Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

A opinião de Tolkien sobre As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

by Eduardo Stark

Durante muitos anos o professor J. R. R. Tolkien foi amigo de C.S. Lewis, conhecido autor da série de livro As Crônicas de Nárnia. Era uma amizade que passava pelo campo pessoal intimo e tendo até mesmo fortes discussões intelectuais.

C.S. Lewis foi um grande entusiasta das obras de Tolkien. Ele teve acesso aos escritos antes de serem publicados e foi o primeiro a escrever uma resenha sobre O Hobbit e também sobre O Senhor dos Anéis.

Nessas resenhas publicadas em jornais da época, Lewis não poupou elogios aos livros de seu amigo Tolkien. Mas então vem a dúvida se o professor Tolkien teria tido a mesma recepção quanto aos livros de C. S. Lewis, em especial sua obra de fantasia As Crônicas de Nárnia.

Esse artigo tem o objetivo de analisar a opinião de Tolkien sobre essa obra, com base em fontes primárias e secundárias. Mostrando de forma clara e sincera a opinião do professor sobre as obras de As Crônicas de Nárnia.

As fontes primárias são as duas cartas de Tolkien que expressam sua opinião sobre o tema. Já as fontes secundárias são os relatos de pessoas próximas de Lewis e Tolkien que se lembram da repercussão de Nárnia entre os dois.

Evidentemente que o presente artigo não visa denegrir ou desaconselhar a leitura de As Crônicas de Nárnia. Ao contrário, recomenda-se a leitura até mesmo para se perceber a noção de desgosto ou gosto de Tolkien em relação a essa obra, que é certamente um clássico da literatura de fantasia, mesmo com as falhas apontadas por Tolkien.

A origem de As Crônicas de Nárnia

A amizade de C. S. Lewis e Tolkien começou em 11 de maio de 1926, em um encontro casual em Oxford. Desde então era frequente as reuniões em bares ou em suas próprias casas.

Em 1937 foi publicado O Hobbit de J. R. R. Tolkien e o sucesso literário foi rápido. Uma das primeiras resenhas publicadas em jornais foi escrita justamente pelo C. S. Lewis ao Times Literary Supplement,  em 2 de Outubro de 1937, com o titulo “A World for Children”. Nessa resenha Lewis traça elogios à obra de Tolkien, mostrando que não havia precedentes para definir o Hobbit:

Definir o mundo de O Hobbit é, obviamente, impossível, porque é um mundo completamente novo. Você não pode antecipá-lo antes de estar lá, e uma vez que está, nunca mais consegue esquecê-lo.

C.S. Lewis entendia que o Hobbit podia ser lido tanto pelas crianças quanto pelos adultos, tamanha era a profundidade colocada na obra de Tolkien e conclui que seria um clássico com o passar do tempo:

Deve ser entendido que esse é um livro para crianças somente no sentido de que ele pode ser lido desde a mais nova infância. Alice é lido de forma grave por crianças e como algo engraçado por adultos; O Hobbit, por outro lado, será mais engraçado para os leitores jovens e, apenas anos mais tarde, na décima ou décima primeira leitura, será possível perceber a profunda reflexão e estudos vigorosos que foram utilizados para que tudo fosse tão maduro e tão amigável, e de sua própria maneira, tão verdadeiro. Previsões são perigosas: mas O Hobbit pode muito bem se tornar um clássico.

Mas a ideia de se criar um mundo e histórias de fantasia não surgiu com o Hobbit, foi algo que cresceu com o professor Tolkien ao longo de toda a sua vida. Desde 1914 ele se empenhava em desenvolver seu mundo próprio com todas as características e línguas etc.

E com o sucesso do Hobbit seu empenho começou a se aprofundar ainda mais, tentando ampliar o pequeno mapa do norte da Terra-Média e dando consistência ao mundo. Nesse tempo todo, Tolkien reescrevia, editava e até abandonava manuscritos inteiros.

narnia-poster-with-Aslan

Era um trabalho de busca de algo que fosse completo e polido da melhor forma. O mundo criado deveria ter uma lógica consistente e uma coerência interna para proporcionar o realismo ou ao menos a sensação de credibilidade das histórias.

Nesse tempo, C.S. Lewis teve acesso aos manuscritos e também presenciou a leitura feitas pelo próprio autor. Conforme o Tolkien escreveu na carta 276:

C. S. Lewis foi uma das únicas três pessoas que até agora leram tudo ou uma parte considerável de minha “mitologia” das Primeira e Segunda Eras, que já havia sido construída nas linhas principais antes de nos encontrarmos. Ele possuía a peculiaridade de gostar que lhe lessem as histórias. Tudo o que ele sabia de meu “material” foi o que sua ampla mas não infalível memória guardara de minhas leituras para ele como meu único público. (Carta 276)

Não há certeza quanto a data, mas ao que parece a ideia de escrever um livro de fantasia para crianças veio a mente de Lewis em um dia que tomava um café da manhã com a Sra. Moore e Maureen, possivelmente entre setembro de 1939 e março de 1940.

Nessa época Lewis já tinha lido o Hobbit e feito a resenha para o jornal, além disso teve acesso aos primeiros escritos de o Silmarillion e estava escutando os primeiros textos de o Senhor dos Anéis.

Em várias reuniões com outros amigos Tolkien costumava ler algum capítulo de sua obra e Lewis certamente ficava encantado. Isso pode ter acendido o desejo de escrever sua própria história de fantasia.

Em 1947 foi publicado o livro Essays Presented to Charles Williams, em homenagem ao falecido Charles Williams, amigo de C. S. Lewis e por extensão também de Tolkien. Nesse livro foram reunidos diversos ensaios sobre literatura, dentre eles o On Fairy-Stories “Sobre Contos de Fadas” de Tolkien.

Nesse ensaio, Tolkien apresenta suas ideias sobre os Contos de Fadas, traçando suas origens e como eles devem ser encarados. Há uma parte dedicada a relação das crianças com esse tipo de literatura.

Entre aqueles que ainda têm sabedoria suficiente para não achar que contos de fadas são perniciosos, a opinião comum parece ser a de que existe uma ligação natural entre as mentes das crianças e os contos de fadas, da mesma ordem da ligação entre os corpos das crianças e o leite. Creio que isso é um erro; na melhor das hipóteses um erro de falso sentimento, e portanto um erro cometido mais frequentemente por aqueles que, seja qual for seu motivo particular (como não ter filhos), tendem a enxergar as crianças como um tipo especial de criaturas, quase uma raça diferente, e não como membros normais, embora imaturos, de uma determinada família e da família humana em geral. (Sobre Contos de Fadas, Tolkien, in Àrvore e Folha, Wmf Martins Fontes, 2014).

Nesse mesmo livro, Lewis escreveu o ensaio “On Stories” em uma espécie de complemento ou abordagem diferenciada ao que Tolkien havia escrito em “On Fairy-Stories”. No ensaio, Lewis cita como referência o Hobbit, o que aponta a preferência por esse livro como um padrão no gênero.

Mostrando a influência recebida do Hobbit e o ensaio “Sobre Contos de Fadas” Lewis escreveu em 1952 o texto “Três Maneiras de Escrever para Crianças”, publicado postumamente em 1966 em “Of Other Worlds”, com edição de Walter Hooper:

A associação dos contos de fadas e histórias fantásticas com a infância é um fenômeno local e acidental. Espero que todos já tenham lido o ensaio de Tolkien sobre os contos de fadas, que talvez seja a contribuição mais importante que alguém já tenha dado a esse tema. (Três maneiras de escrever in As Crônicas de Nárnia, Wmf Martins Fontes, p.745)

Entre 1948 e 1949 o professor Tolkien havia finalmente concluído O Senhor dos Anéis. Porém iria demorar alguns anos até que sua obra fosse revisada e publicada, o que veio a ocorrer apenas em 1954 e 1955.

Antes de começar a escrever As Crônicas de Nárnia, Lewis teve uma intensa atividade literária ligada a Tolkien diretamente. Ele tinha lido O Hobbit, o ensaio “Sobre Contos de Fadas”, bem como os manuscritos de O Silmarillion e o Senhor dos Anéis.

Assim, em 1948 C.S. Lewis decidiu fazer o mesmo que Tolkien vinha fazendo, escrever livros de fantasia ambientados em um mundo criado, porém sem ser tão criterioso como Tolkien.

Em carta escrita para Laurence Krieg, em 21 de Abril de 1957, C. S. Lewis afirmou que escreveu os livros sem ter formado antes as ideias primárias de seu mundo. Ou seja, ele escreveu um livro após o outro sem imaginá-los anteriormente. Para Tolkien isso era inconcebível. Era necessário primeiro formar o mundo para depois formar suas histórias (ou tudo isso ao mesmo tempo).

A série não foi planejada de antemão como ela pensa. Quando escrevi O Leão eu não pensava que eu ia escrever mais. Então escrevi P. Caspian como uma sequela e ainda não achava que haveria mais, e quando tinha terminado O Viagem senti-me bastante certo de que ele seria o último. (The Collected Letters of C. S. Lewis, Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, Vol III, Edited by Walter Hooper, Harper San Francisco, p. 846)

As Crônicas de Nárnia foram escritas para o agrado de um público infantil e por isso o autor adotou uma forma de escrita mais simplificada e sem tanto apego a pretensão de colocar um realismo nas histórias.

As histórias infantis que se pretendem “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças. Quanto a mim, nunca achei que o mundo real pudesse ser igual aos contos de fadas. (Três maneiras de escrever para crianças In As Crônicas de Narnia wmf, p.742).

Lewis publicou entre os anos de 1938 e 1945 três livros que ficaram conhecidos como a “Trilogia Cósmica”, em que o personagem principal é uma espécie de alegoria ao próprio Tolkien, um filólogo.

Esses livros foram escritos em uma espécie de parceria com o Tolkien, em que o mesmo se comprometia a escrever sobre uma história com viagem no tempo e o Lewis sobre viagens cósmicas. Contudo, Tolkien não terminou seus textos, ao contrário de Lewis que terminou e publicou a série de livros. Além disso, Lewis ainda dedicou para Tolkien o livro “Cartas de um Diabo a seu aprendiz” publicado em 1942, mostrando seu afeto e amizade.

A composição da série, no geral, fluiu com facilidade. Apesar de seus crescentes problemas pessoais e profissionais, Lewis conseguiu escrever cinco dos sete romances entre o meio de 1948 e o primeiro semestre de 1951. Seguiu-se um período estéril, antes de Lewis começar a escrever A última batalha no fim de 1952, obra que foi concluída no semestre seguinte. O último volume a ser escrito foi O Sobrinho do mago, que Lewis nitidamente achou mais problemático do que os outros livros da série. Embora Lewis começasse a esboçar essa obra logo depois de terminado o texto de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, ele não a completou antes de março de 1954. (A vida de C.S. Lewis. Do ateísmo às terras de Nárnia. Alister McGrath. p. 282)

Assim, C. S. Lewis parecia ter facilidade de escrever livros com uma rapidez que impressionava Tolkien, pois acreditava que os textos deveriam ser melhor preparados antes de se pretender publicar. Como atesta o biografo Alister McGrath:

Alguns veriam essa facilidade de redação como uma marca do gênio criativo de Lewis. Outros – sobretudo J. R. R. Tolkien – consideraram a rapidez com que essas obras foram escritas como um indicativo de sua superficialidade. Não tinham um contexto histórico consistente e eram recortes mitológicos, desprovidos de coerência. Por que, perguntava-se Tolkien, introduzir o Papai Noel na história? Ele não cabia ali. Alimentando pensamentos mais sombrios, Tolkien também sustentava de que Lewis havia tomado suas próprias ideias e inserido nas crônicas de Nárnia sem lhe dar os devidos créditos. (A vida de C.S. Lewis. Do ateísmo às terras de Nárnia, Alister McGrath.p. 282)

Tolkien percebeu que algumas de suas palavras criadas influenciaram determinados nomes nas obras de Lewis, tais como Numinor (Uma Força Medonha), Eldil (Além do Planeta Silencioso), Tur e Tinidril (Perelandra). Em carta para Dick Plotz escrita em 12 de setembro de 1965, Tolkien ressaltou essas palavras utilizadas:

Lewis, creio eu, ficou impressionado com “o Silmarillion e tudo aquilo”, e certamente guardou algumas vagas memórias dele e de seus nomes na cabeça. Por exemplo, uma vez que ele o ouviu antes de compor ou pensar sobre Além do Planeta Silencioso, imagino que Eldil seja um eco dos Eldar; em Perelandra, “Tor e Tinidril” certamente são um eco, visto que Tuor e Idril, pais de Eärendil, são personagens principais em “A Queda de Gondolin”, a primeira das lendas da Primeira Era a ser escrita. Mas sua própria mitologia (incipiente nunca completamente concretizada) era bem diferente. De qualquer forma, ela foi partida em pedaços antes de tornar-se coerente pelo contato com C. S. (Carta 276).

Isso deve ter irritado Tolkien certamente, pois para ele a criação de palavras, o uso das línguas não era algo apenas ilustrativo em seus livros. Toda a questão linguística tem um encanto próprio. Tanto é que ele afirmava que suas histórias foram criadas para serem as histórias de suas línguas criadas.

A opinião expressa de Tolkien

Até o momento, existem apenas duas cartas escritas por Tolkien que mostram sua opinião direta e clara a respeito de As Crônicas de Nárnia. Ambas mostram que o professor não gostou nenhum pouco das obras de C. S. Lewis.

Em 11 de Novembro de 1964, em carta para David Kolb, o professor Tolkien escreveu o seguinte:

É triste que “Nárnia” e toda essa parte da obra de C. S. L. deva permanecer fora do alcance de minha simpatia, tanto quanto a minha obra estava fora da dele. (Carta 265)

Nesse pequeno trecho não é possível saber as razões que levaram Tolkien a não gostar dos livros de Lewis. Contudo, isso ficou melhor evidenciado em outra carta.

Tolkien novamente mostra por que não havia gostado das obras de C. S. Lewis em uma carta não-publicada endereçada para Eileen Elgar, em 24 de dezembro de 1971:

Estou feliz que você tenha descoberto Nárnia, mas já que você perguntou se eu gostei receio que a resposta é Não. Eu não gosto de ‘alegoria’, e muito menos alegoria religiosa desse tipo. Mas essa é uma diferença de gosto que ambos reconhecemos e não interferiu com nossa amizade.

Em várias oportunidades J. R. R. Tolkien sempre se posicionou contrário ao uso de alegorias em obras de literatura. Como afirma no prefácio da segunda edição de O Senhor dos Anéis:

eu cordialmente desgosto de alegorias em todas as suas manifestações, e sempre foi assim desde que me tornei adulto e perspicaz o suficiente para detectar sua presença. Gosto muito mais de histórias, verdadeiras ou inventadas, com sua aplicabilidade variada ao pensamento e á experiência dos leitores.

Um dos motivos que levou Tolkien a não gostar de livros alegóricos é o resultado de que a obra ficaria restrita a “dominação proposital do autor”, ou seja, as margens de interpretações feitas pelos leitores (aplicabilidade) se reduziriam muito e o livro ficaria associado ao seu autor e a imposição de sua própria leitura da obra.

Apesar de não ter gostado de As Crônicas de Nárnia, Tolkien não deixou isso influenciar em sua amizade com C. S. Lewis. A prova maior disso foi o fato de Tolkien ter recomendado a artista Pauline Baynes para ilustrar os livros.

Pauline Baynes era uma jovem artista que Tolkien tinha escolhido para ser a ilustradora do livro Farmer Giles of Ham (Mestre Gil de Ham) em 1949.

Smith of wooton major pauline baynes

Ilustração de Pauline Baynes

Na biografia “Jack: C. S. Lewis and His Times”, George Sayer aponta que C. S. Lewis parecia não ter talento ou vontade de fazer suas próprias ilustrações, diferente do que Tolkien havia feito em O Hobbit. Nisso, ele aceitou a artista Pauline Baynes, talvez até em respeito a amizade que tinha com Tolkien.

Apesar disso, Lewis parece não ter gostado inteiramente das ilustrações de Pauline Baynes, em especial as artes relacionadas aos animais. Ele disse “Ela não sabe desenhar leões, mas ela é tão boa, bonita e sensível que eu não posso falar isso com ela”. É evidenciado até mesmo na questão de gosto das ilustrações o Lewis e Tolkien tinham suas diferenças.

Pauline Baynes, da mesma forma que Tolkien, se sentiu desconfortada com a alegoria estritamente cristã em As Crônicas de Nárnia e com o fato de que a comunicação com C. S. Lewis sobre as ilustrações se baseou apenas em algumas poucas cartas.

Outro exemplo de que o desgosto de Tolkien pela obra de Lewis não interferiu diretamente nos sentimentos de amizade que tinham, foi o momento em que o professor Tolkien recomendava a leitura de As Crônicas de Nárnia para sua neta Joanna Tolkien, como será visto com mais detalhes logo adiante.

Roger Green

Roger Green

Lembranças de Roger Lancelyn Green

Tolkien costumava comentar para as pessoas próximas o que achava de As Crônicas de Nárnia. Umas delas foi o Roger Lancelyn Green, que frequentava o pub Eagle and Child, em Oxford, junto com C. S. Lewis e outros amigos, os conhecidos Inklings.

A primeira coisa que Roger Green soubera a respeito foi quando, certa tarde, algumas semanas antes, Lewis lhe mencionara que estava trabalhando num livro infantil. Acrescentou:

Não sei se é bom. Minha pergunta é: devo prosseguir? Sabe, Tolkien não gosta dele. Li os dois primeiros capítulos e ele deixou bem claro que não aprovava a historia. Posso ler para você os primeiros capítulos? Veja o que acha. (O Dom da Amizade, Tolkien e C.S. Lewis, Colin Duriez. p. 199)

Green aceitou escutar a história de C. S. Lewis e pareceu gostar do que conheceu. Mas, logo depois ele se encontrou com Tolkien e tiveram uma conversa sobre essas histórias. Tolkien lhe disse o seguinte:

Ouvi dizer que você esteve lendo a história infantil de Jack [apelido e Lewis]. Sabe, assim não dá! Quero dizer, “Ninfas e seus costumes, a vida amorosa de um fauno” Ele não sabe do que está falando? (Green, Walter Hooper. C.S. Lewis: A Biography, p.241).

A conversa de Tolkien sobre a obra de Lewis fez com que Roger Green vise os textos sobre um outro aspecto. Foi nesse sentido que ele tentou persuadir Jack a abandonar o momento na história em que o Papai Noel aparece repentinamente. Mas não adiantou e lá está o Papai Noel aparecendo em um mundo diferente de seu contexto.

Lembranças de George Sayer

George Sayer, que conviveu com ambos os escritores, mostra que Lewis ficou realmente magoado com a posição de Tolkien tão severa. Provavelmente isso tenha abalado a amizade deles por parte do Lewis:

[Lewis] ficou machucado, espantado, e desanimado quando Tolkien disse que achou que o livro era quase inútil, que parecia um amontoado de mitologias não relacionadas. Tendo em vista que Aslan, os faunos, a Feiticeira Branca, Pai Natal, as ninfas, e o Sr. E a Srª Beaver tem origens mitológicas ou imaginativas bem distintas, Tolkien pensou que era um erro terrível colocá-los juntos em Nárnia, um único país imaginativo. O efeito foi incongruente e, para ele, doloroso. Mas Jack argumentou que eles existiam felizes juntos em nossas mentes na vida real. Tolkien respondeu: “Não em meu, ou pelo menos não ao mesmo tempo. (Sayer, George. Jack: C. S. Lewis and His Times. p. 189)

Essa ideia de mistura de várias mitologias em um mesmo mundo incomodou Tolkien que não conseguia conceber em sua mente essa possibilidade. George Sayes, sobre o assunto, ainda afirma a posição severa de Tolkien quanto as obras de Lewis:

Tolkien nunca mudou seu ponto de vista. Ele detestava tão fortemente o amontoado de figuras de várias mitologias nos livros infantis de Jack, que ele logo desistiu de continuar lendo. Ele também achava que foi escrito de forma descuidada e superficial. Sua condenação foi tão severa que há a suspeita que ele invejava a velocidade com que Jack escrevia e comparou com seu próprio método trabalhoso de composição. (Sayer, George. Jack: C. S. Lewis and His Times. p. 189).

A afirmação de que Tolkien talvez tivesse “inveja” de C. S. Lewis não parece ser apropriada. Primeiramente pelo fato de que Tolkien não escrevia visando um publico ou leitores em larga escala. Ele escrevia para si e seus familiares e não pensava em conseguir algum tipo de lucro com essa atividade, ao contrário de Lewis que tinha muita facilidade de se entender com editoras.

tolkien who

A critica se baseia na forma como a história foi construída e não em preceitos pessoais, como afirmou Tolkien dizendo que a amizade deles não se abalou por causa disso. Trata-se de uma critica de Tolkien em relação ao comportamento voltado a subcriação, como será visto adiante no texto de Humphrey Carpenter.

George Sayer ressalta novamente esses pontos no artigo “Recollections of J.R.R. Tolkien”:

[Tolkien] descreveu-o como “quase tão ruim quanto pode ser”. Foi escrito superficialmente e rápido demais (eu acho que talvez ele invejava a fluência de Lewis), tinha uma mensagem óbvia, mas acima de tudo era uma mistura de personagens de diferentes e incompatíveis mundos imaginativos. Dr. Cornelius, Father Time, A Feiticeira Branca, o Papai Noel e Dríades não devem ser incluídos na mesma história. (Sayer, George.Recollections of J.R.R. Tolkien, p.25)

Pode parecer aos leitores de fantasia atualmente que essa critica de Tolkien em relação a mistura de mitologias não tem razão. Pois esse tipo de literatura tem como uma de suas características essa diversidade de histórias, mitologias etc. Ocorre que nessa época a literatura de fantasia como conhecemos atualmente simplesmente não existia, já que Tolkien e também Lewis foram precursores desse gênero literário.

Mas para uma compreensão do que Tolkien pensava sobre essa mistura de mitologias e mundos diferentes, basta imaginar um momento onde Harry Potter aparece em meio a uma batalha das casas Lanister e Stark das Crônicas de Gelo e Fogo e que nessa mesma batalha Gandalf aparece junto com a Sociedade do Anel.

Lembranças de Walter Hooper

Walter McGehee Hooper é um escritor católico norte americano que foi secretário pessoal de C. S. Lewis no último ano de sua vida, e após a morte dele se tornou defensor das obras e um importante biografo. Hooper teve contato direto com o professor Tolkien e se lembra do seguinte:

O Professor Tolkien uma vez me disse que achava os elementos cristãos nas histórias Narnianas muito “óbvios.” Mas eu acho que isso é devido ao fato de que ele não apenas conhecia a Bíblia melhor que a maioria de nós, mas começou a entender até onde Lewis estava “chegando”. Julgando pelo que eu escutei, apenas cerca de metade dos leitores de Lewis achavam que Aslan significa Cristo – e que metade disso são igualmente crianças e adultos. (Hooper, Walter. Narnia: The Author, the Critics, and the Tale. p.110)

Tolkien era certamente um católico praticante e conhecia bem a Bíblia. Isso certamente auxiliou no momento de se descobrir os elementos cristãos na obra de C. S. Lewis, a ponto dele achar óbvio demais.

Do mesmo modo, Clyde S. Kilby, que conheceu Tolkien e C. S. Lewis, lembra também que “Tolkien considera que o elemento Cristão em Lewis é muito explicito”. (Kilby, Clyde S. Mythic and Christian. p. 132).

Lembranças de Robert Murray

Robert Murray é um padre católico que se tornou amigo pessoal de Tolkien por muitos anos. Ele ministrou a missa de sétimo dia de Tolkien e escreveu o obituário para The Tablet. Nesse jornal Murray lembra o seguinte:

[Tolkien] reagiu com uma forte aversão às incursões na ficção alegórica por seu amigo próximo C. S. Lewis. (Murray, Robert. A Tribute to Tolkien. p.15).

Interessante, o ponto em que Murray lembra de quando recebeu um livro das mãos do próprio Tolkien:

De fato, Tolkien foi muito insistente no sentido de que os contos de “Faerie” (Fadas) deveriam ser contados para seu próprio fim e não por qualquer “mensagem” que poderia dizer: “Aqui está um pouco de vento contrário ao Lewis que eu escrevi” (quando me entregou o Ferreiro de Bosque Grande [Smith of Wootton Major] como um presente de Natal). (Murray, Robert. A Tribute to Tolkien. p.15).

Tolkien começou a escrever o texto de Ferreiro de Bosque Grande no ano seguinte a morte de C. S. Lewis quando foi convidado para escrever um prefácio para uma nova edição do livro A Chave Dourada de George MacDonald.

C. S. Lewis reconhecia George MacDonald como uma influência em sua obra infantil, então pode ser provável que ao escrever seu texto de Ferreiro de Bosque Grande Tolkien tenha pensado em toda a repercussão das Crônicas de Nárnia e decidido fazer um contraponto a isso.

Lembranças de Joanna Tolkien

Joanna Tolkien é filha de Michael Tolkien (1920-1984)  e neta de J. R. R. Tolkien. Boa parte de sua infância e juventude ela pode conviver com o professor Tolkien. Ela se lembra do seguinte:

Quando estava com minha avó e avô na 99 Holywell, e depois na Sandfield Road, me foi entregue de sua estante os livros de Nárnia de C. S. Lewis, The Borrowers de Mary Norton e os Contos de Fadas de Andrew Lang. O fato de ele me direcionar a ler esses livros antes de O Senhor dos Anéis é talvez uma indicação de sua humildade. (Joanna Tolkien Speaks at the Tolkien Society Annual Dinner, Shrewsbury, p. 34).

Essa é a demonstração de que mesmo não tendo gostado de Nárnia, Tolkien tinha a compreensão de que talvez as crianças pudessem gostar de ler, ou que ao mesmo tempo tinha ainda a estima por ter sido uma obra escrita por um velho amigo.

Lembranças de Nan C. Scott

Em Junho de 1966 Nan C. Scott e William O. Scott visitaram os Tolkiens em Oxford. Durante esse momento, de acordo com a memória de Nan Scott:

[Tolkien] expressou seu desgosto pelos livros de ‘Nárnia’ de C. S. Lewis por causa de sua natureza alegórica. Ainda mais limitante do que alegoria religiosa, uma interpretação da literatura próxima da política era o seu ódio especial. E ele falou com desprezo de críticos que tentaram reduzir a Guerra dos Anéis a um caso análogo da Segunda Guerra Mundial, tendo Hitler como Sauron, o Senhor do Escuro. (‘A Visit with Tolkien, The Living Church, 5 February 1978, p. 12).

Novamente Tolkien falou sobre a questão do uso da alegoria em Crônicas de Nárnia, demonstrando sua forte oposição a isso e mantendo a ideia que adotou desde o inicio. Provavelmente Tolkien associava a sua lembrança de C. S. Lewis a toda essa questão das alegorias.

Eagle and Child

Eagle and Child

Humphrey Carpenter explica por que Tolkien não gostava de Nárnia

No livro que traça o perfil dos Inklings, Humphrey Carpenter dedica alguns parágrafos para falar sobre as razões que levaram Tolkien a não gostar de As Crônicas de Nárnia. É importante ressaltar essa análise por que Carpenter foi o biografo oficial de Tolkien e teve contato pessoal com várias pessoas que conheceram o professor.

Tolkien foi, por sua própria admissão, um homem de simpatias limitadas. Faltava-lhe desejo habitual de Lewis para estar entusiasmado com o trabalho de um amigo, simplesmente porque ele era um amigo. Ele julgou histórias, especialmente histórias nesta veia, por padrões severos. Ele não gostava de obras de imaginação que foram escritas às pressas, inconsistentes em seus detalhes, e nem sempre eram totalmente convincente em sua evocação de um “mundo secundário”. Esta foi uma das razões por que tinha levado os últimos onze anos para escrever O Senhor dos Anéis, que ainda não tinha terminado no momento em que Lewis começou a escrever O Leão. Cada ponta solta, cada detalhe da história – a cronologia, a geografia, mesmo a meteorologia da Terra-média – tinha que ser coerente e plausível, de modo que o leitor (como Tolkien desejou) tomasse o livro em um sentido como história.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa afronta contra todas essas noções. Tinha sido escrito muito às pressas, e esta pressa parecia sugerir que Lewis não estava levando o negócio da ‘sub-criação’ com o que Tolkien considerava com uma seriedade adequada. Houve inconsistências e pontas soltas na história, enquanto que além das demandas imediatas da trama a tarefa de fazer Narnia parecer ‘real’ não pareceu interessar Lewis. Além disso, a história emprestada tão indiscriminadamente a partir de outras mitologias e narrativas (faunos, ninfas, Papai Noel, animais falantes, qualquer coisa que parecia útil para a trama) que, para Tolkien a suspensão da descrença, o entrar em um mundo secundário, era simplesmente impossível. (Carpenter, Humphrey. The Inklings, p. 223-224).

De forma sintética, Carpenter mostrou que toda a questão não foi pessoal. Tolkien fez uma análise literária e sabia diferenciar a sua amizade de seus preceitos da literatura.

Conclusão

1 – Tolkien influenciou o processo de criação da obra fantástica de Lewis, direta ou indiretamente.

2 – Existe apenas duas cartas conhecidas em que Tolkien expressa sua opinião sobre As Crônicas de Nárnia. Em que ele claramente demonstra que não gostou. Dos pontos mais importantes destaca-se:

  • ESCRITA SUPERFICIAL – Tolkien considerou As Crônicas de Nárnia muito superfiais e descuidadas. Isso por que segundo ele foram escritos rápidos e sem se aprofundar em aspectos que pudessem tornar a obra mais realista ou mais coerente.
  • MISTURA MITOLÓGICA – Tolkien não gostou da mistura de mitologias de várias épocas e lugares sem nenhum tipo de padrão, apenas pela conveniência do escritor.
  • ALEGORIA RELIGIOSA – Tolkien não apoiava nenhum tipo de alegoria e muito menos alegoria religiosa em uma obra de fantasia, que pareceu muito obvio em Crônicas de Nárnia.

3 – Apesar de não ter gostado de As Crônicas de Nárnia, Tolkien recomendo a Pauline Baynes para ilustrar os livros de C. S. Lewis. Bem como emprestava primeiro os livros de Lewis para sua neta Joanna Tolkien, e muito depois recomendava a leitura de O Senhor dos Anéis.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

Carpenter, Humphrey. The Inklings. George Allew and Unwin, London, 1978. p. 223-224.

Duriez, Colin. O Dom da Amizade, Tolkien e C.S. Lewis.

Green, Roger Lancelyn, Walter Hooper. C.S. Lewis: A Biography. Revised Ed. San Diego: Harcourt, 1994.

Hooper, Walter. Narnia: The Author, the Critics, and the Tale. The Longing for a Form: Essays on the Fiction of C. S. Lewis. Ed. Peter J. Schakel. Kent: The Kent University Press, 1977. P. 105-118.

Kilby, Clyde S. “Mythic and Christian Elements in Tolkien.” Myth, Allegory, and Gospel: An Interpretation of J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, G.K. Chesterton, Charles Williams. Ed. John Warwick Montgomery. Minneapolis: Bethany Fellowship, 1974. p. 119-143.

Lewis, C. S. Três maneiras de escrever para crianças in As Crônicas de Nárnia, Wmf Martins Fontes, São Paulo, 2009. p. 742 e 745.

___ A World for Children. Times Literary Supplement, 2 de Outubro de 1937.

___ The Collected Letters of C. S. Lewis, Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, Vol III, Edited by Walter Hooper, Harper San Francisco, 2006.

McGrath, Alister. A vida de C.S. Lewis. Do ateísmo às terras de Nárnia. Mundo Cristão, São Paulo, 2013 p. 282.

Murray, Robert. A Tribute to Tolkien. Obituary. The Tablet. 15 September 1973. P.15.

Sayer, George. Jack: C. S. Lewis and His Times. San Francisco: Harper and Row, 1988.

___. “Recollections of J.R.R. Tolkien.” Proceedings of the J.R.R. Tolkien Centenary Conference 1992 (Mythlore 80/Mallorn 30). Ed. Patricia Reynolds and Glen H. GoodKnight. Milton Keynes and Altadena, CA: Tolkien Society, Mythopoeic Press, 1995. p. 21-25.

Scott, Nan C.L. Tolkien–Hobbit and Wizard. In Eglerio! In Praise of Tolkien, ed. Anne Etkin. Greencastle: Quest Communications, 1978. P. 77-81.

___. A Visit with Tolkien, The Living Church, 1978, p. 12

Tolkien, J. R. R. As Cartas de J.R.R. Tolkien. Ed. Humphrey Carpenter, Christopher Tolkien, Arte e Letra, Curitiba, 2008.

Tolkien, Joanna. Joanna Tolkien Speaks at the Tolkien Society Annual Dinner, Shrewsbury, April 16 1994′, Digging Potatoes,Growing Trees, vol. 2, 1998, p. 34.

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather

9 comentários

  1. Maluco da Cabine /

    Eu acredito q as obras de Lewis fictícias como um todo, possuem um teor muito mais filosófico q do Tolkien. Como ficção as obras de Tolkien são muito mais bem fundamentadas, diferentemente de Lewis q permite a imaginação do leitor guiar a leitura . Quando lemos a Trilogia cósmica de Lewis isso fica muito claro, a qual todo fã de Tolkien deve ler pq o personagem principal é uma homenagem de Jack(Lewis) ao amigo. A diferença, é q Tolkien vê o mundo mitológico de forma muito divergente da forma de Lewis. Acredito q Tolkien ñ suportaria ler livros com A Batalha do Apocalipse ou Deuses Americanos de Neil Gaiman. Tanto Lewis quanto o Tolkien tinha uma força de opinião muito bem definida. E mesmo tendo tamanhas divergências no ponto de vista de como uma Mitologia interage no meio social, eles convergiam na ideia do Cristianismo Puro e Simples. Para mim Tolkien é o Pai de toda Ficção Épica moderna e Lewis é o Tio. As Crônicas de Nárnia é um livro muito mais polêmico e diferente do q Tolkien possui muito profundidade no sentido filosófico,critico e moralista. Com tudo esta perdendo espaço pois n deixa de ser uma alegoria Cristã e o mundo de hj está se afastando dessa mentalidade “Cristã Culta” q Tolkien e Lewis compartilhavam. Pois apesar de ñ aprovar uma alegoria Tolkien era Cristão. E essa era uma das bases da amizades desses dois gênios q revolucionaram o mundo.

  2. Felipe Rocha Rodrigues /

    Grandiosa matéria, pessoal. Estão de parabéns. Mas eu desconhecia a opinião de Tolkien a respeito de Nárnia, mas eu deveria ter chegado a essa conclusão sendo que ele expressa sua opinião no Prefácio de O Senhor Dos Anéis ( Volume único ou A Sociedade Do Anel). Mas ficou muito bom mesmo. Vlw

  3. Matheus Julio /

    Mas realmente é uma coisa que eu não havia parado pra pensar. O fato de unir várias mitologias em um livro, representar religião e até mesmo papai noel é surreal. Hahaha Sem querer diminuir CS que é tao bom escritor quanto Tolkien. Talvez a grande diferença entre os dois seja a extrema fé que Lewis tinha, e o amigo não. Sobre as cronicas de gelo e fogo: Seria ótimo saber uma opinião de Tolkien sobre, pena que n deu tempo dele chegar a ler.

    • Maluco da Cabine /

      Tolkien era extramente religioso tbm, foi até Tolkien quem converteu Lewis. Eles tinha apenas divergências filosóficas.

  4. Matheus Julio /

    Well, obrigado pela informação. Eu realmente não sou ligado em datas. Fiquei surpreso com a critica dele, até pq eu acho as crônicas de Nárnia incrível. Acho que o fato de CS ser muito religioso e representar Aslam como Jesus o irritou um pouco. No entanto, sendo amigo comp eram, é evidente que Lewis tenha ficado deveras chatiado com a opinião de Tolkien.

  5. Matheus Julio /

    Nossa, ele foi muito rígido nessa crítica, ainda mais sendo C.S amigo pessoal dele. Eu tenho minhas duvidas se ele chegou a ler Harry Potter e as cronicas de gelo e fogo. Se deu tempo, será que ele gostou ? Otima matéria, por sinal. 🙂

    • Vinicius Rocha /

      Com “ele” você se refere à Tolkien? ‘-‘
      Se sim, é evidente que não, uma vez que Tolkien morreu em 1973 e o primeiro livro da série Harry Potter (Harry Potter and the Philosopher’s Stone) foi lançado em 1997, vinte quatro anos depois. O primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo foi lançado um ano antes, em 1996.

  6. Manoel Delgado Jr /

    Sou admirador de Tolkien e Lewis. Considero porém a obra ficcional de Tolkien muito superior. Contudo reconheço que o elemento religioso também está na obra de Tolkien e penso que ele faz empréstimo de figuras e imagens mitológicas, fazendo alterações para dar coerência ao seu mundo ficcional. A mitologia nórdica é percebida na obra de Tolkien, a egípcia também, existem elfos e anões… enfim na obra de Tolkien existem referências mitológicas. O elemento religioso para mim torna-se “óbvio” em Tolkien por que estudo teologia, mas não considero que ele seja evidente para todos. Da Bíblia Tolkien retira várias idéias especialmente na forma de conectar eventos históricos e linguísticos. Penso que a teoria sobre a formação dos idiomas de Tolkien tenha ligação com as suas leituras do Pentateuco. Conceitos como a árvore da vida, messias, providência, ressurreição, Deus supremo, anjos, bem e mal, a sua ideia de mal como corrupção do que foi originalmente criado bom, redenção por meio do sacrifício, tudo retirado da Bíblia. Ainda que não diretamente por uma mera alegoria, indiretamente por meio da reformulação destas imagens. O que seria de Silmarilon sem o Gênesis e de o Senhor dos Anéis sem o Pentateuco e o Apocalipse? Sobre a alegoria não a considero de todo ruim. Jhon Bunnyan é um exemplo extraordinário deste gênero. Suas obras são elegantes e profundas.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Análise – J. R. R. Tolkien – Albergue dos Livros - […] que se conheceram em 1926 (para saber mais sobre a amizade de Tolkien e Lewis consultar o site: <http://tolkienbrasil.com/artigos/colunas/eduardostark/a-opiniao-de-tolkien-sobre-as-cronicas-de-narn…>.…

Deixar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: