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Deveria ser como nos Portos Cinzentos! – Sandro França

by Sandro França

A morte é o grande acontecimento que assombra a maioria dos viventes durante sua existência, e assim tem o sido há muitos e muitos séculos. Acredito que desde que o homem tomou plena consciência de sua inteligência, e das possibilidades de desenvolvimento e construção, o fantasma do fim, do partir, do morrer, começou a elevar-se mais e mais como algo cruel, repentino e injusto. Talvez a maioria dos homens através das eras não almejasse necessariamente uma vida eterna, mas partiram de forma repentina não tendo jamais a sensação do dever cumprido, e pior, partindo em muitos casos para o desconhecido. Sem entrar em questões religiosas, mesmo os mais fervorosos talvez se amedrontem com o momento da “passagem para o outro lado”, da transição do que vivemos e conhecemos aqui para o desconhecido no além. A falta de algo palpável, efetivamente conhecido e principalmente, absolutamente confiável, faz com que esse processo seja assustador. Não o processo em si, posto que penso que quando morremos, não temos consciência desse passagem (ou não – risos), mas o pensar no processo é algo que nos incomoda. Saber que estamos vivendo, construindo, desfrutando da companhia de quem amamos, das coisas que nos fazem bem, nos dão conforto, e que a qualquer momento, podemos ser literalmente desligados de tudo isso, partindo numa jornada desconhecida para terras improváveis, é muito tenso. Quando o mestre Tolkien se referiu que os Numenorianos com o passar dos anos passaram a temer a morte, pois cresceram na mente e nos conhecimentos das mais diversas artes e atividades, e a existência normal deles, embora muito superior a dos homens inferiores, já não era suficiente para os saciar de seus anseios, imagino que era esse receio que permeava suas ideais. Talvez não que o próprio mestre tivesse medo da morte, mas que tenha meditado sobre o medo que acomete os homens de forma geral, e o tenha brilhantemente empregado no acaso de Númenor. Aqueles homens erram assombrados pela morte de tal forma, que a busca por estender a vida levou-os à beira da loucura, de tal sorte que levaram à cabo aquele lamentável plano de conquistar as Terras Imortais, afim de assim, tornarem-se imortais.

Mas o que fazer então para mediar isso? Como deveriam ser as coisas, para evitarmos esse processo? Viver muito mais e escolher o momento de partir? Viver eternamente? Saber como são as coisas após a morte?…Aqui temos um ponto de consequências infindáveis, pois se aos homens fosse permitido escolher o momento de partir, muitos provavelmente não o fariam tão cedo, mesmo que vivendo ou apenas sobrevivendo em condições precárias. Acredito que apenas um punhado deles tomaria a decisão de continuar vivos visando a continuidade de seus trabalhos, sua produção cultural, suas realizações sociais. A maioria, apenas tentaria se afastar do fim o máximo possível, ainda que isso o levasse a uma existência decrépita. Talvez viver eternamente fosse a solução. Mas como seria a vida do homem num curto espaço de tempo, se ele tivesse consciência de sua imortalidade? Ele evoluiria na mesma proporção? Ele se desenvolveria, ele amaria, ele se doaria em seus projetos, com a mesma paixão? Penso que não. Vejamos a situação dos elfos. Eles viviam eternamente, ou melhor, até o fim de todas as coisas, mas apenas em uma terra eterna, eles encontravam o propósito do viver eternamente. Numa terra mortal, o “viver para sempre” tornava-se, pasmem, um fardo. Não é fácil você ter a consciência de sua eternidade, vendo tudo ao seu redor nascer, crescer, e morrer. Tudo o que você mais presa, as coisas que ama, vindo e indo, ganhando e perdendo. Assim era pesaroso aos elfos viverem nesse tipo de lugar. Imagine, por exemplo, alguma paisagem natural próxima de seu lar. Como era o lugar a 300 anos? Como está hoje? Imagine ver essa transformação diante dos olhos. Aqueles bosques, aquelas florestas, aqueles campos por onde um dia caminhei, cavalguei, que tanto amava, hoje não passam de um terreno baldio, foi devorado pela construção de casas, ou deu lugar a algum shopping. Mesmo no contexto da eternidade, viver numa terra mortal é completamente triste. Por isso os elfos se cansavam da Terra-Média e seguiam pelos portos para terras imortais. Lá, longe de pranto, dor, e morte, fazia sentido o seu contexto de eternos, e a agonia causada pelo lento passar do tempo era atenuada. Penso que com os homens seria a mesma coisa. Que teríamos o mesmo destino, e que já não viveríamos com a mesma intensidade que conhecemos.

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Então talvez o mais tranquilizador aos humanos quando pensassem na hora da partida, seria conhecer efetivamente o que acontecerá depois. Se apenas é o fim e pronto, se há uma outra existência em outro plano, ou qualquer que pudessem ser os desígnios do além. Que tipo de vida eu deveria ter para merecer ir para lá. Se haveria algum preço a pagar ou não, como forma de garantir uma existência boa do outro lado. O conhecimento certo do que se seguiria, tornaria esse momento menos assustador, embora acho que a imprevisibilidade quanto ao momento, devesse continuar desconhecida, pois penso que a esmagadora maioria dos homens não gostaria de saber o momento exato de sua morte.

Mas agora deixe-me expor a vocês algo que me fascina. A forma como eu gostaria que fosse o processo. É um delírio poético, uma imagem de perfeição, pureza, relativa tristeza, mas absoluta tranquilidade e paz. Eu quero lhes falar sobre os Portos Cinzentos.

Os Portos Cinzentos, ou Mithlond na língua dos eldar, era o porto criado no início da Segunda Era pelos elfos no Golfo de Lun. De lá, os elfos que ficaram na Terra-Média após as batalhas contra Morgoth, poderiam rumar para Valinor quando se cansassem das Terras-de-Cá. O senhor dos portos era Círdan, o Armador, e provavelmente ele permaneceu lá até que a última embarcação saiu para as Terras Imortais. Eu vejo os Portos Cinzentos como um lugar de despedida. Imagine o contexto do que seria a passagem para o além, se no lugar de morrer, pudéssemos nos dirigir aos portos, e de lá, navegar para Terras Imortais, sendo este o lugar de descanso eterno para os que se foram. Seja em espírito, ou em carne e alma, termos a certeza de que, a partir dos portos, seguiríamos pelo grande mar, deixando os círculos do mundo, e ingressando no Reino Abençoado para repouso e paz. Não seria mais belo?

Imagino como seria comigo…

Eis que meus dias se alongaram, mas finalmente, chegou o tempo de ir. A idade pesava sobre meu corpo, mas consegui reunir meus entes queridos e amigos, e rumar para Mithlond. Lá, despedi-me de cada um deles, olhando em seus olhos com ternura e abraçando-os carinhosamente. Sim, haviam lágrimas, mas eram apenas pela separação momentânea. Todos ali presentes um dia fariam a mesma viagem, e tinham absoluta certeza de que voltariam a encontrar-me. Percebi que outros senhores e senhoras também estavam partindo, e igualmente a mim, seus familiares e amigos os prestigiavam na despedida. Subimos todos no barco, aquela belíssimo e bem entalhado barco no formato de um grande cisne. Era o confortável leito que nos levaria embora daquelas terras. Devagar subimos, e quando me aproximei da amurada, dei um último aceno de adeus para meus filhos, netos, amigos e minha esposa. E foi com os olhos preso neles que me afastei. Sentia uma leve tristeza em deixá-los, mas os vendo assim, tinha o coração tranquilo de que fiz o melhor possível para ser o melhor para eles. Estava cansado dos dias, e agora o mar me chamava e seduzia. Lentamente a embarcação afastou-se do cais, e devagar, rompeu as águas. O sol estava se pondo num lindo entardecer, e pelo mar, seguimos em viagem por muito tempo. A escuridão não veio, e imaginei que o dia tinha se alongado. Estava enganado. Era a luz do antigo oeste, o esplendor das Terras Imortais que impedia que as sombras se deitassem sobre aquele universo. Então finalmente avistamos…praias brancas num litoral infinito, campos e bosques a perder de vista de um puro verde, e montes imponentes e eternos erguendo-se ao fundo em azul, cinza e branco. No profundo horizonte uma alta torre brilhava prateada. Ela indicava a localização da cidade eterna. Lá estavam preparadas as nossas novas moradas, e uma gigantesca festa nos aguardava. Éramos os recém-chegados, e para toda embarcação que lá aportava, uma belíssima celebração era preparada. Agora começavam os dias de descanso. Agora começavam os dias de eterna paz!

Ah! Como gostaria que fosse como nos Portos Cinzentos!

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