Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

A Associação Montfort e a análise equivocada sobre Tolkien ser gnóstico

Frodo e o Um anel

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

Esse é um breve artigo em que trato sobre a atuação da instituição Montfort em relação a Tolkien e suas obras. Recentemente alguns de seus membros tomaram posições precipitadas em relação a analisar a obra de Tolkien e dizer que ele era um Gnóstico.

Primeiramente é importante ressaltar que não se trata de um ataque em relação à instituição Montfort, que representa uma das poucas instituições que buscam apresentar a visão tradicional do catolicismo (visão que o próprio Tolkien provavelmente defenderia se estivesse vivo). Os ensinamentos de Orlando Fedeli e sua esposa Ivone Fedeli são certamente proveitosos para quem deseja entender com profundidade a Igreja Católica. Acrescento ainda que Ivone Fedeli é doutora em Literatura Portuguesa pela USP (2007) e também doutora em Filosofia pela PUC de São Paulo.  Em se tratando de analisar as obras de Tolkien, talvez a professora Ivone Fedeli fosse mais gabaritada, pois a mesma disse em palestra sobre literatura que nem todas as obras ficcionais são prejudiciais aos católicos tradicionais. Foi pesquisado se o Orlando Fedeli falou algo sobre Tolkien enquanto estava vivo, mas não foi encontrado.

Esse é um dos raros momentos que se pode ter um debate intelectual em um bom nível na internet e é por isso que foi dedicado tempo e espaço para abordar o tema sem ter como foco aspectos pessoais, até mesmo por que não nos conhecemos.  Assim, de modo algum o presente é algo ofensivo a instituição como um todo, mas é endereçado especificamente a alguns de seus membros que devem ter se equivocado nessa avaliação, e que se procuram as virtudes elencadas por Hugo de São Vitor, certamente irão raciocinar novamente quanto ao tema e abandonar uma visão equivocada sobre Tolkien.

A seguir será feita uma breve apresentação de pontos da vida católica do Tolkien que pode auxiliar na compreensão de sua fé.  Depois é apresentado o relato sobre a disputa intelectual em torno do Tolkien e a Gnose que surgiu no estrangeiro. Por fim, a atuação de um dos membros da Montfort em propagar o equivocado texto. Análises sobre Tolkien e a Gnose propriamente serão feitas em um outro artigo com o tema específico.

 

Aspectos preliminares

Desde sua infância Tolkien foi um católico devoto. Tendo herdado de sua mãe a fé religiosa e sido criado por um Padre Jesuíta (veja mais sobre o Padre Francis Morgan AQUI). O padre que praticamente foi um segundo pai, chegou a ser bem próximo do Beato Cardeal Henry Newman e aprendeu com ele boa parte de suas ideias que transmitiu a Tolkien.  Assim, Tolkien manteve sua fé dentro de um aspecto tradicional (veja mais sobre Tolkien ser um católico tradicional AQUI). Ocorre que nem sempre o fato de ser um católico devoto e tradicional implicaria em dizer que ele não cometeria pecados. Certamente, Tolkien era um ser humano como qualquer outro e tinha seus momentos de glória e derrota. Muito embora, alguns já buscam sua canonização (veja mais AQUI).

Sem dúvida Tolkien teve uma educação clássica e exemplar em relação a Idade antiga e medieval. Ele se notabilizou como um dos maiores medievalistas e o maior especialista em Anglo-saxão de sua época. Da mesma forma, seus estudos religiosos eram afirmados em bases sólidas como a patrística, a vida do santos e especialmente os manuscritos que ele mesmo traduziu para o Inglês. Ele até mesmo foi tradutor da Bíblia de Jerusalém em sua versão em Inglês (veja mais AQUI). Exigiria muito esforço elencar aqui as diversas atividades que o autor do Senhor dos Anéis realizava em prol da Igreja Católica. Basta dizer que ele era um católico admirado até mesmo por padres e seu filho mais velho se tornou Padre Jesuíta (e também exorcista).

Na época que O Senhor dos Anéis teve grande sucesso literário (década de 50 e 60 do século XX) poucas pessoas sabiam que o autor era um católico tradicional. Tanto que muitos jovens que aderiam a ideias da “Nova Era” e dos movimentos “Hippies” achavam que Tolkien era um jovem escritor ou mesmo algo similar a Aldous Huxley.  Apenas os mais atentos fãs e que estivesse disposto a procurar entender sobre a vida de Tolkien descobriam atordoados que ele era um senhor de idade e católico.  Com a publicação da biografia autorizada de Humphrey Carpenter em 1977, o grande público teve maior conhecimento sobre a vida de Tolkien e percebeu-se a sua fé católica com maior intensidade, muito embora a bigrafia de Carpenter tenha sido a mais laica possível. Com a publicação das Cartas de J.R.R. Tolkien ficou evidenciado o quanto ele era católico.

Enquanto C.S. Lewis foi estudado como apologista cristão no século XX, Tolkien foi negligenciado. Eram poucos os estudos comparativos de sua obra com aspectos religiosos, muito embora diversos artigos em periódicos de fãs tenham sido feitos. Com o lançamento dos filmes de Peter Jackson e a maior busca por aprofundamento livros inteiros foram lançados e que tratam sobre a relação das obras e vida do Tolkien com sua religião.

Uma nova linha de livros sobre Tolkien foi então reaquecida. Desde 1998 com a publicação do livro “Tolkien: homem e Mito” de Joseph Pearce, em que se conta a vida do Tolkien com um maior enfoque cristão, novos livros foram publicados a cada ano e são atualmente mais de 30 títulos, cada um com tema diferenciado, mas  vinculado a religião nas obras do Tolkien.  Esses diversos livros e teses que foram sendo apresentados nos últimos vinte anos comprovavam a ortodoxia das obras de Tolkien.  Demonstram o quanto o autor foi cuidadoso em colocar aspectos católicos em sua obra de forma implícita e alguns até evidentes.

Por parte de Tolkien existia um certo temor que suas obras fossem contraditórias a dogmas ou preceitos cristãos. Foi por isso que ele mesmo revisou seus textos e mudou muitas coisas que poderiam ser mal interpretadas. Além disso, ele contou com leitores de seus manuscritos que eram naquela época grandes autoridades no meio cristão: C.S. Lewis e Padre Robert Murray.

C.S. Lewis leu as obras principais do Tolkien (O Hobbit, o Silmarillion e o Senhor dos Anéis) e foi o primeiro a escrever uma resenha a respeito dos livros. Ao que parece, não deve ter encontrado algo que fosse evidentemente contrário a fé cristã. Além disso, o Padre Robert Murray (professor e doutor em patrística) leu O Senhor dos Anéis antes de sua publicação e constantemente tratava com Tolkien sobre os aspectos religiosos na obra. (veja mais sobre o Padre Murray que faleceu recentemente AQUI).

Um dos livros mais importantes que tratam sobre a ortodoxia das obras de Tolkien é o “The Flame Imperishable” publicado em 2017 pela editora Angelico Press, de autoria de Jonathan S. Mcintosh, que originalmente foi sua dissertação para PH.D. na Universidade de Dallas, Texas em 2009. Nesse livro, o autor analisa a obra de Tolkien conforme as ideas de Santo Agostinho e especialmente São Tomás de Aquino, ambos foram fontes para a criação do legendarium do Tolkien.

The Flame Imperishable

Importante ressaltar, que atualmente nos E.U.A e na Europa em geral, Tolkien é estudado por católicos tradicionais e as obras estão presentes em bibliotecas de diversas instituições renomadas.

Em resumo, Tolkien teve uma educação católica aos moldes da educação clássica. Foi praticamente criado por um Padre Jesuíta, que foi próximo de um beato (quase santo, pois o segundo milagre está em exame) Cardeal Henry Newman. Tolkien se tornou um dos maiores especialistas em período medieval e línguas em sua época. É complicado duvidar do nível de conhecimento teológico que ele tinha, pois era parte de sua vida diária estudar os santos e documentos da Igreja, inclusive em suas línguas originais latim, grego, hebraico, aramaico etc.

 

O inicio da controvérsia

Quando se atinge grande projeção surgem logo aqueles que estão dispostos a apenas atacar sem entender do que fala. Diversos vídeos e textos que acusam as obras e Tolkien de todo tipo de heresias ou paganismo, mas normalmente não são levados em consideração, pois em geral partem de fraco embasamento ou texto sem lógica. 

Em 2013 surgiu uma dúvida levantada por um suposto ‘Padre’ que seria tradicional. Ele é um “suposto padre”, pois se manteve Anônimo em um áudio divulgado pelo canal no youtube Sensus Fidelum. O que por si já é uma vergonha para a Igreja se ele realmente for um padre tradicional. O que diriam tantos santos mártires que jamais negaram sua fé e que estavam dispostos a evidenciar sua fé mesmo diante da morte? Agora, um suposto padre com temor de criticas na internet (algo bem comum hoje em dia) se mantém anônimo para uma suposta proteção pessoal. É importante lembrar o que Santo Antonio Maria Claret disse a respeito “Neste ano fui caluniado e perseguido por toda classe de pessoas, pelos jornais, por folhetos, por livros parodiados, por fotografias e por muitas outras coisas e até pelos mesmos demônios. Um pouquinho, às vezes, ressentia a natureza, mas me tranquilizava logo e me resignava e me conformava com a vontade de Deus. Contemplava Jesus Cristo e via quão longe estava eu de sofrer o que Jesus Cristo sofreu por mim e assim me tranquilizava”. Espanta mais ainda que católicos deem credito a um texto de alguém anônimo (nesse caso, um sinônimo de covarde) e que considerem seus argumentos sem examinar com mais profundidade o tema.

O próprio canal Sensus Fidelium deve ter percebido o equivoco do que foi falado sobre Tolkien e apagou os dois vídeos com as conferências do suposto Padre. Atualmente na internet existe apenas os textos publicados pelo site Rorate Coeli (veja AQUI) com o título “The Fantasy of Tolkien was Catholic!… Well not so fast..”, que por sua vez diz que aquela não é a posição do próprio site “essa não é a posição da Rorate Caeli, mas são argumentos de um padre tradicional” (this is not the position of Rorate Caeli, but arguments by a traditional priest). Além disso, nesse mesmo canal do Youtube Sensus Fidelium é possível ver vários vídeos do Dr. Peter Kreeft, um renomado apologista católico que escreveu livros sobre Tolkien. Além disso, o canal Sensus Fidelium tem também uma palestra do próprio Joseph Pearce (veja AQUI) que é alvo da crítica toda.

O texto publicado no site Rorate Caeli apresenta muito mais argumentos com base no que Joseph Pearce disse sobre a obra de Tolkien, do que a própria fonte. Dessa forma, parece ser algo muito mais pessoal e direcionado ao escritor que fala sobre Tolkien. Além disso, apresenta uma série de afirmações e conclusões que contradizem o que o próprio Tolkien dizia a respeito de sua obra.

O texto do suposto padre chega ao cúmulo de afirmar que as obras de Tolkien não chegaram a converter ninguém ao catolicismo. Isso é de uma má informação tremenda. São inúmeros os relatos de pessoas que se converteram ao catolicismo tendo como seu ponto de partida as obras do Tolkien. Diria que chega a casa dos milhares pelo mundo todo.

Um exemplo de má informação sobre as histórias de Tolkien e sobre como se deve entendê-las, o suposto padre diz que no legendarium o mundo é criado pelos Valar e apresenta seus argumentos dizendo que isso contraria a ideia de criação do mundo da Igreja:

Na criação de Tolkien, tem-se um deus criando seres espirituais ou demiurgos, semelhantes aos nossos anjos. O deus dele mostra, então, a esses semideuses o tema musical da criação e lhes pede que cantem em harmonia com esse tema. Pelo cantar deles, tornam-se partícipes da criação do mundo que vai se tornar a Terra Média para os elfos e para os homens. Chegamos em um dos problemas essenciais do mito. Como produtos de uma “imaginação extravagante”, os mitos sempre se tornam desconectados do mundo que Deus realmente criou. Como eles são mundos inventados, podemos deixar de lado o ensinamento da Igreja a propósito da criação? Em outras palavras, a heresia pode ser permitida no mundo mítico? Afinal, é só fantasia! Não, devemos insistir que fantasia ou mito não é desculpa para a heresia! Especialmente se esse mito é promovido como sendo “profundamente cristão.” O que Tolkien nos deu aqui na sua estória da criação não é católico, mas gnóstico. Os Padres da Igreja rejeitaram o ensinamento gnóstico sobre a criação, que afirma que o mundo foi feito pela intermediação de outros seres. São Tomás diz: “é impossível para qualquer criatura criar, seja pelo seu próprio poder, seja instrumentalmente, isto é, ministerialmente.” (ST Ia, 45, 5). E então ouvimos o profeta Isaías dizer: “Eis o que te diz o Senhor, que te remiu e que te formou no ventre da tua mãe: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que só por mim estendi os céus e firmei a terra; quem estava comigo?” (Isaías 44,24) O Concílio Vaticano I repetiu o dogma da criação afirmado no IV Concílio de Latrão: “criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo.” Desde já, com esse erro somente, podemos ver que o bem integral das obras de Tolkien se perdeu. Elas são perigosas para a nossa fé.

O texto do site Roate Caeli é cheio de informações equivocadas e seria um trabalho maior elencar todos os erros e apontar aqui. Talvez um trabalho para outro artigo específico. Uma das noções mais básicas de quem lê O Silmarillion é saber que APENAS ILÚVATAR PODE CRIAR. Ou seja, apenas o Deus único nas histórias do Tolkien pode dar existência a coisas a partir do nada. Aliás, toda a história do Legendarium do Tolkien gira em torno dessa noção de que somente o Deus único pode criar. O mal surge com Melkor a partir do momento em que ele deseja criar coisas e procura se igualar a Eru. Diante dessa impossibilidade Melkor então decide que ele seria o senhor das coisas criadas e que “moldaria” ao seu desejo o que se existe. Na história da criação do mundo de Tolkien os Valar não “criam” coisas a partir do nada, eles inicialmente participam da música e quem dá existência e cria tudo é Ilúvatar. Essa noção é chamada por Tolkien de Subcriação e é evidenciada no seu ensaio “Sobre Contos de Fadas”. Não entender essa noção básica demonstra que o autor da conferência não conhece um dos fundamentos das histórias do Tolkien. Ademais, no livro mencionado acima “The Flame Imperishable” de Jonathan S. Mcintosh existe um capítulo especial para análise dessa noção de criação do mundo segundo São Tomás de Aquino e Santo Agostinho e sua aplicação na obra do Tolkien, sobretudo sobre a ideia do coro dos anjos e sua participação na criação.

 

Mas afinal o que é a tal Gnose?

 

Tratar sobre o próprio conceito de Gnose demandaria um texto longo e trabalhoso. Por isso apresentamos o conceito disposto por Orlando Fedeli (o fundador do site Montfort). Outros aspectos e características da Gnose não foram levados em consideração, na tentativa de simplificar a ideia e melhor compreender o conceito, no seguinte:

A Gnose é uma doutrina herética que afirma que a Divindade é evolutiva, e que, evoluindo, caiu no mundo material. O espírito divino teria ficado aprisionado na matéria como num cárcere ou num sepulcro. Em todas as coisas haveria então uma partícula divina, que aspiraria ser libertada e retornaria à Divindade original. Para esta libertação seria necessário tomar conhecimento de que, no fundo da alma humana, há essa partícula. A evolução, pouco a pouco, permitiria uma peregrinação dessas partículas da matéria bruta para o vegetal, deste para o animal, e daí para o homem. Neste, conforme ele tivesse o conhecimento do íntimo de sua natureza divina, ela se libertaria, livrando-se do corpo material. As reencenações seriam etapas dessa libertação progressiva. A Gnose considera que o Criador do mundo seria o deus do mal, por ter criado a matéria e nela aprisionado as particulas divinas. Outras prisôes das partículas divinas seriam a inteligência e a lei moral, os dez mandamentos, que, como dizia o gnóstico Lutero, seriam a lei de Satã.

Além de usar aspectos de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, Tolkien tomou como fonte de suas histórias as ideias do filosofo Platão,, sobretudo o que consta no livro Timeu. Existe a acusação de que Platão seria a fonte da gnose. Mas é importante ressaltar que nem mesmo Platão pode ser considerado como um gnóstico. Segundo análise do professor Carlos Nougué, Platão não é considerado um gnóstico por não ter a característica fundamental da Gnose:

O característico da Gnose é considerar o Deus que fez o mundo algo ruim. Ruim por quê? por que o bom é a não manifestação. Isso é a característica da Gnose. Tudo quanto se manifesta no ser, na existência, é considerado pela Gnose algo mal. Ora, Platão estava longe disso. Até por que o Demiurgo dele era não só o feitor, o fazer dos corpos, mas, sobretudo das almas. Era ele que fazia as próprias almas e como as almas são boas, para Platão obviamente o Demiurgo era, não só bom, mas como ele dizia “o ótimo”. O Demiurgo era o verdadeiro Deus platônico. Inferior, repito a ideia suprema do uno e do bem, mas ainda assim, um Deus, não só bom, mas ótimo. Ao contrário para os Gnósticos, o deus que criou o universo, ou que o conformou, é um deus mau pelo mesmo fato de haver criado algo e tirar algo do nada para a existência. Para que se entenda um pouco o que é a Gnose, lembremo-nos do Nirvana Budista, que é o anseio de voltar ao não manifestado. Isto é gnóstico. Platão jamais teve um anseio de voltar ao não manifestado, mas de a alma liberta do corpo desfrutar na ilha dos bem aventurados por toda a eternidade. Isto é o oposto de retornar ao nada. Já que a alma não só não era nada, como era propriamente tudo. E a volta ao não manifestado jamais passou pela cabeça de Platão.” (Palestra sobre Aspectos do Estado Platônico do Prof. Carlos Nougué, que pode ser conferida abaixo).

Tal como Platão, no Legendarium de Tolkien o mundo foi criado por Ilúvatar, que considerava a criação e tudo existente como sendo algo bom. Infelizmente, até o momento, o Prof. Carlos Nougué afirmou que não leu as obras de Tolkien e que não teria, portanto, condições de tecer comentários específicos sobre suas obras. 

Assim, uma simples leitura do livro O Silmarillion, em especial o Ainulindalë, esclarece essa questão quanto ao ponto chave do gnosticismo. Na história de criação do mundo de Tolkien o mundo é criado por um Deus único (com as mesmas características informadas por São Tomás de Aquino) e ele acredita que tudo o que criou reflete algo bom. Fizemos uma análise sobre o Ainulindalë que pode ser vista nesse vídeo AQUI.

O texto do site Roate Caeli é cheio de informações equivocadas e seria um trabalho maior elencar todos os erros e apontar aqui. Talvez um trabalho para outro artigo específico.

 

 

A repercussão da conferência do suposto padre

O texto do site Rorate Coeli trouxe consequências entre os católicos tradicionais de língua inglesa. Nos E.U.A diversas pessoas perguntaram aos seus párocos se as obras de Tolkien poderiam ser interessantes aos jovens católicos. E a resposta para eles em sua grande e esmagadora maioria foi que as obras de Tolkien não era de prejudiciais. Como exemplo disso temos a nota “padre tradicional diz para esquecer aquela tolice. Tolkien OK” (“local traditional priest says forget that rubbish Tolkien OK” veja AQUI

A resposta ao texto publicado pelo site Rorate Coeli (que vale ser dito: nem eles mesmos defendem completamente e que a fonte original apagou os vídeos), foi respondido por um padre de verdade e conhecido. O Angelo M. Geiger é frade franciscano da Imaculada e é sacerdote há mais de vinte anos, tendo concluído seu curso em teologia dogmática no Angelcum em Roma em junho de 2016. Ele escreveu o texto  “Is Tolkien’s fantasy Gnostic?” (veja em inglês AQUI)  Nesse artigo o Franciscano apresenta os argumentos que explicam as ideias de Tolkien com clareza e embasado no que o próprio autor disse.

Além da resposta do padre, o próprio Joseph Pearce escreveu uma breve resposta as acusações e publicou no site “The Imaginative Conservative”, um site de escritores conservadores e cristãos. (veja o artigo AQUI). Joseph Pearce é conhecido por escrever livros sobre os cristãos do século XX. Tendo publicado uma biografia sobre Chesterton, Hilaire Belloc, Tolkien e C.S. Lewis.

Na Igreja em geral, os padres que são fãs de Tolkien continuam usando trechos e citações em suas homilias, e até mesmo as obras de Tolkien são usadas no site oficial do Vaticano, o observatório Romano. Dessa forma, Tolkien é estudado tanto entre os católicos mais “liberais” quanto os católicos mais “tradicionais”.

 

O site Montfort e o que dizem sobre Tolkien

Tratamos agora do que o site Montfort veicula sobre as obras do Tolkien. Apresentando informações em ordem cronológica.

Inicialmente é importante dizer que no início do século XX, entre os anos de 2000 e 2001, ocorreu uma controvérsia entre Orlando Fedeli e o Olavo de Carvalho. Onde Fedeli acusou Carvalho de ter ideias gnósticas. Esse fato tem repercussão na visão de alguns membros da Montfort que acabou repercutindo em Tolkien. Considerando Olavo de Carvalho como sendo um seguidor das ideias do Tolkien e por isso ambos seriam gnósticos.

Em 26 de agosto de 2004, um leitor do site Montfort (veja AQUI), denominado Bruno enviou a seguinte mensagem: “você já falou o que acha do livro Harry Potter, bem eu gostaria de saber sua opinião sobre o livro Senhor dos Anéis. Já que são dois livros diferentes e escritos em épocas diferentes”.

A resposta apresentada por Paulo Sérgio R. Pedrosa é a seguinte:

Caro Bruno, salve Maria!

O que pode pesar mais como uma crítica cristã contra o livro “Senhor dos Anéis”, de Tolkien – que aliás era católico – é o fato dele amplamente lidar com magia. Em tempos perigosos como os de hoje, onde muitas pessoas percebem a magia como algo positivo, fruto da mentalidade romântica moderna, tal leitura pode impressionar mentes menos preparadas e incentivar uma busca pelo ocultismo. Para um leitor mais atento, fica evidente o que o diferencia dos livros da série Harry Poter. Além de ser muito mais bem escrito, o livro “Senhor dos Anéis” faz uma clara distinção do bem e do mal e se passa num mundo de fantasia sem nenhuma relação com o mundo real, coisa que não acontece nos livros de Harry Poter e que os fazem infinitamente mais prejudiciais do que a obra de Tolkien.

Sancte Michael Archangele,

Defende nos in praelio.

Paulo Sérgio R. Pedrosa

Importante ressaltar que nessa época o Orlando Fedeli estava vivo e era um estudioso da gnose. Tendo livros publicados sobre o tema. Ele não contestou a resposta apresentada no próprio site da Montfort.

Em 9 de agosto de 2013, ocorreu uma palestra de Fernando Schlithler sobre a Direita e a Gnose, em que estava presente a Ivone Fedeli, esposa de Orlando Fedeli. Na palestra foi dito o seguinte sobre Tolkien:

Tolkien. Vocês conhecem o criador do Hobbit e do Senhor dos Anéis. Vaca sagrada para os Conservadores. Eu aqui falando mal dele, eu to fazendo a minha caveira. Estou frito, graças a Deus. Que eu seja perseguido. Vocês percebem que todo conservador parece que… Eles adoram. Tem um fetiche por bigode, por cigarro, por suspensório que é inacreditável. Então, essa palestra foi dada no centro do Opus Dei, que eu falei foi o seguinte, sobre o Tolkien. Um especialista em Tolkien foi orientando do Luiz Felipe Pondé, ele fala: “As histórias de fadas não são sobre as fadas, são sobre as Faerie” falando sobre o Tolkien “ou Belo Reino. A palavra que ele usa é Faerie, que é o universo das fadas, o mundo das fadas, o ambiente das fadas. Onde é? O que é esse mundo? Esse mundo é um lugar onde a gente tem acesso quando a gente ousa sonhar. Quando a gente ousa criar mitos. A mitopoeisis da arte poética do Aristóteles. Quando a gente ousa fazer isso, a gente está no Belo Reino. Quando a gente ousa, não no sentido utilitário, no sentido banal, mas quando a gente ousa se colocar plenamente na estrutura mitológica. Quando eu ouso plenamente me colocar na estrutura…” O que ele quer dizer, vou resumir, quando uma criança acredita em um conto de fadas e que aquilo tudo é verdade, se situa naquilo e começa a se ver em função daquilo, como um personagem daquela historinha e assim você vai tendo acesso aos poucos ao seu autoconhecimento. É o meio de acesso ao divino. De conjuração mágica do divino em você. Então, segundo o Tolkien, no texto que ele fala isso, a Faerie poderia ser muito bem traduzida por “mágica”. Aqui, e ele vai falar o seguinte, esses contos de fadas e esses mitos. Eles existem no mundo secundário. O mundo que a gente existe é o mundo primário. Existe o mundo secundário que é o intermediário, o mundo imaginário da gnose xiita, entre o homem e a divindade. Só que, segundo Tolkien… ai que bonito… “O Tolkien vai falar que tem uma história de fadas nesse sentido da especulação da participação que é a maior histórias de fadas de todas, que é uma história de fadas que na verdade é tão poderosa que só pode ter sido escrita pelo grande autor do universo. Nós fazemos subcriação, que é criar mitos, as histórias de fadas, mas essa história de fadas, esse desejo de explorar os confins do tempo e do espaço e de comunhão com tudo e todas as coisas vivas, tem uma história que foi contada que é real. Não é que ela foi subcriada, ela aconteceu na realidade. Qual é essa história? É cristo. É muito engraçado dizer isso, mas para o Tolkien a maior história de fadas que existe é o evangelho, por que ali você tem a expressão do autor da realidade manifestando também o seu desejo e o seu caminho de encontrar a contemplação do tempo e do espaço e a comunhão com as coisas vivas e com tudo o que existe”. Então, o homem fica criando esses RPGs, conjuram algo do divino ao que ele vai chamar de ‘estilhaçado do divino’, mas ai o próprio Deus escreveu nas histórias o RPG dele, a historinhas de fadas que seria o cristianismo. A consequência dessa tese vai dizer que o cristianismo não é uma doutrina, mas é só um fato. Quem quiser no artigo do Olavo vai estar essa questão. O C.S. Lewis também defende essa mesma coisa, o amigo do Tolkien.

Não se sabe ao certo de qual texto foi retirada a citação. Provavelmente seja uma referência ao Diego Genú Klautau, que em sua tese de mestrado na PUC-SP “O Bem e o Mal na Terra Média – A filosofia de Santo Agostinho em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien como crítica à modernidade” teve como orientador o Felipe Pondé. O problema de tal palestra é que, assim como o artigo do site Rorate Caeli, foi usado o texto de alguém que interpreta os escritos do Tolkien e não a fonte original. Ou seja, no texto do Rorate Caeli a base dos argumentos foi contra o que o Joseph Pearce escreveu sobre o que entendia das obras do Tolkien, enquanto que nessa palestra a base dos argumentos a serem refutados foi o comentário (provavelmente informal) de alguém que interpreta a obra de Tolkien. Não se usou novamente textos e citações do próprio Tolkien.  É justamente por não se ater as fontes do próprio Tolkien que muitas dessas interpretações do Fernando Schlithler e do site Rorate Caele foram equivocadas. Se buscassem conhecer mais sobre o que o próprio Tolkien falava a respeito saberiam que é um equivoco utilizar a expressão “historinhas de fadas” em um sentido que não foi empregado no texto original do Tolkien, onde ele conceitua contos de fadas e ao final distingue dos evangelhos, que considera como sendo a verdade e a maior história de todas, tanto como fato ocorrido como no plano transcendental.

No início de 2018 o Padre Paulo Ricardo realizou em seu site o curso sobre O Senhor dos Anéis. Em várias aulas o Padre apresentou suas interpretações sobre a obra do Tolkien e enfatizou os aspectos católicos na obra máxima da fantasia moderna.

Em 1 de março de 2018 foi publicado um email enviado por Heloisa Gusmão, em que se cita na integra o texto, portanto com concordância do site Montfort, o seguinte:

 “Aceitando este pressuposto, toda a obra gnóstica e fantasiosa de um autor como Tolkien, por exemplo, poderia ser equiparada aos ensinamentos da Igreja, e assim tem sido feito por um dos discípulos mais eminentes do Donato e do Olavo, o Pe. Paulo Ricardo, que recentemente disse que quem não se converte lendo O Senhor dos Anéis não é gente (sic!).”

Em 3 de março de 2018, um membro da Montfort chamado Marco Paulo realizou palestra com o título “Padre Paulo Ricardo e a Gnose de J.R.R. Tolkien” (veja AQUI) O que demonstra que não se trata de uma análise da obra do Tolkien propriamente, mas sim que ela é na verdade um instrumento para que seja feito um ataque ao padre Paulo Ricardo, por sua aproximação em relação ao Olavo de Carvalho.

E por fim, na metade de março de 2018 o site da Montfort publicou a tradução para o Português do texto do suposto padre do site Rorate Caeli. (veja AQUI).

Logo em seguida, nós do site Tolkien Brasil enviamos um email para o site Montfort evidenciado que tal texto traduzido do site Rorate Caeli contém inúmeras falácias e erros evidentes. Até o momento o email não foi respondido. Assim, foi dado a oportunidade de resposta e ainda estamos dispostos a esclarecer qualquer dúvida sobre o tema.

Fica evidenciado que algumas pessoas vinculadas a equipe Montfort tiveram ideias precipitadas com base em fontes não confiáveis. Certamente o tema sobre Tolkien e Gnose pode ser melhor explicado em outro artigo com maiores detalhes. Além disso, como já ressaltado no início, não se trata de um ataque ao site Montfort, ao qual estamos a disposição para esclarecer as dúvidas sobre o tema e se desejarem até mesmo o debate construtivo. O problema é se manter com um equivoco tamanho tendo como base o ataque a outros usando o nome do Tolkien e distorcendo as suas ideias.

Só para deixar claro. Tanto o Papa Francisco, quanto o Papa Bento XVI são leitores de Tolkien e admiradores das obras. Onde o primeiro citou O Hobbit em seus sermões e o segundo ressaltou a importância de se ler O Senhor dos Anéis e não confundir com Harry Potter.

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather

Um comentário

  1. Diego KLautau /

    “The Gospels contain a fairy-story, or a story of a larger kind which embraces all the essence of fairy-stories. They contain many marvels – peculiarly artistic, beautiful, and moving ‘mythical’ in their perfect, self-contained significance; and among the marvles is the greatest and most complete conceivable eucatastrophe. But this story has entered Histpry and the primary world; the desire ans aspiration of sub-creation has been raised to the fulfilment of Creation. The Birth of Christ is the eucatastrophe of Man´s history. The Ressurection is the eucatastrophe of the story of the Incarnation. This story begins ans ends in joy. It has pre-eminently the ‘inner consistency of reality’. There is no tale ever told that men would rather find was true, and none which so many sceptical men have accepted as true on its own merits. For the Art of it has the supremely convincing tone of Primary Art, that is, of Creation. To reject it leds either to sadnees or to wrath.” TOLKIEN, On Fairy-Stories, In: The Monsters ans the critics and other essas, 1997, HarperCollinsPublishers, London. p. 151-156.

Deixar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: