagem do seu mundo na figura de um tradutor que encontrou os registros dos dias antigos e traduziu para o Inglês moderno.

Como fica evidenciado no frontispício de O Senhor dos Anéis:

“O Senhor dos Anéis traduzido do livro vermelho do Marco Ocidental por John Reuel Tolkien. Aqui está contada a história da Guerra do Anel e do Retorno do Rei conforme vista pelos hobbits”.

Então O Hobbit e O Senhor dos Anéis são os relatos das aventuras sob o ponto de vista dos hobbits que participaram das aventuras. Diferentemente de O Silmarillion, em que se apresentam as histórias como sendo escritas com o ponto de vista dos elfos ou humanos de Númenor.

Nessa linha Tolkien escreveu em 1951 uma carta para Milton Waldman afirmando o seguinte:

“Assim como presume-se que as Lendas elevadas do início sejam a visão das coisas através de mentes Élficas, a história intermediária do Hobbit assume um ponto de vista praticamente humano — e a última história combina-os”. (Carta 131).

Tolkien desenvolveu uma interessante teoria literária a respeito do Mundo Secundário e o Mundo Primário, no ensaio “Sobre Contos de Fadas” e para dar ênfase a essas ideias o professor utiliza diversas técnicas em seus livros, em especial a Narrativa em Abismo e a técnica In media res.

A Narrativa em Abismo aplicada no Senhor dos Anéis

 

A Narrativa em Abismo, Narrativa Incorporada, Narrativa em Camadas (também chamada em francês de “Mise em abyme” ou inglesa “Story within a story” e “Narrative Embedding”) é uma técnica literária em que uma personagem dentro de um texto narrativo passa a ser o contador de um segundo texto narrativo emoldurado pelo primeiro.

Essa “história dentro da história” pode ser usada em todos os tipos de narração como novelas, peças de teatro, programa de televisão, filmes, poemas, músicas e ensaios filosóficos.

Esse recurso literário pode ser facilmente associado à imagem de um espelho que reflete em seu meio um espelho menor, que por sua vez reflete um espelho ainda menor e assim por diante.

Como exemplo há o capítulo “O Conselho de Elrond”, em O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel. Nessa parte da história Frodo Bolseiro participa de uma importante reunião com os representantes dos povos livres da Terra-média. Nesse momento Gandalf narra como foi o seu encontro com Saruman e como ele descobriu sua traição.

A figura abaixo tenta representar essa ideia do “livro dentro de um livro”:

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Na maior parte do livro, Tolkien apresenta três camadas da história. Mas nesse capítulo, o professor apresenta basicamente quatro camadas:

1º Camada – Tolkien como tradutor do Livro Vermelho do Westron para o Inglês Moderno.

2º Camada – Frodo como autor do Livro Vermelho do Marco Ocidental, apresentando suas memórias das aventuras.

3º Camada – O Conselho de Elrond narrado dentro do livro como um acontecimento da história, em que Gandalf passa a narrar o seu encontro com Saruman.

4º Camada – História de como Gandalf e Saruman se encontraram e foi descoberta a traição.

Outra forma de representação pode ser feita por meio de círculos dentro de círculos:

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Em uma primeira leitura da obra, grande parte das pessoas toma como base de entendimento apenas a 3º e 4º Camadas. Essa seria a leitura rotineira e natural, pois uma análise de todos os quadros exigiria uma maior atenção, que é geralmente adquirida com uma segunda ou terceira leitura critica ou mesmo quando se pretende usar o texto como fonte de informação do legendarium.

 

 A técnica “In medias res”

 

Existe também a técnica literária chamada “In medias res” (do latim “no meio das coisas”), em que a narrativa começa no meio da história, em vez de no início e os fatos anteriores são contados pelos personagens no decorrer da história ou em uma analepse (também chamado flashback).

Essa técnica é utiliza com muita frequência nos grandes épicos clássicos, tais como A Ilíada e a Odisseia (Homero), A Eneida (Virgilio) e em outros livros modernos nesse mesmo estilo Os Lusíadas (Camões), Paraíso Perdido (de John Milton). Era frequente o uso também nos épicos frequentemente lidos por Tolkien, tais como o Nibelungenlied, o Kalevala, Beowulf e outros.

Como estudioso desses grandes épicos, provavelmente Tolkien se inspirou muito nessa técnica literária. Prova disso é que em várias situações descritas nos livros O Hobbit e O Senhor dos Anéis pode se verificar essa técnica do In Medias res, com as modificações devidas para o estilo próprio do autor e o texto em forma de prosa.

Tolkien em 1958

Tolkien em 1958

A aplicação dessa técnica, de uma forma modificada, pode ser analisada em O Hobbit logo no início do Capítulo XVIII – A Viagem de Volta. Em que Bilbo Bolseiro acorda em meio aos destroços da Batalha dos Cinco Exércitos sem saber o que havia se passado e só descobre os fatos da batalha posteriormente.

Algo semelhante ocorre no início do capítulo Muitos Encontros (O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel), em que Frodo acorda em Valfenda e encontra com Gandalf e só descobre o que aconteceu com ele e seus amigos depois.

O professor Tolkien utilizou essa técnica para dar a sensação ao leitor de que ele está acompanhando a aventura junto com o personagem. Ou que a história está sendo narrada conforme a visão do personagem principal que descobre os acontecimentos durante a própria aventura.

Não se pode confundir a técnica do In Medias res com o fato de O Senhor dos Anéis ter uma história anterior contada em O Silmarillion. E também essa técnica não se confunde com a Narração em Abismo, embora ambas possam coexistir em uma mesma narrativa.

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  • Cesar Augusto Machado

    Eu adorei este artigo. A Narrativa em Abismo fica ainda mais impressionante com um artifício que o Professor usava muito: fazer citações a um passado que o leitor desconhece. Em o SdA, Aragorn canta sobre Lúthien e Beren, Elrond, Gandalf, Galadriel e outros, se referem as primeiras eras do mundo… coisas que “aconteceram de determinada forma com determinadas pessoas”. Isto dá um efeito de verossimilhança entorpecedor… a história vai ficando mais profunda camada após camada. É o estilo do Tolkien que eu mais gosto.