Nota de esclarecimento sobre o novo padrão de tradução de Tolkien no Brasil pela HarperCollins Brasil

 

Dando o direito de resposta para a editora Harper Collins Brasil sobre a polêmica dos erros “Orque” e “Gobelim”. Foi nos enviado o texto que se segue. É importante ressaltar que até o momento não ocorreu nenhum debate direto e pelo texto apresentado nos parece que não chegaram a ler o que foi postado no site Tolkien Brasil, pois o texto apresenta muitas falhas de argumentos, mas que serão oportunamente evidenciados. A seguir um vídeo com comentário da resposta da editora.

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No complexo processo de edição de livros, os tradutores são parte fundamental. A arte de traduzir demanda do tradutor o conhecimento e a sensibilidade para transformar enunciados enigmáticos na língua original, de modo que o leitor possa compreendê-los em sua língua materna. Para isso, é preciso moldar a linguagem, gerando inevitáveis alterações em relação ao original. Uma tradução nunca será a mesma coisa que o livro original, pois traduzir não se resume a transferir ou substituir palavras de um idioma a outro. Pressupor que uma tradução é única e idêntica ao seu original é também pressupor que as línguas são transparentes e, desse modo, o tradutor seria mero “reprodutor” das ideias do autor. Não é bem assim: há muitos impasses linguísticos e culturais que uma boa tradução precisa superar de maneira adequada.

J.R.R. Tolkien representa um esforço dobrado na empreitada da tradução. O próprio autor, que era um filólogo de renome, reafirmou muitas vezes que, antes de qualquer coisa, toda a sua mitologia foi escrita com o intuito de dar um mundo às línguas inventadas por ele. Ou seja, cada palavra escolhida por Tolkien não é apenas um veículo para a narrativa, mas parte integrante do mundo subcriado. Assim, a riqueza poética e a complexidade linguística de sua obra são incomparáveis.

Por tudo isso, editar e traduzir a obra tolkieniana foi um desafio que nós, da HarperCollins Brasil, abraçamos ao lado de uma série de entusiastas e especialistas que foram incorporados ao projeto para pensar em cada detalhe. Além da dificuldade que uma tradução coerente de Tolkien exige por si só, a grande adversidade de encarar a reedição de obras cujo universo já está consolidado no imaginário popular — se não pelos próprios livros, já traduzidos anteriormente, pelas adaptações cinematográficas de seus principais títulos, O Senhor dos Anéis e O Hobbit — também não pode ser desconsiderada. Desse modo, apesar de alguns termos não terem sido traduzidos anteriormente da maneira “mais adequada” (do ponto de vista da fidelidade com o sentido proposto por Tolkien), alguns já estavam tão arraigados na cultura popular que sua alteração poderia gerar ruído entre os leitores. O que fazer diante disso?

Cada caso foi levado em conta e discutido individualmente por toda a equipe envolvida nesta nova produção. Todos os critérios de padronização e tradução foram exaustivamente debatidos por um conselho de especialistas chamado, internamente, de “Conselho de Tradução”. Esse conselho discutiu, literalmente, cada tradução de termo, cada raiz de palavra, cada associação fonética para que se chegasse a um consenso. Portanto, todas as conclusões adotadas nas obras impressas são fruto do acordo das seguintes pessoas: Samuel Coto (gerente editorial da HarperCollins Brasil), Ronald Kyrmse (tolkienista, membro há quase 40 anos da The Tolkien Society e tradutor de mais de uma dezena de livros de Tolkien), Reinaldo José Lopes (jornalista, autor e tradutor com mestrado e doutorado concentrado em tradução de Tolkien) e Gabriel Oliva Brum (tradutor literário especializado em ficção especulativa).

Em alguns casos, algumas decisões tomadas destoam um pouco das traduções anteriores. Todas elas foram pensadas e repensadas, buscando chegar sempre ao termo que, na opinião conjunta dos integrantes do Conselho, seria aquele que Tolkien escolheria se escrevesse em português. Para tanto, o Conselho procura consultar, principalmente, o texto “Nomenclatura de O Senhor dos Anéis” ou “Guia para os nomes de O Senhor dos Anéis”, escrito pelo próprio Tolkien e publicado em diferentes coletâneas. Em tal Guia, o autor deixa bastante claro o que se podia ou se devia traduzir da nomenclatura de seus livros e o que ele queria que ficasse intacto.

Tolkien explica no Guia que “no texto original, o inglês representa a fala comum (FC) do suposto período […]. A LT [Língua de Tradução] agora substitui o inglês como o equivalente da fala comum; os nomes em inglês devem, portanto, ser traduzidos para a LT de acordo com seu significado (o mais próximo possível)” (2005, p. 751).

Portanto, tudo aquilo que estava em westron (Fala Comum), que foi “traduzido” para o inglês por Tolkien, deve ser traduzido para o português, que assume seu lugar como Língua de Tradução. A partir da citação acima é possível perceber, ainda, que o próprio Tolkien entendia que uma tradução sempre abre uma pequena margem para adaptação, ao mencionar que tudo deveria ficar “o mais próximo possível”. Outro exemplo que demonstra que Tolkien entendia que o trabalho do tradutor merece certa discricionariedade nas escolhas foi quando comentou sobre a tradução de Rivendell [Valfenda]. Assim está exposto no Guia: “Mas é claro que o tradutor está livre para conceber um nome na LT que seja adequado em sentido e/ou topografia; nem todos os nomes na FC são traduções precisas daqueles em outras línguas” (2005, p. 752).

A parte destacada da citação acima é cristalina em evidenciar a impossibilidade de haver correspondência exata entre termos de todas as línguas. Foi por isso que traduções ao redor do mundo fizeram, em maior ou menor grau, diversas adaptações de nomenclatura. O que dizer, por exemplo, da tradução italiana de O Senhor dos Anéis (1967) que, por discricionariedade da tradutora, optou por não traduzir Orc para o correspondente Orco, e sim para seu diminutivo Orchetti? Sem dúvidas, foi uma tradução adaptada. E tal adaptação contou com a aprovação do próprio Tolkien, que chegou a elogiar a escolha. Ademais, outras traduções escolheram “traduzir” Orc/Orcs para criaturas similares em suas culturas, mas que, sabe-se, não são correspondentes exatos. Tudo isso faz parte do processo editorial, como comentado no início desta nota.

Por esse motivo, optou-se por utilizar, no novo padrão de tradução, a palavra Orque/Orques quando no original em inglês foi utilizado Orc/Orcs, por exemplo. Como mencionado antes, Tolkien determinou que a língua de tradução substitui o inglês; portanto, no caso de Orc/Orcs, deve haver uma tradução. Porém, como fazer isso se não dispomos de um termo correspondente em nossa língua nativa? A solução encontrada pelo Conselho de Tradução uniu a bagagem teórica de seus membros às instruções de Tolkien.

Em seu Guia, que foi especificamente direcionado a línguas germânicas, como alemão, sueco, dinamarquês, etc., Tolkien recomendou aos tradutores germânicos uma certa adaptação quanto ao termo Orc, que deveria ser escrito Ork. Portanto, para nossa língua, o termo foi aportuguesado para Orque, seguindo o tipo de adaptação recomendada, mas no estilo de línguas românicas, como português, francês, italiano etc. Como Orc é uma palavra em inglês e “a Língua de Tradução agora substitui o inglês como o equivalente da fala comum”, não faria sentido mantê-la em sua grafia original. Com Orque/Orques, mantêm-se também a similaridade fonética com o original Orc/Orcs.

Ademais, o próprio Tolkien confirma a possibilidade dessa grafia em uma língua românica (no caso, em francês) em um trecho da Carta n. 144 (de 25 de abril de 1954): “Assim, yrch “orcs, alguns orcs, des orques” ocorre em vol I pp. 359, 402 […]”.

Desse modo, concluímos que a HarperCollins Brasil passou a fazer uso de um termo utilizado pelo próprio J.R.R. Tolkien, tendo sido seguidas todas as suas instruções: substituiu-se o inglês pela Língua de Tradução (português), adaptando-se o termo (diante da inexistência de um correspondente exato em português) para outro, cujo uso já havia sido indicado pelo autor no francês (Orques), idioma que possui a mesma origem românica de nossa língua nativa. Ou seja, o critério para a adoção do termo Orque em português não apenas está de acordo com as orientações do próprio autor, como está dentro da discricionariedade do tradutor, também reconhecida pelo autor em seu Guia.

Vale mencionar que a questão do termo Orque/Orques é apenas uma partícula de um amplo e diverso espectro sobre o qual o Conselho de Tradução vem se debruçando há meses para que a tradução seja feita com a máxima fidelidade possível à intenção original de Tolkien. Diversos outros pontos também são objeto de minuciosa análise, tais como critérios de padronização em hifenização, manutenção de idiossincrasias do próprio original tolkieniano (que podem parecer despadronização ao leitor desavisado), entre outras.

A complexidade e o estilo característicos de Tolkien são tão fora do comum que os revisores de sua época costumavam, por vezes, corrigir termos e expressões que, na verdade, nada tinham a ser corrigidos, e Tolkien precisava lhes escrever explicando por que tinha escolhido esta ou aquela palavra. Um exemplo é o plural de dwarf [anão], que, segundo as regras gramaticais da língua inglesa, deve ser grafado dwarfs [anões]. Tolkien, contudo, adotou um plural “não convencional” para a palavra, grafando, de forma irredutível, dwarves como plural de dwarf. Ele chegou ao ponto de irritar-se com os revisores de O Senhor dos Anéis, que insistiam em “corrigir” a palavra para dwarfs. Embora as palavras inglesa e portuguesa sejam de origens distintas, optou-se por manter em português um plural diferenciado, que refletisse, assim, dentro do possível, a singularidade dos anões tolkienianos e do uso preferido por Tolkien da grafia no original. Assim, embora o singular dwarf seja traduzido e escrito normalmente como anão, o plural dwarves aparece como anãos, forma que, de acordo com as regras do português, não é errada, apenas menos usual que anões.

Além disso, o modo de escrita, por vezes arcaico, de Tolkien não raro faz com que o leitor de língua inglesa precise fazer uso de um bom dicionário. Textos escritos entre os anos 1910 e 1920, como “A Queda de Gondolin”, fazem parte de uma fase peculiar da escrita do autor; são textos que soam bem estranhos e arcaicos em inglês e, por isso mesmo, também precisam soar dessa mesma forma em português. Isso tanto é verdade que Christopher Tolkien, como editor de A Queda de Gondolin e de Beren e Lúthien, fez questão de colocar, ao final de ambos os livros, uma seção de glossário com termos obsoletos, arcaicos e palavras raras. Inclusive, alguns dos nomes próprios que fazem parte das línguas inventadas por Tolkien têm grafias ligeiramente diferentes de versões posteriores, a exemplo de Melko, que depois recebeu um “r” no final (Melkor), fato este que poderá causar um impacto extra aos leitores já habituados às obras O Senhor dos Anéis e O Silmarillion.

Com relação ao eventual estranhamento quanto a termos que agora aparecerão de forma diversa daquela encontrada em traduções anteriores, jogos derivados ou adaptações cinematográficas, ainda que o apego do público a uma ou outra expressão consolidada deva ser considerado, ele não pode servir de parâmetro para o trabalho se estiver em desacordo com o esmero técnico que se espera de uma obra de J.R.R. Tolkien.

A editora reitera que está aberta às críticas e, a partir de argumentos sólidos, não descarta a possibilidade de repensar escolhas que se provarem equivocadas. Contudo, o critério para determinar a adequação ou não de um termo não pode ser o gosto pessoal ou mesmo a consolidação do termo em uso “por costume” por parte de alguns leitores, pois isso seria um desrespeito ao legado linguístico e literário de Tolkien.

Por fim, é impossível determinar com 100% de certeza qual seria a preferência de Tolkien para tradução ou adaptação de alguns termos, uma vez que ele mesmo não pode mais fazer tal avaliação. Mas, com base em outras traduções — inclusive a já mencionada italiana, que contou com a aprovação do autor e preferiu a utilização do diminutivo da palavra Orco (Orchetti) devido a uma interpretação completamente subjetiva sobre o tamanho físico das criaturas de Tolkien, a despeito de seu significado original no inglês antigo —, tendo como referência as próprias diretrizes do autor e, até o momento, considerando a falta de conclusões objetivas em relação às poucas críticas que a nova tradução recebeu, sentimo-nos confiantes de que estamos fazendo um projeto editorial o mais coerente possível com a proposta de Tolkien. Assim, fazemos nossas as palavras do próprio autor em carta a seu editor na época da publicação do primeiro volume de O Senhor dos Anéis, em 1954: “I have exposed my heart to be shot at” [Expus meu coração para que ele fosse alvejado”].

Referências

CARPENTER, Humphrey. As cartas de J.R.R. Tolkien. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, no prelo.

TOLKIEN, J.R.R. “Nomenclature to The Lord of the Rings”. In: The Lord of the Rings: A Reader’s Companion. Londres: HarperCollins, 2005.

 


By

Eduardo Stark
Eduardo Stark
Leitor das obras das J.R.R. Tolkien por mais de vinte anos. Membro e apoiador de diversas instituições de promoção internacional das obras de Tolkien e C.S. Lewis. Tais como: The Tolkien Society, C.S. Lewis Society, The Mythopoeic Society, Newman Association, Viking Society dentre outros.
Advogado e Professor.

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