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A família Tolkien e o Império Brasileiro

by Eduardo Stark

O autor J.R.R. Tolkien é hoje conhecido mundialmente por suas fantásticas obras e por suas adaptações cinematográficas. Mas, muito antes dele, outros membros de sua família tiveram relativo sucesso no Brasil.

A relação do Brasil com o Reino Unido está vinculada por séculos. Inicialmente o reino de Portugal era aliado da Inglaterra na luta contra as forças de Napoleão, que haviam invadido boa parte da Europa continental no inicio do século XIX.

Com isso, Dom João VI decidiu instalar o seu reino no Brasil e se deslocou para esse país com o auxílio da Inglaterra. Contudo, alguns anos depois, seu filho Dom Pedro I declarou que o Brasil deveria ser um país independente. Foi então instaurado o Império Brasileiro. Nesse processo de independência a Inglaterra teve papel importante, na medida em que influenciou Portugal a reconhecer o Brasil como império em 1825. Nesse mesmo ano, Dom Pedro I assinou um acordo com a Inglaterra em que seu império era reconhecido.

Assim, entre os anos de 1822 e 1889, foi vigente no país o Império Brasileiro do Brasil. As relações com o Império Britânico eram intensamente comerciais. Foi nesse período entre 1825 e 1845 que a nossa relação histórica com os Tolkien começa.

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Imperador Dom Pedro II

Diante dessa abertura comercial e cordialidade entre as nações, foi possível que diversas famílias inglesas viessem morar no Brasil, e aqui estabelecessem empreendimentos. Provavelmente nesse período é que chegaram em navios a vapor, os primeiros pianos Tolkien.

O antepassados de J.R.R. Tolkien eram em sua maioria músicos e fabricadores de instrumentos musicais, em especial Pianos.

George William Tolkien (1784-1840) trabalhava como fabricante de óculos e determinada época começou a trabalhar com pianos. Assim, seus filhos tiveram a iniciativa de fabricar esse instrumento.  A família Tolkien passou a ser conhecida por seus pianos de alta qualidade e os comercializava por todo o Reino Unido e o mundo.

George Tolkien teve vários filhos, dentre eles destacamos três: John Benjamin Tolkien, Henry Tolkien e Septimus Tolkien.

John Benjamin Tolkien (1807-1896) foi um fabricante de pianos, professor e compositor. John Tolkien foi pai de Arthur Tolkien, que por sua vez gerou o nosso querido professor Tolkien.

Piano John Benjamin Tolkien

Piano John Benjamin Tolkien

Além de John, seus dois irmãos Henry Tolkien e Septimus Tolkien também trabalhavam com a fabricação de Pianos e escreviam músicas. Eles se apresentavam em Londres e tinham um sucesso interessante entre o público inglês.

Com o sucesso dos pianos no Império Britânico e a abertura comercial com o Brasil, foi assim que chegou a América latina os primeiros exemplares de pianos da família Tolkien. Famílias inglesas compravam os pianos e quando vieram a residir no Brasil os transportavam nas mudanças com os navios a vapor.

Não há um número preciso de quantos pianos Tolkien chegaram no império de Dom Pedro II, mas pelo menos três itens são mencionados em jornais antigos.

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Henry Tolkien, tio avô do autor do Hobbit

Henry Tolkien

O primeiro é o “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, que em 22 de março de 1859 (terça-feira) publicou informe de leilão de um piano desenvolvido por Henry Tolkien. O informe foi reproduzido no mesmo jornal nos três dias seguintes da mesma semana. O mesmo anuncio foi publicado no jornal Correio Mercantil por três vezes, a cada dia de 22 a 24 do mesmo mês e ano.

O informe do Leilão apresenta o seguinte:

LEILAO de ricos moveis na Ponta do Caju

Southam fará leilão, sexta-feira 25 do corrente, dia desocupado, às 10 e meia horas em ponto, na residência de uma família ingleza que retirou-se no último vapor para a Europa, casa nobre sita na Ponta do Caju, no alto do morro, perto do desembarque das barcas, de todos os SUS ricos moveis de mogno e jacarandá, magnífico piano do celebre autor Henry Tolkien de 6 ¾ oitavas, de mui harmoniosas vozes, que sustenta admiravelmente a afinação, ricos guarda-roupas de mogno mássico e vinhático, cama grande com colunatas com assento de palhinha e exergão de molas para casados, lavatórios, um grande com pedra mármore e um grande espelho, mesas, dita de jantar, sofás, secretaria de mogno, comodas, almofadas, uma grande e elegante mesa de bilhar de érabbl guarnecida de madeira setim, com tacos, bolas, marcador, etc., casquinhas, prata, crystaes, vidros, candelabros de bronze com mangas e pingentes, vasos, castiçaes, etc., etc.O catalago distribuído no dia do leilão dará mais amplas informações.

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Pelo fato de estarem vendendo sua casa e tudo o que tinha dentro, demonstra que essa família estava querendo voltar para a Inglaterra de forma imediata. Não se pode supor o que motivaram, mas talvez as tensões políticas da época entre os Impérios Brasileiro e Britânico tivesse uma relação com esse fato.

Em agosto de 1845, o Império Britânico publicou a lei que proibia o trafego e venda de escravos no mar atlântico, chamado Slave Trade Suppression Act, conhecido no Brasil como Bill Aberdeen. No Brasil ainda existia o comércio de escravos com a África e diante desse ato ocorreu vários incidentes diplomáticos entre os impérios. Entre os anos de 1845 e 1851, a marinha britânica apreendeu centenas de embarcações brasileiras que realizavam tráfico de escravos. Algumas dessas embarcações estavam em mar territorial brasileiro, mostrando uma intervenção maior.

Diante da pressão inglesa, o Brasil então proibiu o tráfico de escravos no mar atlântico, através de uma lei de 1850, conhecida Lei Eusébio de Queiroz. Contudo,  cresceu um sentimento ‘anti-britânico’ no Brasil e os ingleses já não se sentiam mais a vontade como antes no país.

Essa tensão decorrente dos conflitos diplomáticos pode ter chegado até essa família inglesa que tinha o piano Tolkien e isso implicou na sua saída imediata do país. O ano do informe de venda do piano é de 1859 e pouco tempo depois ocorreu a maior crise diplomática entre os países, que quase resultou em uma guerra entre o Império Brasileiro e o Império Britânico, na chamada Questão Christie (Nessa o Brasil estava com a razão!).

O que chama atenção no informe são as gentis palavras do anunciante “magnífico piano do celebre autor Henry Tolkien de 6 ¾ oitavas, de mui harmoniosas vozes, que sustenta admiravelmente a afinação”. O anunciante parece ter conhecimento de que o criador daquele piano é alguém notável, conhecido e que sua obra é de alta qualidade.

O leiloeiro H. Southam, era conhecido por seu contato com as famílias inglesas e norte americanas. Ele realizava leilões com itens das famílias daqueles países e vendia itens importados. Ele tinha herdado o trabalho do seu pai Samuel Southam, que também realizava leilões e venda de carvões e algodão.

Além dessa menção nos jornais do século XIX, existe ainda outra ocorrida em 27 de setembro de 1929, no jornal O Fluminense, do Rio de Janeiro. Nesse anúncio, novamente um piano feito por Henry Tolkien estava sendo vendido. Não se sabe se era o mesmo mencionado anteriormente.

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Septimus Tolkien

Outra menção de um piano da família Tolkien, aconteceu no sábado, 7 de agosto de 1909, no jornal “A Provincia”, em Pernambuco. O anúncio assim diz:  “O agente Paiva, autorisado por mme. Carmem Lodez que se retira para Europa, venderá em leilão todos os moveis e mais objectos acima descriptos que se recommendam pelo seu bom estado de conservação”.

E logo acima o anúncio diz o seguinte:

“Agente Paiva Agencia Rua dr. Rosa e Silva n. 49 Bom leilão Domingo, 8 do corrente Um piano forte inglez do fabricante Septimus Tolkien, 1 boa mobília austríaca torneada com palha no encosto, 2 chics espelhos ovaes, um esplendido guarda-vestidos, moderno toilette-meio americano, importante guarda-louças com suspensão e mármore, magnífico aparador com pedras, solida mesa elástica oval, moderna cama para casal, commodas, candieiros, porcellanas, vidros, quadros, biscuits, 1 flauta e 1 flautim etc”.

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O mesmo anuncio foi reproduzido novamente em 8 de agosto de 1909 no mesmo jornal.

O fato de ser um anúncio de um estado diferente do primeiro, demonstra que os pianos Tolkien podiam ser encontrados em diversas partes do país, e que não era apenas uma venda casual para uma família inglesa. Além disso, pode ser observado que esse piano mencionado foi feito por Septimus Tolkien (1826-1912), que tal como seus irmãos John e Henry, trabalhava na confecção de pianos e com música.

Após essas pequenas e rápidas menções sobre os Tolkien no Brasil. As próximas noticias estão relacionadas ao professor J.R.R. Tolkien, que teve sua primeira menção em jornais brasileiros em 1940 (isso será tema de outro artigo).

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PARA SABER MAIS SOBRE A RELAÇÃO DO BRASIL E O PROFESSOR J.R.R. TOLKIEN Acesse os seguintes artigos:

Uma saudação de Priscilla Tolkien para os brasileiros! (Carta que recebemos da filha de J.R.R. Tolkien)

 A História de Kullervo e a contribuição brasileira para ser publicado! (Como um brasileiro ajudou na ideia desse  livro ser publicado internacionalmente).

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