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Sir Martin Gilbert e os Inkilings

Bradley j. birzer

Bradley J. Birzer é co-fundador da The Imaginative Conservative and Russell Amos Kirk, catedrático em Historia na Hillsdale College. Dr. Birzer é autor de  J.R.R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle-earth.

Durante meu tempo na Hillsdale College, tendo chegado no outono de 1999, a faculdade contratou um número de pessoas fascinantes para vir e palestrar sobre o que poderia ser considerado  constante, uma base em tempo parcial. Ou seja, esses estudiosos e escritores vinham, digamos, a cada semestre de outono e davam aulas por até três ou quatro semanas. Estes eram cursos de três créditos, em geral, intensivos e compactos.

No meu tempo em Hillsdale, tivemos luminares como Victor Davis Hanson, David McCulloch, Mark Halprin, e Sir Martin Gilbert. Eu realmente nunca cheguei a conhecer os dois do meio, mas eu tive a grande bênção de conhecer Dr. Hanson e Sir Martin. Imagino que uma série de leitores possam achar o Dr. Hanson um pouco pro-guerra demais, mas ele é uma ótima pessoa. Ele é tão brilhante quanto é bom, e adora um bom argumento. Mas uma vez que o argumento é feito, está feito. Depois, é hora de tomar uma cerveja e falar sobre tudo sob o sol, tudo em nome do bem, diversão clara.

Sir Martin, porém, vem de uma geração e mundo diferentes. Um conservador britânico tradicional, Sir Martin é o biógrafo oficial de Winston Churchill, e é também um ex-membro do governo britânico. Ele possui um charme do velho mundo que é tão atraente e ao mesmo tempo tão estranho para nós americanos. Também passou grande parte do inicio de sua carreira, no começo da década de 1950, como aluno e depois como professor na Faculdade de Merton, Oxford. Trabalhou com o famoso historiador A. J. P. Taylor. Embora agora com a saúde debilitada, Sir Martin ainda escreve em Israel e Inglaterra. Ele é, orgulhosamente, um judeu e um sionista.

Em resumo, eu fiquei repentinamente bastante feliz quando Sir Martin me convidou para o almoço, para que pudéssemos falar do meu livro sobre J.R.R Tolkien. Eu não tinha ideia de que Sir Martin mesmo sabia quem eu era, além de ser apresentado a ele em um grande ambiente acadêmico, e certamente não tinha ideia de que ele sabia que eu havia escrito um livro sobre Tolkien. Felizmente, eu concordei. No dia seguinte, 13 de setembro de 2006, Sir Martin, Lady Esther (sua esposa) e eu almoçamos juntos em Jonesville, Michigan. Acabamos conversando por duas horas e quarenta minutos.

Sir Martin Gilbert

Sir Martin Gilbert

Como se constata, Sir Martin tinha chegado a conhecer o Professor Tolkien muito bem no final de 1950 e início de 1960, muitas vezes jantando juntos em Merton College. Quando perguntei ao Sir Martin se isso aconteceu por causa de interesses mútuos, ele riu. Porque nem ele nem Tolkien eram protestantes, eles não eram autorizados a sentar-se com os outros professores e estudantes. Em vez disso, os católicos e os judeus tinham que se sentar separadamente dos protestantes. Por isso, como Sir Martin me disse, católicos e judeus sempre foram os melhores amigos. Em alguns aspectos, Sir Martin observou, os judeus se saíam melhor do que os católicos. Ser um anticatólica era algo tão arraigado no caráter Inglês, que todos os ingleses protestantes acreditavam estar no seu direito e, talvez, no seu dever, atacar intelectualmente e brutalmente qualquer Católico Romano.

Não era apenas Tolkien que Sir Martin conhecia. Ele conheceu C. S. Lewis consideravelmente bem, pois os dois homens tinham feito um curso em conjunto, oferecido privadamente aos domingos por um especialista em Salmos. Na verdade, Sir Martin está convencido de que a própria compreensão de Lewis dos Salmos veio diretamente a partir deste curso e os debates que se seguiram.

Sir Martin também conhecia bem Nevill Coghill, que foi um dos seus tutores; C.E. Stevens, um amigo historiador próximo; o biógrafo famoso, Lord David Cecil; o professor de literatura, Hugo Dyson; e J.A.W. Bennett. Mais importante, porém, Sir Martin e Christopher Tolkien ficaram muito próximos. De fato, quando Sir Martin, sua esposa e eu estávamos almoçando, Sir Martin tinha acabado de receber um convite de Christopher para visitá-lo no sul da França.

J. R. R. Tolkien jovem soldado da Primeira Guerra Mundial

J. R. R. Tolkien jovem soldado da Primeira Guerra Mundial

Durante o almoço de duas horas e quarenta minutos, Sir Martin ofereceu poucas histórias específicas sobre Tolkien. Em vez disso, ele me deu suas impressões sobre o grande homem e seus associados literários, conhecidos como os Inklings, e da Oxford de seu tempo. Aqui estão algumas das impressões de Sir Martin retransmitidas para mim durante essa maravilhosa conversa no almoço:

  • Primeiro: Tolkien simplesmente amava, gostava, e valorizava excesso de detalhes. Isso parece ter sido tão verdadeiro na sua vida pessoal e acadêmica quanto foi em sua ficção.
  • Segundo: embora Sir Martin não conhecesse a família de Tolkien além de Christopher, ele não ficava nem um pouco surpreso que Tolkien fosse conhecido por ser um homem de família e ter relações tão boas com seus próprios filhos e netos.
  • Terceiro: muitos professores em Oxford, em princípio, tinham receio de qualquer um que publicasse em qualquer forma popular, o que foi percebido ao ser negado tempo para aulas e bolsas de pesquisas.
  • Quarto: quase todos os membros dos Inklings foram considerados pelos estudantes em Oxford como os melhores entre os docentes.
  • Quinto: Tolkien foi sempre, sem exceção, um homem a seu modo. Foi tão verdadeiro em suas crenças pessoais, como foi no que escolheu vestir e como se apresentava para os outros. Em grande parte, este “individualismo” manifestou-se em todos os Inklings. Numa época em que a formalidade governou todas as relações sociais na Inglaterra, os Inklings atacavam a estrutura social muito rígida na metade do século XX.
  • Sexto: Todos os membros dos Inklings sustentavam um verdadeiro patriotismo pela Inglaterra, isto é, pela própria estrutura e solo daquele país. Igualmente importante, todos os membros dos Inklings, em algum nível, lamentavam que não tivessem morrido durante a Primeira Guerra Mundial; ou seja, cada um sofria uma culpa de sobrevivente. Em muitos aspectos, isso explica por que tão poucos falavam de suas experiências nos horrores das trincheiras.
  • Sétimo: A Primeira Guerra Mundial afetou todos os membros dos Inklings de tal maneira que palavras nunca poderiam expressar. Só falavam raramente de suas experiências durante a Grande Guerra, mas cada um deles acreditava que tinham lutado para defender não só a Inglaterra, mas a própria Civilização Ocidental.
  • Oitavo: Sir Martin se lembrou de suas refeições com Tolkien como alguns dos melhores momentos de sua vida. Se eles jantavam juntos, a conversa normalmente durava pelo menos até meia-noite. Os homens não só falavam sobre cada tópico sob o sol, mas constantemente fumavam e bebiam. Raramente falavam sobre assuntos relacionados com a academia, mas eles gostavam de piadas, humor, e especialmente trocadilhos.

Como observado no início deste artigo, a conversa aconteceu no segundo semestre de 2006. Você, caro leitor, deve, naturalmente, ser cético sobre detalhes que vêm de tais memórias distantes. Mas a minha memória é ajudada por um fato importante: no momento que eu deixei esse glorioso almoço, anotei cada única coisa que eu podia. Eu nunca disse a ninguém, a não ser meus amigos mais próximos, sobre essa conversa de almoço. Eu não estou exatamente certo porque este é o caso, mas eu acho que tem a ver com proteger um momento pessoal de tal beleza. Certamente egoísmo da minha parte. Agora que quase uma década se passou desde aquela conversa, eu absolutamente odiaria que qualquer desse conhecimento fosse desperdiçado ou perdido, ou ambos.

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Este artigo foi publicado originalmente em 21 de Janeiro de 2015, no site theimaginativeconservative.org. A publicação e a tradução para o Português foi autorizada expressamente pelo autor do artigo.

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