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A mitologia e o olho de Sauron por Diego Silva

 

 

Diego Silva é Teólogo por formação, mitologista por paixão. Como professor estuda intensamente sobre história antiga, medieval e as mais diversas mitologias e culturas antigas. É um dos autores do livro Dimensões.BR e autor do livro o Guardião de grifos.

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O forjador do Um anel foi retratado por Tolkien como o antagonista em suas obras. Logo no início dos tempos, Sauron, corrompido por Melkor, mostrou interesse em ser o dominador perverso. Mas em quais traços mitológicos Tolkien se baseou para retratar Sauron a partir da 2ª era?

Após a última aliança, quando Sauron, o senhor do escuro teve o anel cortado de sua mão e deixou sua forma física, é observado que a forma mais predominante do Senhor do escuro em O Senhor dos anéis é de um olho. Devido a isso, foi inevitável a Sauron ser chamado de o grande olho, olho flamejante ou o olho sem pálpebra. A 3ª era teve seu início, onde ainda existia a presença do grande olho do mal.

Traçaremos a seguir um paralelo entre a simbologia do olho onisciente encontrado em diversas mitologias. É possível que Tolkien  tenha (de forma acidental ou proposital) usado a mitologia do Olho de Hórus quando pensou em retratar Sauron como um olho sem-pálpebra flamejante. Tolkien já disse muitas vezes que nunca desejou traçar paralelos com o mundo real em sua Alta fantasia. Ainda assim, seus estúdios concordam que, Tolkien desejando isso ou não, os paralelos estão lá.

Olho de Hórus ou Udyat é um símbolo proveniente do Egito Antigo

“Esse é um dos mais antigos e mais difundidos símbolos para representar a onisciência. Nós o encontramos no Egito e na Índia, e no Egito Olho Aberto representava Osíris… na Índia, Shiva é representado por um olho.”
(Carl Claudy, Introduction To Freemasonry: Entered Apprentice, Fellowcraft, and Master Mason Complete In One Volume)

Segundo uma lenda, o olho esquerdo de Hórus simbolizava a Lua e o direito, o Sol. Durante a batalha, o deus Seth arrancou o olho direito de Hórus, o qual foi substituído pelo amuleto do olho, que não lhe dava visão total, colocando também uma serpente sobre sua cabeça. Depois da sua recuperação, Hórus pôde organizar  novas lutas que o levaram à vitória decisiva sobre Seth. Era a união do olho humano com a visão do falcão, animal associado ao deus Hórus.

“Ele atirou um de seus olhos no poço de Mimir em troca de um gole de sabedoria…”(Sail, history of the gods, pg 65)

O que se torna evidente nesse trecho, é uma passagem da mitologia nórdica, em que o deus Odin, ou Wotan, arranca um de seus olhos e o joga, como oferenda, em um poço místico e sagrado, para que alcançasse uma sabedoria maior do que antes possuía. Em todo momento , Tolkien manteve a visão cristã, tendo como fundamento a teoria criacionista.

Se observarmos Sauron,  vemos que sua tipologia pode ser facilmente associada ao mal, já que ele exerce o papel de antagonista ou vilão. Odin renunciou a sua forma física para obter sabedoria. O Senhor do escuro, sob um disfarce de Annatar, o Senhor dos Presentes, se juntou aos elfos ferreiros de Eregion na criação dos anéis do poder. Mas foi na Montanha do Fogo Ardente de Orodruin, ele forjou secretamente o Um Anel. Vemos que, mesmo tendo objetivos diferentes, os dois – o deus Odin e o maia Sauron – fizeram renúncias físicas.

É fato que todos os Ainur tinham o poder de se metamorfosear, sendo que Sauron assumiu diversas formas. Mas novamente temos uma semelhança, pois em muitas passagens sobre as andanças de Odin ele aparece sob o disfarce de um viajante, em uma enorme capa azul ou cinza, com um chapéu de abas largas, quebradas em cima do olho perdido, como nas baladas édicas. Odin aparece com pseudônimo de Grimnir (o disfarçado), em outros momentos da mitologia.

“Já que o olho que tudo vê representa o Osíris egípcio, vejamos quem é Osíris. Ele cometeu incesto com sua irmã Ísis, o que resultou no nascimento de Hórus… o deus egípcio dos mortos, bem como um deus-sol… Osíris é conhecido por muitos outros nomes em outros países. Na Trácia e na Grécia era conhecido como Dionísio, o deus dos prazeres, das festas e do vinho. Os festivais realizados em homenagem a Dionísio freqüentemente resultavam em sacrifícios humanos e ritos sexuais orgiásticos. Os frígios conheciam Osíris como Sabásio, e ele era adorado como a divindade solar (um deus-sol) que era representada por chifres e tinha como emblema uma serpente. Em outros lugares, ele era conhecido por outros nomes: Deouis, Júpiter-menino, Órion, Saturno, Plutão-menino, Iswara, o Alado, Ninrode, Adônis, Hermes, Prometeu, Poseidon, Butes, Dardano, Hímero, Ímboro, Iaso, Zeus, Iaco, Hu, Thor, Serapis, Ormuz, Apolo, Tamuz, Atus, Hércules, ou Shiva, Moloque e, acredite se quiser, BAAL!” (Burns, Masonic and Occult Symbols Illustrated, pg 359)

 

Quando se fala da serpente, outro paralelismo é encontrado nesta citação. Como já falamos, Sauron podia adotar diversas formas. Durante a Primeira Era, sua forma costumeira parece ter sido a de um feiticeiro escuro, exercendo a função de comandante de várias criaturas malignas, em especial os Lobisomens. Foi nesta época que Sauron assumiu a forma de um lobo monstruoso em Tol-em-Gaurhoth para lutar contra Huan.  Durante essa batalha, Sauron se  transformou em uma serpente:

“Contudo, nem feitiço nem encanto, nem garra nem veneno, nem arte demoníaca nem força animal, nada conseguiu derrubar Huan de Valinor. E ele abocanhou o adversário pela garganta e o dominou. Sauron, então, mudou de forma, de lobo para serpente, e de monstro para sua forma costumeira, mas não conseguiu se livrar de Huan sem abandonar totalmente seu corpo. Antes que seu espírito imundo deixasse sua casa sinistra, Lúthien veio até ele e disse que ele perderia sua vestimenta de carne, e seu espectro seria mandado trêmulo de volta a Morgoth” (J.R.R Tolkien, O Silmarillion, pg 114)

Dessa forma, mais uma vez é registrado os padrões da herança cristã de Tolkien. A serpente, tipo de idealização do mal e do engano na história do pecado original está presente. Sendo simbologicamente representada no momento furtivo de Sauron. Tolkien  faz questão de evidenciar o bem e o mal em seus escritos.

O deus Baal também pode ser associado à figura de Sauron. Baal era adorado pelos antigos habitantes da Mesopotâmia, sendo que mais tarde ele deu origem ao nome Beliel ou Belial. Este personagem teve a sua origem muito anteriormente como o príncipe do mundo epíteto que lhe garantia uma superioridade em relação aos outros componentes da divindade desta época. Baal era conhecido também por Enki – O Senhor da Terra. Se estudarmos a etimologia do nome Enki, veremos que se trata de um deus do subterrâneo, correspondente ao caos primordial de outras culturas antigas.

As semelhanças são visiveis, mas não podemos tamá-las como a regra. Pode ser que o professor  tenha desejado fazer uma personagem de maneira despretensiosa (o que eu não creio) mas estamos aqui para pesquisar, não é? Seja como for, paralelismos e analogias com as obras do professor sempre serão feitos.

É certo que a  bem sucedida criação de uma mitologia própria se fortifica mais e mais através dos tempos. Pesquisas, devaneios de autores e amantes da cultura Tolkieniana nunca acabarão, isso é fato. É uma eterna busca. Mas se um dia essa busca acabar… podem ter certeza, a 4ª era terá início.

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3 comentários

  1. Eliane /

    Mitologias à parte, o olho de Sauron pode ser colocado como um olho que nos vigia por uma janela, janela essa que dá para outra dimensão. Se levarmos em consideração as hipóteses de autores, como Davi Icke que diz que os reptilianos (que são répteis, como diz o nome) nos observam como por uma janela, vez que estariam na 4ª dimensão e nós estaríamos na 3ª, o olho de Sauron faz sentido…

  2. “Os frígios conheciam Osíris como Sabásio, e ele era adorado como a
    divindade solar (um deus-sol) que era representada por chifres e tinha
    como emblema uma serpente. Em outros lugares, ele era conhecido por
    outros nomes: Deouis, Júpiter-menino, Órion, Saturno, Plutão-menino,
    Iswara, o Alado, Ninrode, Adônis, Hermes, Prometeu, Poseidon, Butes,
    Dardano, Hímero, Ímboro, Iaso, Zeus…”

    Discordo.São vários Deuses diferentes uns dos outros.Deonde vem essa citação?

    • Olá Karol Guimarães!Bom, esta referência está no texto : (Burns, Masonic and Occult Symbols Illustrated, pg 359)
      Você pode encontrar esse livro à venda na Amazon caso queira conhecer mais: http://www.amazon.com/Masonic-Occult-Symbols-Illustrated-Cathy/dp/1891117122

      É bem verdade que são vários Deuses conhecidos e diferentes, mas se você atentar para a interpretação desta passagem, a citação expressa a simbologia de poder que era encontrada nos demais deuses além de Osíris, sendo assim , muitos povos, adoravam pelo poder que era transmitido e não pelo nome. Por isso faz-se essa analogia de que Osíris era conhecido por muitos nomes. Pelo simples motivo, de que, muitos nomes dos quais conhecemos hoje, foram designados só na atualidade. No passado alguns deuses eram adorados sem até mesmo seus nomes chegarem ao conhecimento dos povos.

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