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Quem eram os Inklings: Uma Cartilha

Bradley J. Birzer é cofundador do The Imaginative Conservative e Professor da Cadeira de História “Russel Amos Kirk” na Faculdade Hillsdale. Ele é um “fellow” da Livraria Presidencial Ronald Reagan. Dr. Birzer é autor de Russel Kirk: American Conservative (2015, University Press of Kentucky), American Cicero: The Life of Charles Carroll, Sanctifying the World: the Augustinian Life and Mind of Christopher Dawson, J.R.R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle-earth, coeditor de The American Democrat and Other Political Writings por James Fenimore Cooper, e coautor de The American West.

Bradley J. Birzer é cofundador do The Imaginative Conservative e Professor da Cadeira de História “Russel Amos Kirk” na Faculdade Hillsdale. Ele é um “fellow” da Livraria Presidencial Ronald Reagan. Dr. Birzer é autor de Russel Kirk: American Conservative (2015, University Press of Kentucky), American Cicero: The Life of Charles Carroll, Sanctifying the World: the Augustinian Life and Mind of Christopher Dawson, J.R.R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle-earth, coeditor de The American Democrat and Other Political Writings por James Fenimore Cooper, e coautor de The American West.

 

Este ensaio foi traduzido e republicado com a graciosa permissão de The Imaginative Conservative (2015).

 

Publicado em 16/02/2016.

Traduzido por Sérgio Ramos*.

 

Ainda que qualquer pessoa que conheça algo sobre C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Charles Williams, ou Owen Barfield saiba da existência dos Inklings, o grupo continua sendo quase impossível de definir. Mesmo os membros do grupo não conseguiam identificar exatamente o que ele era ou o que significava. Em meados dos anos 40, Lewis o definiu como um grupo de “amigos literários”, que liam, “fumavam, conversavam, debatiam e bebiam juntos”, e que apresentavam uns aos outros suas obras com “críticas contundentes.” [1] Em suas cartas pessoais para sua esposa, Charles Williams descreveu o grupo simplesmente como “Magdalen”, significando a faculdade na qual Lewis tinha seus quartos. [2] Em 1955, Lorde David Cecil o chamou de “um círculo de escritores de Oxford” que “floresceu por volta de 1939, e um pouco mais tarde. Talvez não se deva chama-lo de círculo – o que soa pequeno demais. Era simplesmente que uns poucos amigos, com gostos e interesses comuns, e todos eles engajados na prática da literatura, costumavam se encontrar em Magdalen de tempos em tempos, e conversar sobre seus trabalhos, e ler para os outros o que estavam escrevendo.” [3] Um quarto de século depois, ele escreveu que nem a religião nem a política mantinha o grupo unido, pois diferenças significativas existiam entre eles. Ao invés disso, ele escreveu, sem rodeios, que

As qualidades, então, que deram aos Inklings sua personalidade distinta não eram, em princípio, suas opiniões; ao invés disso, era seu sentimento pela literatura que unificava, de forma não costumeira, sabedoria e imaginação. Seus padrões de aprendizado eram muito altos. Estudar um livro em tradução ou sem conhecimento apropriado de seu plano de fundo histórico seria para eles inimaginável. Mas – e é isso que os fazia diferentes de outros acadêmicos – eles já liam imaginativamente. Os grandes livros do passado eram para eles da mesma forma que o trabalho de um contemporâneo. [4]

Uma coisa que os mantinha juntos, a nível pessoal, continua Cecil, era C. S. Lewis.

Em uma palestra oferecida no final dos anos 60, Owen Barfield, que alegou só não ter participado de apenas dez por cento dos encontros, definiu que os Inklings têm um grupo que possui quatro partes comunicantes, cada um representando os quatro membros mais conhecidos. Lewis personificava mais o “anseio pelo infinito e inatingível”, enquanto Williams buscava idealizar o amor romântico. Ele, Barfield, acreditava completamente na “dignidade de um homem” e um progresso real ao encontro do divino no ser encarnado da pessoa humana. Tolkien era quem melhor entendia a necessidade do “final feliz” na história, bem como na realidade última. [5] Por volta de 1990, contudo, Barfield se recusou a dar uma definição específica do grupo além de umas poucas reminiscências dispersas de seu tempo com eles, algumas das quais ele experimentou diretamente e outras ele apenas ouviu falar sobre os fatos. [6]

Um bom número de estudiosos, começando nos anos 40, tentou também definir os Inklings. Os melhores permanecem sendo aqueles que ofereceram impressões ao invés de detalhes exatos. Aquelas apresentam uma poética e humana visão de um poético e humano grupo. Estes, enquanto interessantes e geralmente bem pesquisados, vêm como formas dessecadas de uma vida, o trabalho de um mero gravador mais do que um agente imbuído de imaginação e vontade livre.

O primeiro americano a tomar nota do grupo foi o Padre Chad Walsh, um pastor episcopal, poeta e professor de literatura na Faculdade Beloit, que participava de almoços às terças-feiras. “O grupo é flutuante. É provável que contenha um par de colegas de Lewis, tais como o Professor Tolkien, um ou dois estudantes, às vezes um parente de alguém ou um amigo distante,” ele registrou. [7] Então, ele ofereceu sua própria visão, aturdido apenas em retrospectiva.

Somente em retrospecto foi que percebi o tanto de terreno intelectual que estava sendo coberto nestes encontros aparentemente casuais. Na época, a agitação constante de Lewis demandando de seus amigos que enchessem as canecas vazias ou fazendo uma pausa para acender outro cigarro (ocasionalmente um cachimbo) camuflava o fluxo constante de ideias. O fluxo, devo acrescentar, não é uma via de mão única. Lewis é tão bom ouvinte como locutor. [8]

Em 1966, Charles Moorman, um professor de literatura e especialista na lenda arturiana, publicou seu trabalho acadêmico, The Precincts of Felicity: The Augustinian City of the Oxford Christians. Em seu trabalho, Moorman deu igual peso a Charles Williams e C. S. Lewis, e ele buscou encontrar uma “mente corporativa” no trabalho.

The-Fellowship-The-Inklings

O mais conhecido de todos os livros sobre os Inklings é o trabalho de 1979 de Humphrey Carpenter, The Inklings: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Charles Williams, and Their Friends. Ainda que lindamente escrito e cheio de boas histórias sobre os Inklings, a obra de Carpenter é realmente uma biografia de C. S. Lewis e fascinantes desvios biográficos sobre os outros membros do grupo. Para o bem ou para o mal, este livro, essencialmente, transformou os “Inklings” em sinônimo para C. S. Lewis. Até hoje, acadêmicos de Lewis se distinguem de acadêmicos de Tolkien insistindo que eles têm o entendimento adequado dos Inklings, o que parece ter se tornado, em retrospecto, de posse exclusiva de Lewis. Tolkien, Barfield, Hardie, Cecil e outros, ao menos aparentemente, como meros apêndices de Lewis. Como Carpenter escreveu naquele livro, “os Inklings deviam sua existência como um grupo quase que inteiramente a” C. S. Lewis. [9]

Desde 1979, como dito acima, trabalhos de um grande número de excelentes acadêmicos apareceram, seguindo em vários graus os argumentos estabelecidos em primeiro lugar por Carpenter. [10] Barfield encontrou muito a amar no livro de Gareth Knight de 1990, The Magical World of the Inklings: J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, Charles Williams, and Owen Barfield. Pelo título, Knight focou em visões heterodoxas de cada um.

Portanto, temos quatro cristãos de tipos muito diferentes produzindo um corpo de trabalho firmemente baseado em princípios mitopoéticos. A maioria de seus admiradores compreensivelmente prefere enfatizar suas ligações com ortodoxia. Contudo, eles eram, em seu efeito cumulativo, a ponta de uma profunda abordagem não apenas ao Cristianismo, mas a toda nossa visão do mundo material – porque eles identificavam e reconheciam uma consciência viva de um lado ´interior´ a ele. Por esta razão, me sinto justificado quando falo sobre ´o Mundo Mágico dos Inklings´, pois é para cá que a dinâmica mitopoética naturalmente leva; para mundos ´visíveis e invisíveis´. Além disso, eles lançaram as bases para resgatar grande parte deste país invisível dos posseiros da orla lunática que tão facilmente assusta os ortodoxos. Em apoio a minha afirmação, que espero demonstrar em pormenor nas páginas que se seguem, posso talvez citar o Professor Adam Fox, ele mesmo um membro dos Inklings uma vez, e alguém a quem os outros tiveram o prazer de ver assumir a cadeira de Poesia em Oxford. Entrevistado em 1975, ele disse: ´Eles todos tinham uma tendência ao oculto de alguma forma.´ Isto, gostaria de demonstrar, é em grande parte a causa de sua força e popularidade duradoura. [11]

Em adição a um enorme número de artigos inquirindo sobre o elemento central dos Inklings, o The Company They Keep: C. S. Lewis and J. R. R. Tolkien as Writers in Community, de Diane Pavlac Glyer, ofereceu um exame meticulosamente pesquisado do grupo. Após exaustivas leituras e escavações através dos arquivos, Glycer forçosamente conclui que os Inklings acharam inspiração uns nos outros ao invés de influência direta do pensamento e das ideias. Muito fortes em personalidade, ela afirma, cada membro dos Inklings permaneceu como seu próprio homem. Em seus diversos livros sobre os Inklings, individualmente e como totalidade, Colin Duriez chega praticamente à mesma conclusão, tirando significativamente do trabalho de Glyer em seus livros mais recentes.

O melhor livro, portanto, já publicado sobre os Inklings é The Fellowship: The Literary Lives of the Inklings (2015), de Philip Zaleski e Carol Zaleski. Dedicado ao maior humanista cristão inglês de seu tempo, Stratford Caldecott, The Fellowship respira o próprio espírito dos Inklings. A única deficiência deste belo trabalho é que ele ainda foca, principalmente, nos tradicionais quatro membros dos Inklings: Tolken, Lewis, Williams e Barfield. Em sua maior parte, os Zaleskis obtêm sucesso porque reconhecem a humildade encontrada dentro da filiação e obra dos Inklings. Particularmente, no entanto, Tolkien “desencadeou um despertar mítico e Lewis um despertar cristão.” [12] Estes despertares, os autores bem percebem, ainda não encontraram seu ponto final, pois estão continuamente oferecendo e batizando os trabalhos daqueles que os seguiram.

Notas:

[1] C.S. Lewis, “Preface,” to Essays Presented to Charles Williams (1947; Grand Rapids, MI: William B. Eerdman’s, 1966), v.

[2] Como uma de tantas referências, veja Roma A. King, Jr., To Michal from Serge: Letters from Charles Williams to His Wife, Florence, 1939-1945 (Kent, OH: Kent State University Press, 2002), 101.

[3] Rachel Trickett e David Cecil, “Is There an Oxford ‘School’ of Writing?” Twentieth Century (Junho 1955), 561-562.

[4] Lord David Cecil, “Oxford’s Magic Circle,” Books and Bookman (Janeiro 1979), 10-12.

[5] Deve-se notar que esta é uma interpretação de uma palestra dada por Barfield. Retirado de “Rand Kuhl, “Owen Barfield in Southern California,” Mythlore 1 (Outubro 1969), 10.

[6] Owen Barfield, “The Inklings Remembered,” The World and I (Abril 1990), 548-549.

[7] Chad Walsh, C.S. Lewis: Apostle to the Skeptics (New York: Macmillan, 1949), 16.

[8] Walsh, C.S. Lewis: Apostle, 16-17.

[9] Humphrey Carpenter, The Inklings: C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Charles Williams, and Their Friends(Boston, MA: Houghton Mifflin, 1979), xiii.

[10] Enquanto cada um desses autores é muito bom, tenho amizade pessoal com Duriez. Também sou muito atraído por sua exatidão e pesquisa detalhada. Apesar de todos seus livros serem bons, o melhor, a meu ver, é seu Inkling’s Handbook.

[11] Gareth Knight, The Magical World of the Inklings (Longmead, Shaftesbury, Dorset, UK: Element Books, 1990), 14-15

[12] Philip Zaleski e Carol Zaleski, The Fellowship, 510.

Artigo originalmente publicado AQUI em 29 de setembro de 2015.

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